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A Arte de Iberê Camargo

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Gaúcho de Restinga Seca, Iberê Camargo era um artista que não se conformava com a morte. São temas recorrentes em sua obra a solidão, o abandono e a falsidade. Apesar de dialogar com várias correntes artísticas, Iberê não se prendeu a nenhum movimento específico. Através da tinta escavou a vida. Nunca o resultado final estava bom, característica presente também em sua vida, manifestando-a através da recusa ao limite. E isso refletiu em toda sua obra, composta por mais de 7 mil trabalhos de pinturas, gravuras e desenhos, marcados pelo vigor e pela dramaticidade.
“Só a imaginação pode ir mais longe no mundo do conhecimento. Os poetas e os artistas intuem a verdade. Não pinto o que vejo, mas o que sinto.”
 
“A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.”
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Na fase mais madura de sua produção, destaca-se o famoso conjunto de obras conhecido como “Os Carreteis”, seus brinquedos favoritos na infância e presentes até o fim de sua produção. Resguardados na memória do artista, foram incorporados a partir de 1958, período em que ele adquiriu uma hérnia de disco e necessitou ficar em casa. Nessa época, através do carretel explorou questões formais na arte, como a geometrização.
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“À medida que envelhecemos, parece que a infância fica mais perto. Sentimos vontade de reencontrar os primeiros amigos e tudo que foi nosso.”
Após um trágico incidente ocorrido no Rio de Janeiro na década de 80, Iberê retorna ao Rio Grande do Sul, depois de muitos anos vivendo na capital carioca. Buscava a tranquilidade após ter sido atacado por um desconhecido na rua, reagindo e matando o agressor com dois tiros, em legítima defesa. Através de relatos da família e de amigos próximos, o ocorrido transformou o artista e sua arte. Nesta fase surge o conjunto de obras que exibe figuras pedalando sem rumo, chamado “Os Ciclistas”.
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“Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza.”
A década de 90 é marcada por sua última fase com a série “As Idiotas”, composta por personagens sentadas em bancos de praça, com o olhar vago, perdido. São obras que remetem à morte, à solidão, o abandono, à tristeza.
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“As figuras que ora povoam os meus quadros (elas mesmas são os quadros) nascem da saga, da vida que dói. Elas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância, guri criado na solidão da campanha do Rio Grande do Sul.”
O artista era filho de ferroviários, iniciando o desenho aos quatro anos e idade. Aos treze ingressou na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, onde ganhou seu primeiro prêmio de pintura. Com dezoito anos adquiriu seu primeiro emprego como desenhista do 1º Batalhão Ferroviário de Jaguari. Na sequência, também atuou como desenhista na Secretaria de Obras Públicas do Rio Grande do Sul. Em 1939 casou-se com Maria Coussirat, professora de desenho e sua principal incentivadora. Iberê viveu cerca de dois anos na Europa. Frequentou museus e estudou com De Chirico, Petrucci, Achille e André Lhote. Interessado pela gravura, trouxe uma prensa para o Brasil, formando uma geração de gravadores no Rio de Janeiro. Seu lado cômico e extrovertido, pouco conhecido, está presente em seus cartuns, ironizando políticos como José Sarney, Fernando Collor e Pedro Simon, com seu personagem Maqui, nos jornais “O Pasquim” e “Terceira Imagem”. Liderou também uma mobilização pela redução das taxas de importação de materiais para pintura, cansado da má qualidade das tintas fabricadas no Brasil, levando a questão ao então presidente Getúlio Vargas, promovendo exposições contra os impostos abusivos.
“Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão.”
Iberê Camargo morreu em agosto de 1994, pouco antes de completar 80 anos, vítima de câncer. Sem dúvida seu desejo de permanência, definição por ele citada, foi realizado. Sua obra foi preservada graças a sua incansável viúva, Maria Coussirat Camargo, de 96 anos, idealizadora do projeto da Fundação Iberê Camargo, criada em 1995. 
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*Priscila Anversa. Arte-educadora e Mestre em Artes Visuais. Respira arte, filosofa educação, aspira o conhecimento, debate o questionamento, questiona a evolução, evolui com a revolução. Vive intensa e imensamente. .
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Henri Cartier-Bresson e o instante decisivo

“Para ‘revelar’ o mundo é preciso sentir-se implicado no que se enquadra através do visor. Essa atitude exige disciplina de espírito, sensibilidade e senso de geometria. É através de uma grande economia de meios que chegamos à sensibilidade de expressão. Deve-se sempre fotografar com o maior respeito ao sujeito e a si próprio. Fotografar é segurar o fôlego quando todas as nossas faculdades se conjugam diante da realidade fugidia; é quando a captura da imagem representa uma grande alegria física e intelectual.”

Henri Cartier-Bresson

 

O fotógrafo e sua câmera Leica: identificação única entre um artista e seu instrumento

 

Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês (1908-2004), entrou para a história da fotografia como o pai do fotojornalismo e um dos fotógrafos mais significativos do século XX. Foi um aficionado pelo mundo das imagens: expressou-se por meio de desenhos, pinturas, filmes cinematográficos. Mas foi por meio de sua produção fotográfica que ele exercitou a liberdade, presente em seu jeito de pensar, falar, sentir, viver.  Sua obra caracteriza-se pela habilidade técnica e pela precisão em capturar o “instante decisivo”. Numa concepção flusseriana, Bresson é como um caçador: sua câmera é sua arma. Seu território, uma selva de objetos culturais. Obsessivo, ele esperava por horas o momento certo para apertar o gatilho, tal qual um caçador a espera de sua presa.

O ano era 1931. Bresson contemplou uma foto de Martin Munkacsi que revelava três meninos negros nus, no Congo, correndo em direção ao mar. Aquela “coreografia”  representaria a possibilidade de viver sem obstáculos, sem pecado, sem culpa. É a personificação da liberdade, essa de que Bresson sempre foi discípulo. O gatilho foi disparado…  Atingido pela força da linguagem fotográfica, Bresson decidiu que a fotografia,  que marcaria para sempre o seu modo de ser, de sentir, de viver, seria sua religião e sua obsessão.

Não tinha medo, experimentava sempre. Em suas andanças não usava tripé. Com uma Leica na mão passava despercebido e conseguia se aproximar de suas “vítimas”. Com sua poética fotográfica, Bresson desvelou o cotidiano… Mestre de verter, em imagens, aquilo que sentimos e que não conseguimos expressar em palavras. Suas narrativas fotográficas nos ajudam a lembrar do fim da opressão imperialista na Índia, do assassinato do líder pacifista Gandhi, dos primeiros meses de Mao Tsé-Tung, na China comunista, entre outros acontecimentos decisivos que marcaram o século XX. Talvez por isso é que a sua obra influenciou várias gerações de fotógrafos pelo mundo.

