Filhos da Insegurança (filhos de alcoolistas)

Analisar os impactos negativos sobre as crianças, que tornam-se cedo demais excessivamente responsáveis, vivendo num regime de urgência e de insegurança, que lhes rouba o melhor da infância e perturba para sempre sua relação com a realidade do mundo e dos outros.

Estabelecer uma comparação entre as crianças crescidas num ambiente sadio e as que tiveram que se desenvolver no clima doentio do alcoolismo paterno ou materno. Com base nessas observações.

Estudos apontam que filhos de alcoolistas têm maior chance para o desenvolvimento de depressão, suicídio, desordens alimentares, ansiedade, fobia social e para o desenvolvimento de comportamentos violentos, dependência química, envolvimento com acidentes e gravidez na adolescência (Christensen & Bilenberg, 2000; Furtado e cols., 2002; Mylant, Ide, Cuevas & Meelhan, 2002; Figlie e cols., 2004).

A família alcoolista tende a centrar-se no álcool, esquecendo de oferecer assistência às crianças. Por exemplo, as necessidades normais de dependência dos filhos não são satisfeitas e a criança pode experenciar um sentimento crônico de tristeza e perda, que se manisfesta em depressão e num senso de ser “diferente” dos outros. Quando adulto, esse indivíduo pode experenciar isolamento emocional, medo da intimidade e tendência a reagir passivamente em vez de agir em seu próprio interesse.

Características :

