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Sobre a Perversidade by Marla de Queiroz

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O perigo da perversidade é que ela é muito sútil. Um ser perverso jamais te atacará diretamente. Ele vai saborear cada silêncio calculado para despertar sua agonia. Ele vai tentar tolher seus lugares íntimos até que não reste qualquer espaço para manobras. Ele vai te seduzir da maneira mais irresistível e depois te tratar com um descaso inexplicável, como se algo de errado tivesse acontecido, mas sem te dar quaisquer indícios do que possa ter acontecido.

Ele será carismático com os outros, prestativo, mas demonstrará impaciência em responder à sua mais simples pergunta. Ele vai oscilar entre o tesão e a indiferença. Você se sentirá desejada quando o sufoco tiver tomado toda a sua alma e, totalmente desamparada quando o desejo demonstrado parecer esvaído nos primeiros suspiros da manhã. E o dia seguinte se tornará um longo e agonizante ano.

Ele parecerá espirituoso, depois irônico, mas estará sendo absurdamente crítico e sarcástico. E te deixará tão confusa que você, por momentos, não saberá identificar a crueldade que há neste tipo de comportamento. Os perversos são viciados em jogos de poder e controle. Não sabem o porquê. Simplesmente precisam tentar te destituir da sua autoconfiança e autoestima até que você se torne refém, dependente, à beira do desespero.

É muito difícil identificar um ser perverso e, depois se livrar dele. Ele te tratará com uma bipolaridade emocional absoluta. E quando tudo parecer perdido, quando você tiver decidido de maneira explícita sua escolha por um afastamento ou desligamento da relação, ele te rondará da maneira mais amorosa possível tentando te convencer que a falta de sintonia anterior era um problema seu. O perigo da perversidade é porque ela é muito sutil.

E o único antídoto para se curar de uma relação doentia como esta é reunir toda a coragem que você jamais imaginou ter e partir com toda a convicção de que você não precisa continuar neste campo minado. Você pode escolher um lugar de paz. Você pode não ser presa de um predador voraz. Você não precisa se vestir de sangue para alimentar estes vampiros. Esteja atenta. O perverso sempre parecerá um ser inofensivo e carismático. Com os outros. Apenas com os outros. E isto te deixará com uma imensa vontade de conquistar aquilo que ele fará questão de demonstrar que não está disponível para você. 

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Vou logo avisando… – Elisabete Cunha

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Nunca me chame:

Ir em festas de pagode, arrocha e similares
Ir ao shopping dia 24 de dezembro
Ir ao shopping dia 30 de dezembro
Ir encontrar com pessoas mal-humoradas, grossas e donas da verdade
Ir produzir matéria em camarote no carnaval de Salvador e nem poder aproveitar nada.
ir produzir matéria com gente que dá bolo.
Ir conhecer gente que te usa, usa, usa e não tem nenhuma gratidão em todos os setores da vida.
Ir enfrentar fila, seja ela qual for.
ir assistir o programa de Faustão.
ir viajar de ônibus sentada ao lado do banheiro.
Ir com o carro no centro e não ter lugar pra estacionar.
Ir aturar gente que só faz se queixar da vida, invejosa e mal amada.
(é que me lembro por enquanto, tem mais…muito mais)

Sempre me chame:

Ouvir Piaf , Ella, Billie, Aretha , Etta , Elza soares e Rita Lee.
Andar de bicicleta
Para o que der e vier (quando gosto da pessoa demais)
Beijar meu filho , minha mãe, meu namorido e similares.
Ir ao show de Marisa Monte,Arnaldo Antunes ,Nando Reis, Lenine, Zeca Baleiro . Karina Buhr, Tulipa Ruiz , Ed Motta, entre outros queridos.
Ir a Livraria Cultura , ler livros bem caros por horas e não comprar. (Por razões $$$$)
Ir a Livraria Cultura e tomar um Capuccino com pão de queijo.
Ir ao cinema (sem fila)
Ir ao teatro (sem fila)
Comer acarajé (sem fila)
Caminhar, caminhar, caminhar…
Tomar sorvete na Sorveteria da Ribeira
Tornar a caminhar, caminhar, caminhar por causa do sorvete.
Ficar estudando sobre Arte e visitar museus do mundo via INTERNET (Só posso assim por enquanto)
Ir para praia cedo…não ao meio dia (senão morro literalmente frita)
Beber água de Côco
ir ao salão de beleza
Comprar bolsas e sapatos.
Encontrar gente que me faz feliz de verdade, GENTE DE VERDADE.
(é que me lembro por enquanto, tem mais…muito mais)

Assinado : Elisabete Cunha

“Ano Novo” – Ferreira Gullar

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Ano Novo

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

histórias e estórias – Gabriel Garcia Márquez

Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.

Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las.

Porque eu acho sempre muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.

Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre.

Gabriel Garcia Márquez

Seja um idiota…

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“Seja um idiota…
A idiotice é vital para a felicidade.
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre.
A vida já é um caos. Por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado?
Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes,separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota!
Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você.
Ignore o que o boçal do seu chefe disse.
Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele!
Milhares de casamentos acabaram não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice.
Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana?
Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?
Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo.
Você quer? Espero que não!
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas… a realidade já é dura; piora se for densa.
Brincar é legal!
Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida e esse é o único “não” realmente aceitável.
Teste a teoria.
Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir…
Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?”

Maysa Matarazzo ou simplesmente Maysa…

Dona de dois olhos verdes inesquecíveis, ela viveu 40 anos a mil. Em pouco menos de meio século de vida mudou seu destino já traçado e se tornou a maior cantora romântica da música brasileira. Conheça agora um pouco mais de Maysa.

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Nascida numa tradicional família capixaba, com alto padrão de vida, Maysa desde criança seguiu os mesmos passos que a maioria das jovens de mesma realidade. Morou em endereços privilegiados e estudou em colégios de elite. Mas, a música já era presente em sua vida desde muito pequena. Aos 12 anos compôs sua primeira canção, chamada “Adeus”, que por acaso seria gravado em seu disco de estreia.

Desde essa época ela já revelava traços de uma personalidade marcante. Quando criança, implorou aos pais que a tirassem do colégio religioso, tradicionalíssimo, alegando que as freiras a estavam deixando louca. Maysa era péssima nos estudos, chegou a repetir o 2º ano ginasial duas vezes seguidas, por fim, na última, abandonou os estudos de vez. Sua imagem era a da legítima bad girl. Aos 16 anos, usava cabelos curtos, vestia calças compridas (absurdo na época), pintava as unhas de vermelho e maquiava-se com audácia.

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Naquela época, o destino comum das garotas como Maysa era se casar com um rapaz de boa estirpe e constituir uma família, ou seja – ela estava destinada ao lar. E tudo parecia indicar que ela cumpriria esse destino sem nenhuma alteração de rota. Aos 17 anos, em 1955, Maysa se casou com o empresário André Matarazzo. O sobrenome faz estremecer, a família ítalo-brasileira Matarazzo era considerada uma das mais ricas do Brasil e uma das maiores fortunas do mundo. Donos de um verdadeiro império que englobava industrias de metalurgia, comércio, navegação e cabotagem.

André Matarazzo era quase 20 anos mais velho que Maysa. Algo estranho, mas natural na época. O casamento, na Catedral da Sé de São Paulo, e a festa, foram dignos de uma super estrela hollywoodiana. Nada anormal para um clã que ao casar sua herdeira nos anos 40, chegou a realizar festins de três dias e três noites em São Paulo.

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Em pouco tempo, Maysa se deu conta da gaiola de ouro em que havia se prendido. A distância e a incompatibilidade com um marido sempre distante e ocupado foram minando seu casamento tempo após tempo. A pressão da tradição daquele clã rígido e obsoleto começou a se tornar insuportável para uma jovem alegre e expansiva, de mentalidade moderna e transgressora. E esta seria a alcunha com que a identificariam tempos depois – transgressora.

A carreira musical de Maysa começou de forma tão banal quanto surpreendente. O produtor Roberto Corte-Real, maravilhado com o seu talento, a convidou para gravar um disco durante uma reunião familiar, em 1956. Obviamente, o marido de Maysa foi contra, e só depois muita insistência ela pode gravar um disco em caráter beneficente com renda revertida para a campanha contra o câncer – o que vetava qualquer possibilidade de carreira profissional.

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O que deveria ser apenas um capricho de uma esposa entediada, acabou se tornando coisa séria quando o disco passou a tocar – e fazer muito sucesso – nas rádios do eixo Rio-São Paulo. A carreira de Maysa começou a deslanchar da noite para o dia e de repente ela havia se tornado uma cantora profissional. Acontece que mulheres de família não podiam se igualar a cantoras de rádio, ela tinha um nome a zelar, um nome de peso – Matarazzo. E foi aí que Maysa alterou seu destino em 360 graus. Ela se desquitou de André Matarazzo em 1957, trocando um matrimônio aristocrático por uma carreira de cantora. O desquite da cantora foi um dos maiores escândalos no Brasil em fins da década de 50.