Em seus relatos deixou claro que “a fotografia por si só não o interessava, somente a reportagem fotográfica, onde há a comunicação entre o homem e o mundo.” Não ficou esperando a vida passar, foi ao encontro dela.

 

Aqui, um pouco de sua obsessão:

 

Instante 1

“A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora? Agora? Agora?
Entende? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo, ou o perdemos…e não podemos recomeçar…” 

Henri Cartier-Bresson

 

Gare St Lazare, Paris, 1932
(uma de suas fotos mais famosas)

 

Instante 2

“O que importa é o olhar. Mas as pessoas não olham, a maioria não observa, apenas aperta o botão.”
Henri Cartier-Bresson

 

Casal em Paris, em 1968

 

Instante 3

“Fotografar é um meio de compreender, que não pode se separar dos outros meios de expressão visual. É uma forma de gritar, de se liberar e não de provar ou de afirmar sua própria originalidade.”
Henri Cartier-Bresson

 

Martine’s Legs, 1967

 

Instante 4

“Sensibilidade, intuição… senso de geometria. Nada mais”
Henri Cartier-Bresson

 

Hyeres, France, 1932

Instante 5

“É preciso esquecer-se, esquecer a máquina… estar vivo e olhar. É o único meio de expressão do instante. E para mim só o instante importa… e é por isto que adoro, não diria a fotografia….mas a reportagem fotográfica, ou seja, estar presente, participar, testemunhar…”
Henri Cartier-Bresson

 

Queen Charlotte’s Ball, London, 1959

 

Instante 6

“Fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”
Henri Cartier-Bresson

 

Mannhattan, New York, 1968

Os instantes decisivos de Bresson despertam em nós a sensibilidade para outras paragens…

Fonte-Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Professora dos cursos de Comunicação Social e de Psicologia do CEULP/ULBRA.

Mais imagens: http://www.henricartierbresson.org/

Saiba mais:

GALASSI, Peter. Henri Cartier-Bresson: o século moderno. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Cosacnaify, 2010.

FLUSSER, V. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 2002.

Marc Chagall



Marc Chagall

* Vitebsk, Bielorrússia – 7 de julho de 1887 d.C

+ Saint-Paul-de-Vence, França – 28 de março de 1985 d.C

Pintor, ceramista e gravurista surrealista russo.

Na arte contemporânea, na qual a abstração e o formalismo se contrapõem, Chagall se debruça sobre o elemento temático, essencialmente lúdico e onírico, revelando as raízes telúricas de suas heranças culturais e afetivas.

Pintor, gravador e vitralista bielorusso.

Seu verdadeiro nome era Moysha Zakharavich Shahalaw . Iniciou a sua formação artística quando entrou para o ateliê de um retratista famoso da sua cidade natal. Em 1908 estudou na Academia de Arte de São Petersburgo e, de volta à cidade natal, conheceu Bella, de quem pintou um retrato em 1909 (Kunstmuseum, Basiléia).

Retornou a São Petersburgo e de lá seguiu para Paris em 1910, ligando-se a Blaise Cendrars, Max Jacob e Apollinaire e aos pintores Delaunay, Modigliani e La Fresnay. Obras importantes desse período são “Moi et le village” (1911; “Eu e a aldeia”), “L’Autoportrait aux sept doigts” (1911; “Auto-retrato com sete dedos”), “La Femme enceinte” (1912-1913; “Mulher grávida”), “Le Soldat boit” (1912; “O soldado bebe”).

Marc Chagall - O Soldado Bebe - óleo sobre tela 1912

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Marc Chagal – O Soldado bebe

Quase todos esses títulos foram dados por Cendrars. Coube a Apollinaire escolher as telas que Chagall expôs em 1914 em Berlim, com grande influência sobre o expressionismo de pós-guerra. Com a guerra, Chagall voltou para a Rússia e foi integrado ao exército, mas ficou em São Petersburgo. Em 1915 casou-se com Bella.

Irrompendo a revolução socialista de 1917, foi nomeado comissário de belas-artes do governo de Vitebsk. Fundou uma escola aberta a todas as tendências, entrou em conflito com Malevitch e acabou demitindo-se. Na mesma época, pintou murais para a sala e o foyer do teatro judeu de Moscou.

Lá aprendeu não só as técnicas de pintura, como a gostar e a exprimir a arte. Ingressou, posteriormente, na Academia de Arte de São Petersburgo, de onde rumou para a próspera cidade-luz, Paris.

Ali entrou em contacto com as vanguardas modernistas que enchiam de cor, alegria e vivacidade a capital francesa. Conheceu também artistas como Amedeo Modigliani e La Fresnay. Todavia, quem mais o marcou, deste próspero e pródigo período, foi o modernista Guillaume Apollinaire, de quem se tornou grande amigo.

É também neste período que Chagall pinta dois dos seus mais conhecidos quadros: Eu e a aldeia e O Soldado bebé, pintados em 1911 e em 1912, respectivamente.

Os títulos dos quadros foram dados por Blaise Cendrars. Coube a Guillaume Apollinaire seleccionar as obras que seriam posteriormente expostas em Berlim, no ano em que a 1º Grande Guerra rebentou, em 1914.

Neste ano, após a explosão da guerra, Marc Chagall volta ao seu país natal, sendo, portanto, mobilizado para as trincheiras. Todavia, permaneceu em São Petersburgo, onde casou um ano mais tarde com Bella, uma rapariga que conheceu na sua aldeia.

Depois da grande revolução socialista na Rússia, que pôs fim ao regime autoritário czarista, foi nomeado comissário para as Belas-Artes, tendo inaugurado uma escola de arte, aberta a quaisquer tendências modernistas. Foi neste período que entrou em confronto com Kasimir Malevich, acabando por se demitir do cargo.

Retornou então, a Paris, onde iniciou mais um pródigo período de produção artística, tendo mesmo ilustrado uma Bíblia. Em 1927, ilustrou também as Fábulas de La Fontaine, tendo feito cem gravuras, somente publicadas em 1952. São também deste ano conhecidas, as suas primeiras paisagens.

Visitou, em 1931, a Palestina e, depois, a Síria, tendo publicado, em memória destas duas viagens o livro de carácter auto-biográfico Ma vie (em português: Minha vida).