Não confiar
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Numa família alcoólica ou disfuncional promessas são freqüentemente esquecidas, celebrações canceladas e o humor dos pais geralmente imprevisível. Como resultado, Filhos Adultos aprendem a não contar com os outros e freqüentemente tem dificuldade em acreditar que os outros podem se preocupar em seguir seus compromissos ou promessas.
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Não sentir
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Devido a constante dor do desapontamento, a criança numa família alcoólica deve “parar de sentir” para sobreviver emocionalmente. Afinal qual a utilidade de se ferir o tempo todo? Nessas famílias, quando as emoções são expressas, elas são freqüentemente abusivas e estimuladas pela bebida.
Essas explosões não tem resultados positivos e junto com o ato de beber, são habitualmente negados no dia seguinte. Assim, Filhos Adultos tem poucas oportunidades para ver emoções expressadas apropriadamente e usadas para estimular mudanças construtivas. Então os Filhos Adultos pensam: “por que sentir alguma coisa quando os sentimentos somente saem do controle e não mudam nada de fato? Eu não quero me ferir mais do que eu já faço”.
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Não falar
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Filhos Adultos aprendem em suas famílias a não falar sobre boa parte de sua realidade- o ato de beber de alguém ou outra disfuncionalidade. Isso resulta na necessidade da família em negar que um problema existe e que o ato de beber ou disfuncionalidade de alguém está ligado a esse problema.
Isso que é tão evidente não precisa ser comentado. Há freqüentemente uma esperança que se ninguém falar sobre o problema ele simplesmente não virá a se repetir. Também não há nada de bom para falar. E impossível falar quando um parente esta alcoolizado. Quando o parente esta sóbrio, todos querem esquecer. Desse treino desde cedo, Filhos Adultos geralmente desenvolvem uma tendência a não falar em nada desagradável.
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Filhos Adultos se preocupam com o que é “ser normal”
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Não há nenhuma referência para o que possa ser uma família normal. Você também não tem referências sobre o que pode ser falado e sentido. Numa situação mais saudável, você não precisa pisar em ovos todo o tempo.
Por você ter feito isso, você se torna confuso. Muitos acontecimentos do passado contribuem para que você se preocupe com o que é ser normal.
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Filhos adultos tem dificuldade em seguir um projeto do início ao fim.
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Em lares saudáveis, a criança tem este comportamento e atitudes como modelos. A criança observa o processo e pode eventualmente Ter perguntas durante o seu desenvolvimento.
O aprendizado pode ser mais indireto do que direto, mas está presente. Devido a sua experiência Ter sido bem diferente, não deve ser uma surpresa que você tenha problemas em seguir um projeto do inicio ao fim.
Mentir é a base do sistema familiar afetado pelo álcool. Ele mascara em parte a visível negação de realidades desagradáveis, encobre situações, promessas não cumpridas e inconsistentes. Mentir como norma em sua casa tornou-se parte do que você conheceu e sobre o que pode ser útil para você. De vez em quando, mentir faz a vida muito mais confortável.
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Filhos Adultos julgam eles mesmos sem misericórdia.
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O seu julgamento dos outros não é nada perto daquele destinado à você mesmo. Branco e preto, bom ou mau, são as maneiras típicas pelas quais você enxerga as coisas. Você sabe o que é se sentir mal, e como esses sentimentos fazem você se comportar. E então, se você esta bem há sempre o risco de que não vá durar. 
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Filhos Adultos se levam muito a sério.
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Essas duas características estão intimamente ligadas. Você não escuta seus pais rindo , brincando ou relaxando. A vida é uma coisa muito séria. O humor da sua casa não permite que haja algum tipo de relaxamento. Eventualmente você simplesmente convive com os outros.. Se divertir, relaxar, não era permitido. A sua criança interior foi reprimida.
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Filhos Adultos tem dificuldades com relacionamentos íntimos.
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Os sentimentos de estar inseguro, ter dificuldade em confiar ou de se magoar, não são exclusivos de Filhos Adultos. Esses são problemas que muitas pessoas tem. É simplesmente uma questão de grau, você sendo um Filho Adulto faz com que algumas dificuldades normais venham a ser mais intensas.
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Filhos Adultos reagem de forma excessiva quando não tem o controle de uma situação.
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O jovem filho de uma família alcoólica ou disfuncional não estava no controle. A vida do alcoólico ou de outro pai/mãe disfuncional foi imposto à eles, assim como seu ambiente. Para sobreviver quando estava crescendo, ele teve que mudar. Ele teve que se encarregar de criar seu próprio ambiente para o desenvolvimento. Isso foi muito importante e muitas lembranças ficaram. O filho de um alcoólico aprendeu a confiar somente nele mais do que em qualquer outra pessoa quando era impossível contar com o julgamento de outra pessoa para ajudá-lo.
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Filhos Adultos procuram constantemente aprovação e afirmação.
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A mensagem que você teve quando criança foi muito confusa. Não havia um amor incondicional. A definição não era clara e a mensagem eram misturadas. “sim, não, eu te amo, vá pra longe”.
Então você cresceu confuso sobre seu real valor.
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Filhos Adultos sentem-se diferentes das outras pessoas.
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Sentir-se diferente é algo que você deve ter desde sua infância e mesmo em circunstâncias que não havia garantiam isso o sentimento prevalecia.
Outras crianças tiveram a oportunidade de serem crianças, você não. Você estava muito preocupado com o que acontecia em sua casa. Você pode nunca ter se sentido completamente a vontade brincando com outras crianças. Você não estava completamente lá. Você se preocupava com os problemas de sua casa que tomavam espaço de todo o resto em sua vida.
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Filhos Adultos são super responsáveis ou muito irresponsáveis.
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Ou você pega tudo, ou abandona tudo. Não há o caminho do meio. Você tenta agradar seus pais fazendo mais e mais ou você chega num ponto em que reconhece que isso não importa, então você acaba não fazendo nada.
Esse sentimento faz com que o Filho Adulto muitas vezes repita esse padrão, ao manter-se em relacionamentos cujo melhor destino seria a separação ou uma ruptura de algum tipo.
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Filhos Adultos são impulsivos
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Filhos Adultos tem a tendência a prender eles mesmos em um modo de agir sem pensar seriamente em comportamentos alternativos ou possíveis conseqüências. Essa impulsividade leva a confusão, uma sensação de auto-ódio e a perda do controle sobre a situação. Alem disso eles perdem uma excessiva quantidade de energia arrumando a bagunça que fizeram
 
 

Fonte-http://www.moreirajr.com.br/

Joseane de Souza
Psicóloga. Doutoranda do Curso de Pós-graduação em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP.
Ana Maria Pimenta Carvalho
Professora doutora do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP.
Endereço para correspondência: R. Sorocaba, 465 C.P. 248 CEP 85055-090 Guarapuava – PR. E-mail: Joseanepsico@ig.com.br

Delicadeza – Elisabete Cunha

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Eu adoro a língua portuguesa.

Sempre adorava minhas aulas de Português, era uma boa aluna de uma matéria só: “Português”, o meu boletim sempre vinha com notas altas e em azul e por algumas razões não gostava na mesma intensidade das aulas de Matemática.