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O sucesso e a popularidade cresciam dia após dia. Em 1958, ela já era considerada a maior e mais bem paga cantora do Brasil. A consagração veio com as canções “Ouça” e “Meu Mundo Caiu” – os maiores sucessos de sua carreira, de sua própria autoria. Intérprete bem sucedida e compositora reconhecida, seus discos eram campeões de venda e seus programas de televisão tinham muito prestígio, ao mesmo tempo em que era uma das cantoras mais populares da época. Bela, jovem, rica e bem sucedida ela via a carreira em crescente ascensão enquanto a vida pessoal ia ladeira a baixo.

Parece que seu mundo caíra de tal forma, que nada poderia faze-la levantar. Maysa passou sistematicamente a abusar da bebida, o que a tornou uma alcoólatra, como consequência engordou horrores. Sua vida passou a ser permeada por escândalos, tentativas de suicídio, namoros relâmpagos e até um grave acidente de carro estampado nas páginas dos jornais.

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Numa época em que a música brasileira era dominada por vozeirões potentes, Maysa representava um contraste, ao ter uma voz pequena e quase rouca. O que não a impediu de se tornar uma das maiores intérpretes e compositoras do samba-canção, gênero que dominava a cena musical do país naquela época; afilhado do bolero mexicano, do blues americano e do fado português. Maysa fazia parte de um grupo de cantoras como Dolores Duran e Sylvia Telles, que representaram uma transição durante os anos 50, entre o samba de carnaval e a bossa nova, surgida no fim da década; gênero do qual Maysa também foi integrante.

Interpretações tristes e letras altamente românticas e que falavam sobre amores acabados, angústias e sofrimentos. Maysa passou a ser uma grande expoente deste gênero, e representar uma nova estética musical como cantora, filtrando a dramaticidade exagerada do samba-canção em letras obviamente românticas e genuinamente bonitas. Ela também cantava em vários idiomas. Maysa se tornou o expoente mais sofisticado e requintado do estilo Samba-Canção.

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A alcunha de cantora de fossa, rainha da dor de cotovelo, acompanhou-a até o fim da vida. Maysa era uma mulher alegre, expansiva, bem humorada e muito perspicaz. Mas, que tinha momentos de profunda tristeza, solidão e angústia. Ela dizia ter uma série de complexos, quando remoía velhas amarguras e caia em profundo desespero. Sua aura dark era muito acentuada e lhe dava uma aparência verdadeiramente triste, o que acabava sendo muito explorado pela mídia da época. todo o sentimentalismo e a emoção de Maysa transpassavam claramente quando cantava, tudo isto esta impregnado em sua música de sentimentos fortes e passionais. O melhor exemplo é a interpretação magistral para “Ne Me Quitte Pas” de Jacques Brel, um dos maiores êxitos de sua carreira.

Em pouco tempo, o sucesso de Maysa começou a ultrapassar fronteiras. Ela visitou os países da América Latina inúmeras vezes, onde sua música era muito apreciada por um público fiel que consumia seus discos continuamente. Na Argentina ela era chamada de la condesa cantante – trocadilho com o título de nobreza pertencente a família do ex-marido.

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Os anos 60 chegaram cheios de positivismo ao Brasil, e no panorama musical surgia a bossa nova, fomentada desde a década anterior nos bares e boates da zona sul do Rio de Janeiro. Maysa, que tinha um notável faro musical se identificou com aquele movimento que trazia inovação e requinte à MPB, e se tornaria sucesso no mundo inteiro. Com a bossa nova, Maysa pode expandir referências musicais, mesmo não se tornando uma das grandes intérpretes do gênero, ela deu uma nova cara mais romântica à bossa nova, provando ser uma cantora de versatilidade.

A pressão da mídia fez com que Maysa fosse buscar no exterior a paz e o sossego que não tinha no Brasil. Seu nome estava mais em alta do que nunca e ela já era uma cantora consagrada no país, mas os rumos que a vida traça ao nosso destino a fariam ter uma grande carreira internacional. Ela foi responsável pelo lançamento da Bossa Nova no exterior, mais precisamente na Argentina e no Uruguai, em 1961, e contribuiu muito em sua divulgação pelo mundo. Ela excursionou por vários países, tendo se apresentado em Lisboa, Madri, Paris, Nova York, Milão e Cidade do México. Maysa chegou a cantar na África e até no longínquo Japão – onde foi a primeira artista brasileira a se apresentar por lá. O trabalho era exaustivo; na Europa, ela se cantava em casas noturnas, programas de televisão e gravava discos. Maysa chegou a morar durante anos na Espanha, quando era casada com o empresário belga-espanhol Miguel Azanza.