Desde o ano de 1935, com a perseguição dos judeus e com a Alemanha prestes a entrar em mais uma guerra, Chagall começa a retratar as tensões e depressões sociais e religiosas que sentia na pele, já que também era judeu convicto.

Anos mais tarde, parte para os Estados Unidos da América, onde se refugia dos alemães. Lá, em 1944, com o fim da guerra a emergir, Bella, a sua mulher, falece, facto que lhe causa uma enorme depressão, mergulhando novamente no mundo das evocações, dos chamamentos, dos sonhos. Conclui este período com um quadro que já havia iciado em 1931:Em torno dela.

Dois anos depois do fim da guerra, regressa definitivamente à França, onde pintou os vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Na França e nos Estados Unidos da América pintou, para além de diversos quadros, vitrais e mosaicos. Explorou também os campos da cerâmica, tema pelo qual teve especial interesse.

Em sua homenagem, em 1973, foi inaugurado o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, na famosa cidade do sul da França, Nice. Em 1977 o governo francês condecorou-o com a Grã-cruz da Legião de Honra.

Tendo sido um dos melhores pintores do século XX, Marc Chagall faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no sul da França, em 1985.

Fonte-http://www.biografia.inf.br
1909, Russian Wedding, Marc Chagall

 

Marc Chagall, 1910, The Sabbath, 00001461-Z

1910, The Sabbath, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1910, Portrait of the Artist's Sister, 00001353-Z

1910, Portrait of the Artist’s Sister, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1911, The Village Store, 00001466-Z

1911, The Village Store, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1911, I and the Village, 00001442-Z

1911, I and the Village, Marc Chagall
 

Marc Chagall, 1911, Bride with a Fan, 00001355-Z

1911, Bride with a Fan, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1911, Rain, 00001432-Z

1911, Rain, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1911, To My Betrothed, 00001449-Z

1911, To My Betrothed, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1912, The Cattle Dearler, 00001429-Z

1912, The Cattle Dearler, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1912, The Soldier Drinks, 00001441-Z

1912, The Soldier Drinks, Marc Chagall

Marc Chagall, 1912, The Spoon Full of Milk, 00001379-Z

1912, The Spoon Full of Milk, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1912, The Pinch of Snuff, 00001358-Z

1912, The Pinch of Snuff, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1912, The Cattle Dearler, 00001357-Z

1912, The Cattle Dearler, Marc Chagall
 
 

 

Marc Chagall, 1912, Adam and Eva, 00001356-Z

1912, Adam and Eva, Marc Chagall
 
 

 
 
 

Vincent Van Gogh – O artista maldito.

Vincent van Gogh. Self-Portrait in a Grey Felt Hat.


Na região do Brabante holandês, em Groot Zundert, a 30 de março de 1853, nasce este gênio da pintura, cuja obra só foi possível graças a enorme confiança depositada em seu próprio destino e da ajuda do irmão Theo. O pai,Theodore van Gogh, era pastor, a mãe, Anna-Cornelia Carbentus, era filha de um encadernador da corte. Família honrada, antiga1 tradicional, mas pobre. Desde o século XVI, os van Gogh eram eminentes burgueses, com certo pendor pelas artes. Vincent era o primogênito de seis irmãos. Pouco sociável, gênio arredio gostava de vagar pelos campos, demonstrando amor à natureza. Nenhum irmão, a não ser Theo, quatro anos mais moço, consegue fazer-lhe companhia em suas solitárias incursões ecológicas. Este relacionamento fraterno será permanente por toda sua curta vida, sensibilizando a aqueles que, porventura, tiverem as mãos às cartas de Vincent a Theo. Aos 16 anos, o jovem Vincent van Gogh consegue empregar-se na Casa Goupil, em Haia, estabelecimento francês na Holanda1 importante galeria de arte. Assim, van Gogh deixa para trás o seu sempre nublado de sua aldeia, a sombria e triste Groot Zundert, sua nervosa mãe e o severo calvinista, seu pai. Deixa mais: a infância melancólica,o tédio de menino triste e solitário. Vincent sente-se desajustado em seu lar, em sua terra, naquela sociedade repressora. Sabe disso. Ao aceitar o convite de um tio, gerente da Casa Goupil, sabia que estava fugindo de tudo isso. Permanece em Haia por três anos, de 1869 a 1871. Neste ano e enviado a filial de Bruxelas, onde fica dois anos. Depois, sempre em busca de conhecer novos mundos, segue para a Goupil de Londres, onde fica por mais dois anos, quando sente a necessidade de exprimir-se, desenhando cenas do Tamisa em suas horas vagas. Primeira decepção: apaixona-se por Úrsula, filha da dona da pensão onde mora, mas e repelido. Em meados de 1874 volta à Holanda.

O pai percebe-o sombrio e atormentado. A falta de sol enerva-o. Sonha com Paris. Uma idéia fixa, reforçada pela imagem que emana da Cidade-Luz,a capital das artes. Em 1875, van Gogh consegue transferência para Paris. Tudo o encanta, cada vez mais seduzindo-o e canalizando seu espírito para a arte: lê Flaubert, Dumas, Hugo, Rimbaud, Baudelaire. Admira as românticas cenas campestres de Courbet e Os heróis épicos de Delacroix, Os pintores de maior sucesso de venda na época. Mas odeia o emprego, que o impede de viver em plenitude. Em vez de vender telas na Goupil, freqüenta outras galerias, lê livros sobre arte, forma opinião própria; e o pior: discute com a clientela. Em abril de 1876 é demitido. Tem 22 anos, muitas decepções,algumas ilusões e nenhum piano para o futuro. O remédio e retornar a casa dos pais, agora na cidadezinha de Etten. Mas o rebelde Vincent d nada representa, senão decepção para o pai, desilusão para a nervosa mãe. Só o irmão Theo o compreende. É extremamente depressivo o ano de 1876 para o jovem Vincent van Gogh. Sofre crises nervosas seguidas e longos períodos de mutismo e solidão, resultando em profundo misticismo. Seu fervor religioso e de tal ordem que o próprio pai, pastor, o considera exagerado.O jovem van Gogh novamente está empreendendo o caminho da fuga da sociedade, da família, da realidade que o cerca. Primeiro foge para Londres, onde pretendia ensinar francês e alemão em escolas, mas não domina tais idiomas para ensiná-los. Volta à Holanda, trabalhando por três meses numa livraria em Dordrecht. Decide seguir a carreira do pai: será pastor,mas entre os pobres. A miséria me atrai” – escreve ao irmão Theo.