Para mim a Matemática era muito exata, muito concreta e gelada. As letras não…eram abstratas. Eu podia criar palavras, fantasiar situações e alimentar a minha cabecinha de criança ao escrever e isso me fazia feliz.

Sempre viajei nas palavras, histórias, contos , no significado, no peso e na leveza de cada uma delas.Tem palavra que tem até cheiro e gosto . Isso sem falar do poder de levantar e derrubar qualquer pessoa.

Tenho paixão por palavras terminadas com o sufixo EZA…

(com o sufixo esa , não me interesso muito).

A minha predileta é DELICADEZA. Mas, também gosto de beleza, certeza, gentileza, clareza, fineza, firmeza,franqueza, grandeza,leveza, limpeza, nobreza, pureza e algumas outras lindezas.

Mas, como nada é perfeito tambem existem :
Frieza, Dureza e TRISTEZA.

P.S.. Não sei, só sei que é assim!
(Como diria o Suassuna , aquele que escrevia numa boniteza retada )

Elisabete Cunha

Sobre o abandono – Marla de Queiroz

 

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Art by Picasso

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Frequenta o abandono quem vive um quase namoro, fantasia reciprocidade, aceita abraço frouxo, conversa sem olho no olho, ausência de carícia.-

Frequenta o abandono quem chama a rejeição de saudade, implora por qualquer fiapo de atenção, enfeita sua própria desvantagem. 

Frequenta o abandono quem vê na recusa uma possibilidade de mudança ignorando os sinais óbvios da distância.

Frequenta o abandono quem não reconhece que ser bem tratada não é um mérito, mas uma condição e segue chamando migalhas de banquete.

Frequenta o abandono com assiduidade quem se contenta com tão pouco que o Outro para mantê-la descobre que pode dar cada vez menos.

Frequenta o abandono quem não está disponível pra viver um romance porque namora um drama.

Marla de Queiroz

ENCONTRO – Marla de Queiroz

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Quando me encontrei comigo, eu estava de passagem. Gostei tanto de quem conheci que resolvi andar junto, lado a lado, dentro.Eu introjetei em mim aquela pessoa que, finalmente, não estava mais vivendo levianamente, mas participando verdadeiramente da realidade. Foi estando muito lúcida que pude me embriagar de arte e deixar minha imaginação inventar os caminhos que ela trilharia. Conheci paisagens, às vezes, muito familiares, mas o meu olhar era inédito.

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Não sou mais imediatista quando me faço companhia, pois essa nova pessoa respeita o seu próprio tempo.Por isso, também é preciso evitar alguns lugares, pessoas, antigos hábitos e pensamentos. O passado só me cabe para servir como base para o que tenho me tornado. Cada dia eu amanheço numa página em branco e vou dormir numa outra cheia de coisas que escrevi e vivenciei. A única garantia é que nem sempre encontro o que procuro, mas sempre busco o estado e o lugar mais confortáveis para mim.

Eu mereço experienciar esta fascinação pela vida e a liberdade de ser exuberante e transformar o chão em céu, o mar em útero, meu corpo em Templo. Respeito os que vivem de outro modo, porque meu caminho não é o certo nem o único, é o que eu escolhi para mim quando lancei mão do meu livre arbítrio.


E nasci apaixonada pelo amor, mas só agora, me fazendo companhia, é que ele deixou de ser uma palavra para se tornar uma experiência.
Sou muito grata por estar na esquina aonde eu estava passando e por ter me dado a mão…Caminhamos juntas: eu comigo mesma!

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Marla de Queiroz

 

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A Marca da Saudade – Ita Portugal

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Saudade não se cura, não se mata, não possui juízo, não leva desaforo prá casa. Saudade não se confronta, não possui companhia, não tem prazo de validade. Saudade não possui destino certo, não fica impotente. Saudade toca flauta no coração lembrando sua presença.

A saudade é muda, silenciosa, companhia no desamparo. A saudade é o sentimento que despe a alma. Saudade que se preze é cheia de intenções e a maior delas é ressuscitar as lembranças. Saudade respeitada é aquela que abre a porta do passado, por teimosia, engaiola as certezas e interdita os novos amores.