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Um dos momentos mais memoráveis da carreira aconteceu em 1963, quando Maysa fez uma única apresentação, inesquecível, no Olympia de Paris. Ela foi convidada pelo cantor Tino Rossi e deveria encerrar a noite. Maysa cantou um repertório de música brasileira e guardou para o final uma surpresa – “Ne Me Quitte Pas” de Jacques Brel. Podia ser uma ousadia cantar em francês para os franceses, mas o fato é que foi um sucesso. Maysa foi aplaudida de pé e teve de voltar ao palco do Olympia mais três vezes para repetir a música, tonta de emoção e empurrada ao palco por Bruno Coquatrix, diretor da casa. No dia seguinte, os jornais parisienses repercutiram o sucesso de Maysa no Olympia, exaltando-a como a “Imperatriz da Bossa Nova”. Não pode haver uma emoção maior para uma cantora estrangeira que a de cantar e ser aplaudida naquela que é a mais antológica casa de espetáculos da capital francesa.

Maysa continuou empreendendo excursões no exterior por muito tempo e a esta altura já estava bastante distante do público brasileiro. Quando sentiu a necessidade de voltar para casa, ela realizou sua última e maior ousadia. Montou um grande espetáculo na cervejaria Canecão, um local popularíssimo que viria a se tornar, após esta temporada, a maior casa de espetáculos do Rio de Janeiro. Acompanhada por grande orquestra e bailarinos, ela desfilou beleza, talento, competência e ousadia, vestindo mini-saia.

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Os anos 70 pareciam tão promissores quanto confusos. Apesar de todo o prestígio e popularidade, ela já não era mais a maior cantora do Brasil. No panorama musical da época, consolidava-se de fato a MPB, termo que passou a designar um estilo musical mais sofisticado que outros mais populares produzidos na música brasileira, como o samba, a música caipira e a música popular romântica. A maioria dos cantores contemporâneos de Maysa, ídolos da música nos anos 40 e 50, mergulharam num período de profundo ostracismo. Não era o seu caso, mas ela passou a se auto exilar da música, da mídia e do público, dia após dia.

Vivendo a vida cada dia mais num estilo meio hippie, Maysa construiu uma casinha numa praia afastada do litoral do Rio de Janeiro e passou a morar lá na companhia de vários animais. Passou a pintar vários quadros e fazer esculturas de madeira, sempre sozinha. Seu último disco foi gravado em 1974, sua última turnê em 1975. Desde então, só reservava sua aparição a alguns poucos programas e especiais de televisão. Ela já não era mais a grande estrela que foi um dia. Vivia a vida cada vez mais solitária e isolada.

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No dia 22 de janeiro de 1977, a grande voz do amor desfeito partiu para nunca mais voltar. Ia do Rio de Janeiro para sua casa de praia, em Maricá, e no meio havia a ponte Rio-Niterói. Maysa bateu seu carro contra a mureta de proteção da ponte, capotou e só parou na pista contrária sentido Rio. Foi um acidente fatal, Maysa morreu a caminho do hospital.

A cantora de apenas 40 anos deixou um filho – Jayme, os pais que tanto amava e a uma ferida aberta no coração da música brasileira e dos fãs que tanto a amaram. Uma mulher cheia de conflitos e sofrimentos, contrastes, multifacetada, que levou a vida aos trancos e barrancos, mas mesmo assim conseguiu sobreviver e se tornar quem foi. Uma cantora esplêndida, como poucas vezes se vê na música. Maysa estava ao nível de uma Edith Piaf ou Amália Rodrigues. Sua versatilidade permitia que ela fosse do samba à bossa nova, com perfeição, passando pelo jazz e o bolero. Poucas vezes na história vê-se mulheres como Maysa, um forte.
Ela também escrevia poemas – belíssimos – entre os melhores, está este:

“Olha, amiga,
o passado só constrói passado
e o que antes era empáfia,
pela cor brutalmente vermelha acintosa,
de tanto caminho pela escuridão
se descolorou no tempo
que só ele sentiu passar.

 

 

 

Vive porque é preciso, e também é bom, e como!

Texto de

“Amor, o interminável aprendizado” – Affonso Romano de Sant´Anna

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Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem.

Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava.

Se enganava porque o aprendizado do amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sacia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranquilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.

Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus. Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.

Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.

O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.

Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.

Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.

Absurdo.

Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinquenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.

Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.

Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.

E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.