Reprovado no Seminário Teológico da Universidade de Amsterdã, consegue lugar de pregador missionário nas minas de carvão de Borinage, Bélgica. Os mineiros desconfiam daquele homem estranho que, além do mais não segue as ordens de seus superiores. É demitido em julho de 1879, poucos meses depois de sua experiência evangélica. Perde a fé e a saúde. Volta para casa. Certifica-se de que aquela não e sua vocação. Tem 26 anos. Instala-se em Cuesmes. Na solidão,desenha cenas de memória de Borinage. Começa seu despertar: quer ser pintor. Para isso começa a viver da pequena mesada mandada por Theo. Van Gogh caminha sem destino, mochila às costas, parando aqui e ali, sob o vento frio e cortante do inverno. Dorme à beira de caminhos, em celeiros, debaixo de carroças,mas sempre desenhando. Escreve a Theo em julho de 1880 uma carta no qual descreve a angústia em que se encontra. Theo, emocionado, resolve dedicar-se ao irmão a vida toda, sabendo-o pintor por destino. Nessa altura, Vincent encontra-se em Bruxelas, estudando anatomia e desenhando muito. Escreve a Theo pretender “Uma arte de homens”, e muda-se para Haia, onde estuda com Anton Mauve. Mas briga com Mauve, pois desgosta-se das regras acadêmicas. “Não quero pintar quadros,quero pintar a vida” – escreve ao irmão. Vida para Van Gogh são paisagens e gente; camponeses e mineiros, campos e trigais. O pintor Mauve o encoraja; O pai o inibe. Sua modelo – Christiane – o acolhe. Apesar de enfatizar em carta a Theo: “Encontro em mim uma harmonia e uma musicalidade calma e pura”, suas telas são sombrias, pesadas, cinzentas. Christiane abandona-o. A criança que deu a luz morre; setembro de 1883. Volta pela última vez à casa paterna,alugando depois um atelier de um sacristão católico. Seu gênio emerge em toda plenitude.

Seu destino são as cores,pinta retratos, paisagens,com toda confiança em si e em seu futuro. Não concede tréguas ao seu corpo exausto da batalha de pintar. Outra decepção amorosa: noivado desfeito pelos pais da moça. No dia 27 de março de 1885, o pastor Theodore van Gogh morre à porta de sua casa. A perda do pai mortifica-o, deixa a Holanda e segue para Antuerpia, Bélgica. Nesta cidade uma dupla revelação: a pintura de Rubens e as estampas japonesas. Vincent van Gogh,aos 32 anos, emociona-se às lagrimas. As etapas de sua vida se precipitam. Em março de 1886, Vincent está em Paris. Reencontra Theo, diretor da Casa Goupil, rua Montmartre. O irmão acolhe van Gogh como a uma criança. Passam a morar juntos no pequeno apartamento de Theo rua Laval, hoje Jean Massé. Vincent freqüenta a loja de Pai Tanguy,onde encontra trabalhos de Hokussai, Hiroshige e Utamaro. Fica impressionado pela “nova maneira de representar os objetos e o espaço”. Pinta o retrato de Pai Tanguy,um quadro composto por partes, possuidoras de valores tonais distintos, mas formando um todo. Conhece Toulouse-Lautrec, familiariza-se com os impressionistas – Monet, Renoir, Pissarro. Mais tarde torna-se intimo de Gauguin. Em todos os cafés discute-se o impressionismo. Depois, o neo-­impressionismo ou pontilhismo de Seurat. Vincent torna a prática de construir a figura por meio de pequenos toques coloridos, divididos na tela, mas recompostos oticamente pela visão dos pontilhistas; e dos impressionistas torna a arbitrariedade da cor e pinta o Auto-retrato e mais 200 quadros em dois anos. A saúde precária de van Gogh não resiste a esses dois anos de vida trepidante em Paris. Toulouse-Lautrec aconselha-o a ir para a Provença. Em fevereiro de 1888 já está em Arles, pintando ao ar livre. Vida calma, tranqüila, colorida. Retrata o trabalho do campo: trigais, montes de feno, carroças, hortas, ao longe montanhas azuis. Ao chegar o sol de verão, porém, van Gogh entra na fase mais furiosa, perturbadora e produtiva de sua carreira. Liberta o colorido. “Serei um colorista arbitrário.” A luz ilumina Os girassóis fazendo desta planta seu tema predileto: “Eu quero a luz que vem de dentro, quero as cores representando emoções”. Gauguin chega em outubro daquele ano para trabalharem lado a lado. Dois meses de trabalho duro e fértil para ambos. Mas diferenças de comportamento entre os dois terminam em luta corporal. Gauguin é mais forte. Vincent sofre descontrole muscular, e em crise corta um pedaço da orelha, enviando-o para a mulher, motivo da briga.

É recolhido ao Hospital Saint-Paul para doentes nervosos. Volta para casa e pinta: “Auto-retrato com a Orelha Cortada”. Seu olhar (na tela) é de espanto,mágoa,melancolia. As crises se sucedem com freqüência. Trabalha com vigor e fúria, mas Theo não consegue vender suas telas. Em maio de 1889, van Gogh pede ao irmão que o interne. Internado em Saint-Rémy, continua a pintar a vida à sua volta:doentes,celas, o pátio, os médicos. Pinta paisagens vigiada por um guarda; com fervor,intensamente. Escreve a Theo: “Na vida de um artista,a morte talvez não seja a coisa mais difícil”. Suas paisagens são agressivas. Em suas crises, rala no chão, fala com demônios, alucinações místicas: ouve anjos. Theo, chamado, não pode visitá-lo:sua mulher espera a primeira filha. Pede a Signac que vá em seu lugar. Signac fica impressionado com a pintura de van Gogh. O jornal Mercure de France publica elogias entusiásticos. Exposição em Bruxelas, na Casa Goupil, agita a imprensa de toda a Europa, mas só é vendida uma tela: A Vinha Vermelha, o único quadro comprado em vida de Vincent. Theo consegue tratamento com o Dr. Gachet,psiquiatra, pintor e amigo dos artistas. Van Gogh deixa Saint ­Rémy em 1890 visita o irmão e segue para Auvers. O caso e grave. O Dr. Gachet compra tinta e telas, e deixa o pintor à vontade. Van Gogh pinta “Os Ciprestes”, “Trigal com Corvos” e “Retrato do Dr. Gachet”,todos com pinceladas violentas, mas sem dúvida as melhores obras de van Gogh. Seus últimos quadros atestam total rompimento com a realidade objetiva. Trigais turbulentos, ciprestes trêmulos, oliveiras torcidas, há angústia,dor, sofrimento nessas obras. A paranóia aumenta: acusa o Dr. Gachet de querer matá-lo. Melhora. Vai a Paris em busca dos amigos – Toulouse-Lautrec,Bernard, mas não procura Theo, também acusado de “mantê-lo afastado”. Volta a Auvers. No dia 27 de julho de 1890 sai para o campo de trigo com um revólver. E domingo. Pinta seu último quadro. O trigo está dourado, o céu totalmente azul. Corvos pretos grasnam, fugindo em revoada. No meio do campo, um tiro no peito. Socorrido pelo filho do Dr. Gachet, aguarda lúcido a chegada de Theo. Morre dia 29, dizendo a Theo: A miséria não tem fim.