A saudade é a bagunça afetiva que não nos ensinaram a arrumar. É a solidão fantasiada de melancolia. Sentir saudade é querer o manjar do passado que está estragado. É continuar o ritual, agora sem companhia. É dançar sem música, correr sem adversário, cantar sem afinação, tocar sem partitura, seduzir sem parceiro, sentir frio no banco da praça, sem cobertor para aquecer.  

Saudade é o canto da sala que não foi varrido, mas pode ser a nossa chancela e nosso exílio, nossa tragédia ou reeducação amorosa. Saudade é o fervor escondido do que se foi. Toda saudade é um pouco fantasma que se alimenta na nossa solidão. É cortar as asas do nosso coração para não deixá-lo voar. Saudade é tudo que dizem por aí. Saudade é o tropeço que o amor deixou.

Ita Portugal

O que é resiliência? – Dr. Cristiano Nabuco

 

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O termo resiliência quer dizer – em seu significado original, na Física, – o nível de resistência que um material pode sofrer frente às pressões sofridas e sua capacidade de retornar ao estado original sem a ocorrência de dano ou ruptura. A Psicologia pegou emprestada a palavra, criando o termo resiliência psicológica para indicar como as pessoas respondem às frustrações diárias, em todos os níveis, e sua capacidade de recuperação emocional. Falando de uma maneira bem simples, quando mais resiliente você for, mais fortemente estará preparado para lidar com as adversidades da vida.

Embora exista certa controvérsia a respeito dos indicadores de uma boa resiliência, não se acredita que ela seja resultante de um traço de caráter ou de personalidade. Na verdade, a melhor definição da palavra seria o resultado de um processo de aprendizagens de vida. Portanto, você, assim como eu, está apto para desenvolvê-la.

O treinamento começa desde cedo

Desde a infância, pessoas que ativamente se esquivam das dificuldades ou que são isoladas dos problemas cotidianos (como fazem alguns pais para “poupar” a criança), deixam de “treinar” suas habilidades resilientes. Desta forma, quando crescem, tais indivíduos não conseguem apresentar repertórios adequados de enfrentamento aos problemas e, desta forma, perdem a habilidade de atravessar as situações de crise de maneira construtiva.  Sua falta de habilidade faz com que reajam em excesso (aumentando assim o tamanho das adversidades) ou, no polo oposto, respondam de maneira passiva, ou seja, permanecem anestesiados frente aos dilemas, perpetuando-os.

Um dos princípios mais importantes neste aprendizado diz respeito ao que chamamos de capacidade de enfrentamento de uma pessoa. Eu explico: em todas às situações adversas que passamos podemos compreendê-las de duas formas.

A primeira diz respeito a uma interpretação mais negativa dos fatos, ou seja, entendemos que coisas ruins que acontecem a nós estão fora de nosso raio de ação, pois não temos a menor responsabilidade a respeito de sua ocorrência. Nesta posição, como  não temos controle pelo acontecido, não exibimos nenhuma atitude de mudança. E, assim, assumimos uma postura de vítima das circunstâncias da vida.

Uma segunda possibilidade diz respeito a uma interpretação mais ativa dos fatos, ou seja, podemos assumir que parte dos problemas e das dificuldades que vivemos dizem única e exclusivamente respeito a nossa forma de agir no mundo, e portanto, entendemos que possuímos alguma responsabilidade sobre o fato.

Assim, quando eu me vejo parte integrante do problema e pelo que acontece a minha volta, recupero a possibilidade de mudar as coisas que não me fazem bem. Aqui, exatamente, encontra-se um dos maiores dilemas humanos. Embora muitas pessoas desejem ativamente mudar as situações de sua vida, dificilmente querem se automodificar. Mudar então é apenas um desejo.

Nesse sentido, nossa atitude mental frente às adversidades é uma das primeiras lições para construir uma boa resiliência psicológica, pois nos possibilita uma postura mais ativa: a de nos tornamos responsáveis pelo que acontece a nossa volta. Um bom exemplo deste posicionamento pode ser compreendido através de antigo ditado que diz: “não importa o que fizeram conosco, mas sim o que fazemoscom aquilo que fizeram de nós”.

E você leitor, em qual posição mais se situa?… A de vítima ou a de responsável pela sua vida? Se optar por entender sua realidade dentro de uma maneira mais ativa e, principalmente sob seu controle, é provável que sua resiliência seja aumentada de maneira expressiva. Pode não ser muito usual, mas tente praticar este pensamento.

Buscando um sentido

Um segundo ponto que aumenta de forma significativa nossa resiliência é o desenvolvimento de um projeto pessoal de vida. Conhecemos pessoas que vivem apenas contando com o dia de hoje e assim passam por sua vida de maneira quase que inconsciente, alheias a tudo e a todos. Uma importante lição deve ser aprendida neste ponto.

Uma história que merece ser contada aqui é a do psicólogo existencialista Viktor Frankl. Prisioneiro dos campos de concentração, ele teve a oportunidade de observar as mais diversas reações dos prisioneiros frente às atrocidades cometidas pelos nazistas. Em seus relatos, descreve que muitas pessoas em certo ponto não mais conseguiam tolerar o sofrimento e assim deliberadamente desistiam de viver. Faziam isso se jogando contra as cercas eletrificadas, deixando de se alimentar ou, finalmente, se atirando contra os militares e seus cachorros. Em suas notas, descreveu que aquelas que mais suportavam a dor de uma prisão (e que sobreviveram) eram aquelas que desenvolviam um sentido de vida como, por exemplo, guardar comida para um prisioneiro mais fragilizado ou mobilizar-se para conseguir medicações para algum outro mais necessitado. Tais ações, segundo ele, traziam de volta a dignidade humana, pois abasteciam as pessoas com força e determinismo pessoal.

“O sucesso, como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só tem lugar como efeito colateral de uma dedicação pessoal a uma causa maior”, dizia Frankl.  Desta forma, temos em nosso cotidiano que desenvolver projetos que tragam um sentido a nossa existência, pois isso nos torna mais resilientes frente às adversidades da vida. Quando eu tenho um projeto maior para me apoiar, entendo que os problemas são apenas obstáculos a serem superados, pois persigo algo muito maior.

E você leitor, tem algum projeto pessoal maior de vida? O que realmente você espera de sua existência? Veja que não vale desejar ficar rico, pois sabemos que isso por si só não traz dignidade a ninguém. Ter um projeto maior é possuir uma causa que lhe traga sentido. Algo que nos faça sair da cama todos os dias e que seguramente poderá trazer-lhe de quebra mais resiliência.

Entendendo emoções

Finalmente, o tripé da resiliência se apoia na capacidade de compreender o que sentimos. Pode parecer algo mais simples, entretanto, não é o que ocorre. Vivemos usualmente sem entrar em contato com nossas sensações subjetivas e isso pode nos confundir bastante. Estar atento aos nossos sentimentos é uma das maneiras mais simples de desenvolver nossa capacidade de enfrentamento emocional. Entenda que estar em contato com nossas emoções nos faz sermos mais ágeis na busca daquilo que efetivamente nos faz bem, como também na evitação das situações que nos fazem mal. É a chamada inteligência emocional.

Em função de não estarmos habituados a nos conectar conosco, estamos sempre procurando aliviar nossos sentimentos ruins através de atitudes externas como, por exemplo, comprar quando não nos sentimos bem, comer quando estamos ansiosos etc, ou seja, agimos de uma maneira esquiva, na qual nos protegemos de nossos próprios sentimentos desconfortáveis. O ponto central aqui é perceber nosso estado subjetivo para então poder mudá-lo.

Caso você esteja achando difícil minha proposta, vou lhe ajudar. Usarei uma antiga crônica de Clarice Lispector que tem o seguinte título: “Se eu fosse eu”. Diz ela: “Quando a procura de um papel se torna inútil, pergunto-me: se eu fosse eu, em que lugar eu o guardaria?” E complementa dizendo: “Quando eu acho o objeto perdido, fico tão absorvida com a pergunta ‘se eu fosse eu’, que eu começo a pensar, diria melhor, sentir”. E finaliza indagando: “leitor, se você fosse você mesmo, quem você seria e onde estaria?”. Conclui sua crônica dizendo: “É como se a mentira fosse lentamente movida do lugar onde se acomodara e temos então contato com a experiência real da vida”.

Portanto, sabemos o que nos incomoda, apenas decidimos não pensar no assunto, anestesiando-nos. Se esta pergunta lhe deu algum frio na barriga, isso definitivamente é um bom sinal. Caso você ainda não tenha percebido, ainda há tempo para mudar. Se não consegue sozinho, busque ajuda.