Conheçam algumas telas!

Starry Night

Starry Night

Noite Estrelada Sobre o Rhone

Starry Night Over the Rhone

Still Life com uma cesta de maçãs

Still Life with a Basket of Apples

Still Life com uma cesta de batatas, Rodeado por Autumn Leaves e Legumes

Still Life with a Basket of Potatoes, Surrounded by Autumn Leaves and Vegetables

Paisagem de Outono 1885

Autumn Landscape 1885

A Ponte Langlois em Arles 1888

The Langlois Bridge at Arles 1888

Um par de sapatos 1887

A Pair of Shoes 1887

Irises

Irises

Os tosquiadores

The Sheep-Shearers

A Pastora

The Shepherdess

O Fumante

The Smoker

O Semeador

The Sower

O Spinner

The Spinner

Still Life com uma tigela de barro e pêras

Still Life with an Earthen Bowl and Pears

Natureza morta com Bíblia

Still Life with Bible

Still Life com garrafas e faiança

Still Life with Bottles and Earthenware

Still Life com tamancos e Potes

Still Life with Clogs and Pots

Still Life com Decanter e limões em uma Placa

Still Life with Decanter and Lemons on a Plate

Still Life com barro , garrafas e Tamancos

Still Life with Earthenware, Bottle and Clogs

Natureza-Morta com Cinco Garrafas

Still Life with Five Bottles

Natureza morta com uvas

Still Life with Grapes

Natureza morta com três pássaros ninhos

Still Life with Three Birds

Natureza morta com dois potes e duas abóboras

Still Life with Two Jars and Two Pumpkins

Still Life : Bowl com Margaridas

Still Life: Bowl with Daisies

Still Life : Vaso japonês com Rosas e anêmonas

Still Life: Japanese Vase with Roses and Anemones

Retrato de um homem velho com barba

Portrait of an Old Man with Beard

Retrato do Doutor Gachet

Portrait of Doctor Gachet

Retrato de Milliet , segundo tenente da zuavos

Portrait of Milliet; Second Lieutenant of the Zouaves

Retrato de Escalier paciência; Shepherd na Provence

Portrait of Patience Escalier; Shepherd in Provence

Retrato de Père Tanguy

Portrait of Père Tanguy

Retrato do negociante de arte de Alexander Reid

Portrait of the Art Dealer Alexander Reid

Auto-retrato com chapéu de feltro escuro na armação

Self-Portrait with Dark Felt Hat at the Easel

Auto-Retrato com Cachimbo

Self-Portrait with Pipe

Auto-Retrato com Chapéu de Palha

Self-Portrait with Straw Hat

Auto-Retrato

Self-Portrait

Memória do Jardim em Etten

Memory of the Garden at Etten

Montmartre: Pedreira , a Mills

Montmartre: Quarry, the Mills

Paisagem montanhosa Atrás Hospital Saint -Paul

Mountainous Landscape Behind Saint-Paul Hospital

O Café Night no Place Lamartine em Arles

The Night Cafe in the Place Lamartine in Arles

Meio-dia : descanso do trabalho

Noon: Rest from Work

A Torre da Igreja Velha em Nuenen

The Old Church Tower at Nuenen

Torre da Igreja Velha em Nuenen

Old Church Tower at Nuenen

Old Man in Sorrow ( No Limiar da Eternidade )

Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity)

The Old Mill

The Old Mill

A Torre Velha , em Campos

The Old Tower in the Fields

Olive Grove

Olive Grove

Retrato da Paciência Escalier

Portrait of Patience Escalier

Quintais de casas antigas em Antuérpia na Neve

Backyards of old Houses in Antwerp in the Snow

O De Ruijterkade em Amsterdam

The De Ruijterkade in Amsterdam

Acampamento de ciganos com caravanas

Encampment of Gypsies with Caravans

 

Fonte-http://www.abcgallery.com/

Joan Miró 1893-1983

O ouro do firmamento – 1967
 
“Trabalhar muitíssimo e viver a vida, fazer um passeio na montanha ou olhar uma bela mulher, ler um livro, ouvir um concerto: que isso tudo alimente meu espírito para que sua voz se torne mais forte. E, principalmente, queira Deus que não me falte Santa Inquietude! graças a ela os homens avançaram.
Joan Miró
No panorama da arte do século XX, Joan Miró (1893 – 1983) é um personagem de biografia singular. Entre tantos artistas de rotina boêmia, Miró se destaca pela simplicidade de seu caráter catalão. Ordem, respeito, equilíbrio, tenaciade e auto-exímio são traços que marcaram um pintor de vida discreta, mas de força interior extraordinária. Espírito, vibração, tensão são conceitos presentes com frequência no vocabulário de Miró e que demostraram seu constante esforço para alcançar a essência da pintura.A Academia Galí
A passagem de Miró pela academia Galí – de Francesc d´Assís Galí – foi essencial para o desenvolvimento de sua obra. Ali (em 1912), o futuro pintor encontrou um ambiente para cultivar a sensibilidade como fonte de experiência artística.Galí logo percebeu que seu novo aluno possuía grande dom para a cor, mas que seu domínio das formas deixava a desejar. Para solucionar essa deficiência, o mestre obrigou Miró a vendar seus olhos e tocar objetos para depois reproduzir em papel. O original método de desenho “pelo tato” deixou uma profunda marca em Miró. Depertou sua facinação pelas irregularidades das superfícies, característica que se tornou evidente em suas obras de nus e retratos.
Após esta primeira fase, Joan Miró apresentou em seus trabalhos uma mistura de influências que vão do expressionismo ao fauvismo, passando pelo cubismo.


A fase de realismo detalhista


Miró em seu ateliê em Barcelona, em 1954. A quantidade de telas mostra que o sonho de um grande estúdio se devia a uma necessidade real.