Concluindo então nossa conversa: (a) desenvolva um papel ativo em sua vida (não se sinta vítima de sua existência), (b) elabore um grande projeto pessoal (caso ainda não o tenha) e finalmente (c) entenda suas emoções. Posso lhe assegurar que você desenvolverá de maneira espantosa sua resiliência emocional.  Milan Kundera em seu livro A lentidão afirmou que “cada possibilidade nova que tem a existência, até a menos provável, transforma a existência inteira”.

Fonte-http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/

O que é essa tal felicidade? – Dr. Cristiano Nabuco

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Não é de hoje que a felicidade é perseguida por todos nós, sem exceção. Você, leitor, por acaso também quer ser feliz?… Saiba que, durante muito tempo, acreditou-se que a felicidade dependia dos desígnios dos deuses. Essa concepção religiosa da felicidade foi presente durante muitos séculos e em várias culturas. Entretanto, no século IV a.C., Sócrates inaugurou uma concepção a partir da qual buscar a felicidade é uma tarefa de responsabilidade do próprio indivíduo.

A Revolução Francesa, por exemplo, também estabeleceu que o objetivo da sociedade devesse ser a obtenção da felicidade de seus cidadãos. E, nos tempos atuais, a felicidade é considerada um valor tão precioso que a Declaração de Independência dos EUA registra que “todo homem tem o direito inalienável à vida, à liberdade e à busca da felicidade”.

Para sanar qualquer dúvida, fui consultar o dicionário Aurélio e encontrei o seguinte: “s.f. Estado de perfeita satisfação íntima; ventura. / Beatitude; contentamento, grande alegria, euforia, grande satisfação. / Circunstância favorável, bom êxito, boa sorte, fortuna”.

Veja que as definições de felicidade são múltiplas, e embora tenhamos esse direito, não parece tarefa tão simples encontrá-la.

Querido leitor, qual seu palpite?… Você acredita, por exemplo, que ter dinheiro lhe faria mais feliz? Casar-se e ter filhos também? Ter um bom emprego?… Vamos observar algumas questões então.

Felicidade e dinheiro

Comecemos pela resposta mais óbvia. É possível que você tenha pensado que ganhar mais dinheiro poderia lhe fazer mais feliz. Você, assim como muitas pessoas, acredita que quanto mais dinheiro tiver, mais feliz poderá ser. Economistas descobriram que quanto mais se ganha, melhor é a satisfação das pessoas com a vida.

Entretanto, o que você ainda não sabe é que o nível de felicidade não aumenta na proporção do ganho econômico, ou seja, embora possamos ficar mais felizes por  ganhar mais, esse aumento de satisfação vai até certo ponto e se estabiliza, ou seja, de lá não passa (é o que afirmam muitas pesquisas).

Portanto, ainda que você possa acumular mais e mais, sua felicidade não irá aumentar na mesma proporção. Há um velho ditado que capta intuitivamente esta questão ao dizer: “more money, more problems” (mais dinheiro, mais problemas). Moral da estória: talvez a saída não esteja por aqui.

Felicidade e relacionamento

Bem, aqui encontraremos dados controversos. Em primeiro lugar, não é o casamento que faz as pessoas felizes, mas um casamento feliz é que pode contribuir com o estado de felicidade maior.

As pessoas casadas podem ter níveis de felicidade maiores do que as solteiras (ou separadas), mas a qualidade da relação desenvolvida com o cônjuge ainda é que é o principal indicador da felicidade humana, aponta uma pesquisa.

Quanto aos filhos? Bem, aqui vão dados mais polêmicos. A felicidade entre homens e mulheres diminui após o nascimento do primeiro filho, devido ao nível de preocupação e do estresse gerado. Em geral, pesquisadores indicam que casais sem filhos são mais felizes do que casais com filhos. E casais com filhos pequenos são também aqueles com menor índice de felicidade, se comparados aos anteriores, pois possuem preocupações ainda maiores.

E, apesar de fatos científicos apontarem que filhos não trazem felicidade (coisa de pesquisador), talvez o valor afetivo desenvolvido nestas relações (se forem positivas, obviamente) compense as preocupações geradas ao longo da vida junto aos pequenos. Quem sabe…

Bem, se a saída então para ser feliz não está fundamentalmente no dinheiro, nos relacionamentos, na criação dos filhos, é possível então que essa busca seja, na verdade, algo interno e individual, dependendo apenas e exclusivamente de nós.