Numa viagem a Paris, em 1919, conheceu Picasso, entrou em contato com o movimento dadaísta e depois com o surrealismo. Seu estilo evoluiu a partir de estudos realizados sobre o irracional e o fantástico, até recriar um mundo onírico pessoal no qual fluem imagens distorcidas da realidade, cheias de formas orgânicas e construções geométricas. As primeiras obras desse período apresentam um ambiente campestre, a que se seguem outras obras orientadas por uma abstração lírica, cuja composição se organiza com uma variação limitada de cores brilhantes (azul, vermelho, amarelo, verde, preto) sobre fundos planos, com diferentes signos gráficos e deformações fantásticas livres de qualquer compromisso figurativo. Este é o caso do Carnaval do Arlequim (1924-1925) ou de Interior Holandês (1928).


Carnaval do Arlequim

A partir da década de 1930, passa a interessar-se pela colagem, enquanto os grafismos tendem a reduzir-se a pontos, linhas e manchas coloridas.


obra da série Constelações

Durante a guerra civil de 1936, concebeu algumas obras que refletem o conflito: O Ceifeiro, Cabeça de Mulher, enquanto continuava a série sobre as Constelações que concluiu nos primeiros anos da década de 1940, foram um forma de anunciar sua linguagem pictórica original e pessoal e que acabaram por abrir as portas à democratização de sua pintura e ao seu reconhecimento internacional.


Em 1956, Miró mudou-se para Son Abrines, em Palma de Maiorca. Ali dispôs do grande ateliê que sempre sonhara. O conjunto arbiga atualmente a sede da Fundação Joan e Pilar Miró.

A partir de 1944, passou a interessar-se pela escultura: realizou diversos murais para o edifício da Unesco em Paris (1958) e para a Universidade de Harvard (1960) – encomenda de Walter Gropius, fundador da Bauhaus. Por causa do grande ritmo de trabalho, cultivou simultaneamente escultura de pequenas dimensões, retornando a pintura em 1959. Esta época foi caracterizada por uma progressiva estilização que atingiu seu máximo nos três painéis Azul I, II e III.

No alto, o Mural da lua (1958) na sede da Unesco, em Paris: acima, o mural do aeroporto de Barcelona (1970).Nas décadas de 1960 e 1970, sua obra já era mundialmente conhecida. Ao mesmo tempo, a presença da cor negra começava a dominar sua pintura.


Camponês catalão ao luar – 1968
Fundação Joan Miró, Barcelona

Empenhou-se cada vez mais em participar de movimentos de defesa da cultura catalã diante do centralismo do governo ditatorial. Entre os projetos, destacou-se a criação da fundação que atualmente leva seu nome – Fundació Miró , Barcelona (foto abaixo).

Em 1975, após o fim da ditadura militar, o povo espanhol finalmente pôde homegear seu trabalho. Em 1978 uma grande retrospectiva foi realizada em Madri, e em 1980, o rei Juan Carlos I concedeu-lhe a medalha de ouro das Belas-Artes do Estado Espanhol.
Faleceu em 1983 em Palma de Maiorca, em meio a comemoração mundial de seu aniversário de 90 anos.” Miró representava a liberdade. Em certo sentido, era absolutamente perfeito. Não era capaz de pôr um ponto sem fazê-lo no lugar exato: era um pintor de verdade, a tal ponto que bastava deixar cair três manchas de cor cobre a tela para fazer um quadro.”
Alberto Giacometti




 

Cândido Portinari – A Vida de um Mestre da Arte

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Candido Portinari nasce no dia 30 de dezembro de 1903, numa fazenda de café em Brodoswki, no Estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, de origem humilde, recebe apenas a instrução primária. Desde criança, manifesta vocação artística. Aos 15 anos, vai para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes.

Em 1928, conquista o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição Geral de Belas-Artes, de tradição acadêmica. Vai para Paris, onde permanece durante todo o ano de 1930. Longe de sua pátria, saudoso de sua gente, Portinari decide, ao voltar para o Brasil, em 1931, retratar em suas telas o povo brasileiro, superando aos poucos sua formação acadêmica e fundindo a ciência antiga da pintura a uma personalidade experimentalista a anti-acadêmica moderna.

Em 1935, obtém seu primeiro reconhecimento no exterior, a segunda menção honrosa na exposição internacional do Carnegie Institute de Pittsburgh, Estados Unidos, com uma tela de grandes proporções intitulada “Café”, retratando uma cena de colheita típica de sua região de origem.

A inclinação muralista de Portinari revela-se com vigor nos painéis executados no Monumento Rodoviário da estrada Rio de Janeiro-São Paulo, em 1936, e nos afrescos do novo edifício do Ministério da Educação e Saúde, realizados entre 1936 e 1944. Estes trabalhos, como conjunto e como concepção artística, representam um marco na evolução da arte de Portinari, afirmando a opção pela temática social, que será o fio condutor de toda a sua obra a partir de então. Companheiro de poetas, escritores, jornalistas, diplomatas, Portinari participa da elite intelectual brasileira numa época em que se verificava uma notável mudança da atitude estética e na cultura do país.

No final da década de 30, consolida-se a projeção de Portinari nos Estados Unidos. Em 1939, ele executa três grandes painéis para o pavilhão do Brasil na Feira Mundial de Nova York. Neste mesmo ano o Museu de Arte Moderna de Nova York adquire sua tela “O Morro”.

Em 1940, participa de uma mostra de arte latino-americana no Riverside Museum de Nova York e expõe individualmente no Instituto de Artes de Detroit e no Museu de Arte Moderna de Nova York, com grande sucesso de crítica, venda e público.

Em dezembro deste ano a Universidade de Chicago publica o primeiro livro sobre o pintor, “Portinari, His Life and Art”, com introdução do artista Rockwell Kent e inúmeras reproduções de suas obras.

Em 1941, Portinari executa quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, com temas referentes à história latino-americana. De volta ao Brasil, realiza em 1943 oito painéis conhecidos como “Série Bíblica”, fortemente influenciado pela visão picassiana de Guernica e sob o impacto da 2ª Guerra Mundial.

Em 1944, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, inicia as obras de decoração do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte (MG), destacando-se o mural “São Francisco” e a “Via Sacra”, na Igreja da Pampulha. A escalada do nazi-fascismo e os horrores da guerra reforçam o caráter social e trágico de sua obra, levando-o à produção das séries “Retirantes” e “Meninos de Brodowski”, entre 1944 e 1946, e à militância política, filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro e candidatando-se a deputado, em 1945, e a senador, em 1947. Ainda em 1946, Portinari volta a Paris para realizar sua primeira exposição em solo europeu, na Galerie Charpentier. A exposição teve grande repercussão, tendo sido Portinari agraciado, pelo governo francês, com a Légion d’Honneur.

Em 1947 expõe no salão Peuser, de Buenos Aires e nos salões da Comissão Nacional de Belas Artes, de Montevidéu, recebendo grandes homenagens por parte de artistas, intelectuais e autoridades dos dois países.

O final da década de 40 assinala o início da exploração dos temas históricos por meio da afirmação do muralismo. Em 1948, Portinari exila-se no Uruguai, por motivos políticos, onde pinta o painel “A Primeira Missa no Brasil”, encomendado pelo banco Boavista do Brasil.

Em 1949 executa o grande painel “Tiradentes”, narrando episódios do julgamento e execução do herói brasileiro que lutou contra o domínio colonial português. Por este trabalho, Portinari recebeu, em 1950, a medalha de ouro concedida pelo Júri do Prêmio Internacional da Paz, reunido em Varsóvia.

Em 1952, atendendo a encomenda do Banco da Bahia, realiza outro painel com temática histórica, “A Chegada da Família Real Portuguesa à Bahia” e inicia os estudos para os painéis “Guerra e Paz”, oferecidos pelo governo brasileiro à nova sede da Organização das Nações Unidas. Concluídos em 1956, os painéis, medindo cerca de 14m x10m cada – os maiores pintados por Portinari – encontram-se no “hall” de entrada dos delegados de edifício-sede da ONU, em Nova York. Em 1955, recebe a medalha de ouro concedida pelo Internacional Fine-Arts Council de Nova York como o melhor pintor do ano.

Em 1956, Portinari viaja a Israel, a convite do governo daquele país, expondo em vários museus e executando desenhos inspirados no recém-criado Estado Israelense e expostos posteriormente em Bolonha, Lima, Buenos Aires e Rio de Janeiro. Neste mesmo ano Portinari recebe o Prêmio Guggenheim do Brasil e, em 1957, a Menção Honrosa no Concurso Internacional de Aquarela do Hallmark Art Award, de Nova York. No final da década de 50, Portinari realiza diversas exposições internacionais.

Expõe em Paris e Munique em 1957. É o único artista brasileiro a participar da exposição 50 Anos de Arte Moderna, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas, em 1958. Como convidado de honra, expõe 39 obras em sala especial na I Bienal de Artes Plásticas da Cidade do México, em 1958. Neste mesmo ano, expõe em Buenos Aires. Em 1959 expõe na Galeria Wildenstein de Nova York e, juntamente com outros grandes artistas americanos como Tamayo, Cuevas, Matta, Orozco, Rivera, participa da exposição Coleção de Arte Interamericana, do Museo de Bellas Artes de Caracas. Candido Portinari morreu no dia 06 de fevereiro de 1962, quando preparava uma grande exposição de cerca de 200 obras a convite da Prefeitura de Milão, vítima de intoxicação pelas tintas que utilizava.

 

Clique e aprecie algumas obras de Cândido Portinari :http://www.proa.org/exhibiciones/pasadas/portinari/salas/id_portinari_flautista.html

Veja algumas fotos históricas do pintor. Momentos em família, com seus amigos e no trabalho.

Familia Portinari. Briodowski, 1908.Familia Portinari. Brodowski, 1927.Portinari, Antônio Bento, Mario de Andrade e Rodrigo Mello Franco. Rio de Janeiro, 1936.O casal Portinari diante de sua residencia no Condominio Sul America, no Cosme Velho. Rio de Janeiro, 1937.Portinari com sua irma Olga. Rio de Janeiro, 1937.Casal Portinari.Portinari com seu filho Joao Candido, na praia do Leme. Rio de Janeiro, 1941.Casal Portinari com seu filho Joao Candido. Rio de Janeiro, 1941.Com seu filho Joao Candido e o sobrinho Dinho. Rio de Janeiro, 1944.Grupo na calçada em frente a casa de Portinari, no Leme: Mario de Andrade, Oscar Simom, Portinari e Maria. Rio de Janeiro, 1941.Portinari com seus pinceis e paleta. Rio de Janeiro, 1943.Portinari na Argentina. Buenos Aires, 1947.Candido Portinari com Oscar Niemayer. Rio de Janeiro, 1948.Portinari e seus amigos escritores: Graciliano Ramos, Pablo Neruda e Jorge Amado. Rio de Janeiro, 1952.Com seu amigo, Graciliano Ramos. Rio de Janeiro, 1952.Portinari a bordo do navio a caminho da Europa. Navio Augustus, 1956.Portinari com seus pinceis. Rio de Janeiro, 1956.Potinari com seu cachimbo. Rio de Janeiro, 1958.Portinari com sua neta Denise, na praia do Leme. Rio de Janeiro, 1961.Portinari com sua neta Denise, no apartamento do Leme. Rio de Janeiro, 1961.Velorio de Portinari, vendo-se seu filho Joao Candido ao lado do presidente Juscelino Kubitschek. Rio de Janeiro, 1962.Carlos Lacerda ajudando a carregar o caixao de Portinari. Rio de Janeiro, 1962.Pessoas observam o carro do Corpo de Bombeiros, levando o caixao de Portinari. Rio de Janeiro, 1962.O caixao de Portinari sendo colocado no carro do Corpo de Bombeiros. Rio de Janeiro, 1962.

TARSILA DO AMARAL

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INFÂNCIA E APRENDIZADO
Tarsila do Amaral nasceu em 1 de setembro de 1886, no Município de Capivari, interior do Estado de São Paulo. Filha do fazendeiro José Estanislau do Amaral e de Lydia Dias de Aguiar do Amaral, passou a infância nas fazendas de seu pai. Estudou em São Paulo, no Colégio Sion e depois em Barcelona, na Espanha, onde fez seu primeiro quadro, ‘Sagrado Coração de Jesus’, 1904. Quando voltou, casou-se com André Teixeira Pinto, com quem teve a única filha, Dulce.

Separaram-se alguns anos depois e então iniciou seus estudos em arte. Começou com escultura, com Zadig, passando a ter aulas de desenho e pintura no ateliê de Pedro Alexandrino em 1918, onde conheceu Anita Malfatti. Em 1920, foi estudar em Paris, na Académie Julien e com Émile Renard. Ficou lá até junho de 1922 e soube da Semana de Arte Moderna (que aconteceu em fevereiro) através das cartas da amiga Anita Malfatti. Quando voltou ao Brasil, Anita a introduziu no grupo modernista e Tarsila começou a namorar o escritor Oswald de Andrade. Formaram o grupo dos cinco: Tarsila, Anita, Oswald, o também escritor Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Agitaram culturalmente São Paulo com reuniões, festas, conferências. Tarsila disse que entrou em contato com a arte moderna em São Paulo, pois antes ela só havia feito estudos acadêmicos. Em dezembro de 22, ela voltou a Paris e Oswald foi encontrá-la.