O que você acha?… Difícil? Vou lhe dar uma pista.

Mito da chegada

Vamos lembrar que a busca de felicidade já se faz presente desde nossa infância. É bem fácil encontrar nos mais variados livros de histórias infantis onde, invariavelmente, nos deparamos com o “final feliz”. É a princesa que recebe o beijo do príncipe e desperta para viver o amor eterno, o pote de ouro que é encontrado ao final do arco-íris, a intervenção divina fazendo-se presente e salvando o reino em guerra, enfim todos acabam felizes para sempre. 

Tais parábolas são importantíssimas, pois têm como função mostrar às crianças desde cedo que o bem triunfa sobre o mal, que existe bondade, justiça, além de ser uma ótima maneira de incutir ideias e valores a respeito da importância de se viver uma vida regida pela boa moral e pela ética. E, até aqui, tudo bem.

Entretanto, deixamos de ser crianças, crescemos e, por força do hábito, continuamos a acreditar que existe o final feliz das coisas. Assim, aguardamos ansiosos a tão esperada promoção, a viagem dos sonhos, a ocorrência do relacionamento perfeito, a casa nova etc. e, sem perceber, passamos por toda uma vida esperando o dia em que nossos esforços serão recompensados, mas por alguma razão isso nem sempre acontece.

O ponto importante a ser observado aqui é bem simples, eu explico.

Ser feliz e sentir-se bem

Sem perceber, acabamos por confundir ser feliz com sentir-se bem. Veja que dentro dos termos descritos acima, ser feliz sempre envolverá algum acontecimento ou fato externo que irá nos ajudar na realização dos momentos felizes. Portanto, vivemos com o mito da chegada (ou a busca do final feliz) em nossa cabeça, ou seja, com um pouco de sorte, é possível que um dia realizemos alguns de nossos maiores sonhos e possamos, finalmente, ser felizes.

Entretanto, como são fatos externos, não temos o menor controle sobre sua ocorrência e esperamos. Às vezes, talvez por uma vida inteira e, enquanto isso não acontece, sentimo-nos profundamente incompletos.

Bem, qual é a saída então? Devemos entender que, para que possamos nos sentir bem, basta que comecemos a cuidar de nós mesmos e nos empenhemos na realização daquilo que pontualmente nos faz bem, pois sobre isso sim, temos controle. Eu imagino que você esteja pensando que estou simplificando as coisas, mas não é esse meu objetivo.

Ao realizarmos algo que nos faz bem, isso nos sustenta emocionalmente para seguir em frente, pois desenvolve força e virtude, ajudando-nos a desenvolver dignidade pessoal. Desta forma, aumentamos nosso senso de coerência de sentimentos e de nossos afetos positivos.

O que fazer então?

Veja que pontualmente não existe uma receita. Seria ingenuidade de minha parte lhe dizer o que fazer, entretanto, a busca de três necessidades humanas são apontadas pelos pesquisadores como componentes nesta jornada:

– Melhore seu senso de pertencimento, isto é, um estudo publicado no periódico Journal of Happiness Studies, aponta que um círculo de amizades ativo está ligado a maiores níveis de bem estar, habilidades de lidar com o estresse e maior facilidade de engajamento social;

-Desenvolva seu senso de competência, ou seja, procurar aprimorar as habilidades de fazer algo bem feito;

– E, finalmente, fortaleça seu senso de autonomia, que é a capacidade de sentir-se suficientemente bem com você mesmo.

Imagino que você já tenha percebido que não emiti minha opinião. Mas eu, pessoalmente, entendo que busca da felicidade ultrapassa tudo o que foi descrito acima e contém outro elemento denominado busca de sentido.

Não que os pontos explicados acima não os contenham, mas creio que apenas um propósito maior poderá nos encantar e sustentar efetivamente nossa felicidade. Neste ponto, eu compartilho a opinião com a de Érico Veríssimo que diz: “Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente”.

E você, por acaso já achou o sentido pessoal de sua vida? Ainda não?… Seria bom pensar no assunto, pois há uma obrigação moral

Fonte -http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/