1923

Neste ano, Tarsila encontrava-se em Paris acompanhada do seu namorado Oswald. Conheceram o poeta franco suíço Blaise Cendrars, que apresentou toda a intelectualidade parisiense para eles. Foi então que ela estudou com o mestre cubista Fernand Léger e pintou em seu ateliê, a tela ‘A Negra’. Léger ficou entusiasmado e até chamou os outros alunos para ver o quadro. A figura da Negra tinha muita ligação com sua infância, pois essas negras eram filhas de escravos que tomavam conta das crianças e, algumas vezes, serviam até de amas de leite. Com esta tela, Tarsila entrou para a estória da arte moderna brasileira. A artista estudou também com Lhote e Gleizes, outros mestres cubistas. Cendrars também apresentou a Tarsila pintores como Picasso, escultores como Brancusi, músicos como Stravinsky e Eric Satie. E ficou amiga dos brasileiros que estavam lá, como o compositor Villa Lobos, o pintor Di Cavalcanti, e os mecenas Paulo Prado e Olívia Guedes Penteado.

Tarsila oferecia almoços bem brasileiros em seu ateliê, servindo feijoada e caipirinha. E era convidada para jantares na casa de personalidades da época, como o milionário Rolf de Maré. Além de linda, vestia-se com os melhores costureiros da época, como Poiret e Patou. Em uma homenagem a Santos Dumont, usou uma capa vermelha que foi eternizada por ela no auto-retrato ‘Manteau Rouge’, de 1923.

PAU BRASIL

Em 1924, Blaise Cendrars veio ao Brasil e um grupo de modernistas passou com ele o Carnaval no Rio de Janeiro e a Semana Santa nas cidades históricas de Minas Gerais. No grupo estavam além de Tarsila, Oswald, Dona Olívia Guedes Penteado, Mário de Andrade, dentre outros. Tarsila disse que foi em Minas que ela viu as cores que gostava desde sua infância, mas que seus mestres diziam que eram caipiras e ela não devia usar em seus quadros. ‘Encontei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas: o azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante, …’ E essas cores tornaram-se a marca da sua obra, assim como a temática brasileira, com as paisagens rurais e urbanas do nosso país, além da nossa fauna, flora e folclore. Ela dizia que queria ser a pintora do Brasil. E esta fase da sua obra é chamada de Pau Brasil, e temos quadros maravilhosos como ‘Carnaval em Madureira’, ‘Morro da Favela’, ‘EFCB’, ‘O Mamoeiro’, ‘São Paulo’, ‘O Pescador’, dentre outros.

Em 1926, Tarsila fez sua primeira Exposição individual em Paris, com uma crítica bem favorável. Neste mesmo ano, ela casou-se com Oswald (o pai de Tarsila conseguiu anular em 1925 o primeiro casamento da filha para que ela pudesse se casar com Oswald). Washington Luís, o Presidente do Brasil na época e Júlio Prestes, o Governador de São Paulo na época, foram os padrinhos deles.

ANTROPOFAGIA

Em janeiro de 1928, Tarsila queria dar um presente de aniversário especial ao seu marido, Oswald de Andrade. Pintou o ‘Abaporu’. Quando Oswald viu, ficou impressionado e disse que era o melhor quadro que Tarsila já havia feito. Chamou o amigo e escritor Raul Bopp, que também achou o quadro maravilhoso. Eles acharam que parecia uma figura indígena, antropófaga, e Tarsila lembrou-se do dicionário Tupi Guarani de seu pai. Batizou-se o quadro de Abaporu, que significa homem que come carne humana, o antropófago. E Oswald escreveu o Manifesto Antropófago e fundaram o Movimento Antropofágico. A figura do Abaporu simbolizou o Movimento que queria deglutir, engolir, a cultura européia, que era a cultura vigente na época, e transformá-la em algo bem brasileiro.

Outros quadros desta fase Antropofágica são: ‘Sol Poente’, ‘A Lua’, ‘Cartão Postal’, ‘O Lago’, ‘Antropofagia’, etc. Nesta fase ela usou bichos e paisagens imaginárias, além das cores fortes.

A artista contou que o Abaporu era uma imagem do seu inconsciente, e tinha a ver com as estórias de monstros que comiam gente que as negras contavam para ela em sua infância. Em 1929 Tarsila fez sua primeira Exposição Individual no Brasil, e a crítica dividiu-se, pois ainda muitas pessoas ainda não entendiam sua arte.

Ainda neste ano de 1929, teve a crise da bolsa de Nova Iorque e a crise do café no Brasil, e assim a realidade de Tarsila mudou. Seu pai perdeu muito dinheiro, teve as fazendas hipotecadas e ela teve que trabalhar. Separou-se de Oswald.

SOCIAL E NEO PAU BRASIL

Em 1931, já com um novo namorado, o médico comunista Osório Cesar, Tarsila expôs em Moscou. Ela sensibilizou-se com a causa operária e foi presa por participar de reuniões no Partido Comunista Brasileiro com o namorado. Depois deste episódio, nunca mais se envolveu com política. Em 1933 pintou a tela ‘Operários’. Desta fase Social, temos também a tela ‘Segunda Classe’. A temática triste da fase social não fazia parte de sua personalidade e durou pouco em sua obra. Ela acabou com o namoro com Osório, e em meados dos anos 30, Tarsila uniu-se com o escritor Luís Martins, mais de vinte anos mais novo que ela. Ela trabalhou como colunista nos Diários Associados por muitos anos, do seu amigo Assis Chateaubriand. Em 1950, ela voltou com a temática do Pau Brasil e pintou quadros como ‘Fazenda’, ‘Paisagem ou Aldeia’ e ‘Batizado de Macunaíma’. Em 1949, sua única neta Beatriz morreu afogada, tentando salvar uma amiga em um lago em Petrópolis.

Tarsila participou da I Bienal de São Paulo em 1951, teve sala especial na VII Bienal de São Paulo, e participou da Bienal de Veneza em 1964. Em 1969, a mestra em história da arte e curadora Aracy Amaral realizou a Exposição, ‘Tarsila 50 anos de pintura’. Sua filha faleceu antes dela, em 1966.

Tarsila faleceu em janeiro de 1973.

Site de Tarsila:http://www.tarsiladoamaral.com.br/biografia_resumida.html

Operários, de Tarsila do Amaral