Henri Cartier-Bresson e o instante decisivo

“Para ‘revelar’ o mundo é preciso sentir-se implicado no que se enquadra através do visor. Essa atitude exige disciplina de espírito, sensibilidade e senso de geometria. É através de uma grande economia de meios que chegamos à sensibilidade de expressão. Deve-se sempre fotografar com o maior respeito ao sujeito e a si próprio. Fotografar é segurar o fôlego quando todas as nossas faculdades se conjugam diante da realidade fugidia; é quando a captura da imagem representa uma grande alegria física e intelectual.”

Henri Cartier-Bresson

 

O fotógrafo e sua câmera Leica: identificação única entre um artista e seu instrumento

 

Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês (1908-2004), entrou para a história da fotografia como o pai do fotojornalismo e um dos fotógrafos mais significativos do século XX. Foi um aficionado pelo mundo das imagens: expressou-se por meio de desenhos, pinturas, filmes cinematográficos. Mas foi por meio de sua produção fotográfica que ele exercitou a liberdade, presente em seu jeito de pensar, falar, sentir, viver.  Sua obra caracteriza-se pela habilidade técnica e pela precisão em capturar o “instante decisivo”. Numa concepção flusseriana, Bresson é como um caçador: sua câmera é sua arma. Seu território, uma selva de objetos culturais. Obsessivo, ele esperava por horas o momento certo para apertar o gatilho, tal qual um caçador a espera de sua presa.

O ano era 1931. Bresson contemplou uma foto de Martin Munkacsi que revelava três meninos negros nus, no Congo, correndo em direção ao mar. Aquela “coreografia”  representaria a possibilidade de viver sem obstáculos, sem pecado, sem culpa. É a personificação da liberdade, essa de que Bresson sempre foi discípulo. O gatilho foi disparado…  Atingido pela força da linguagem fotográfica, Bresson decidiu que a fotografia,  que marcaria para sempre o seu modo de ser, de sentir, de viver, seria sua religião e sua obsessão.

Não tinha medo, experimentava sempre. Em suas andanças não usava tripé. Com uma Leica na mão passava despercebido e conseguia se aproximar de suas “vítimas”. Com sua poética fotográfica, Bresson desvelou o cotidiano… Mestre de verter, em imagens, aquilo que sentimos e que não conseguimos expressar em palavras. Suas narrativas fotográficas nos ajudam a lembrar do fim da opressão imperialista na Índia, do assassinato do líder pacifista Gandhi, dos primeiros meses de Mao Tsé-Tung, na China comunista, entre outros acontecimentos decisivos que marcaram o século XX. Talvez por isso é que a sua obra influenciou várias gerações de fotógrafos pelo mundo.

Em seus relatos deixou claro que “a fotografia por si só não o interessava, somente a reportagem fotográfica, onde há a comunicação entre o homem e o mundo.” Não ficou esperando a vida passar, foi ao encontro dela.

 

Aqui, um pouco de sua obsessão:

 

Instante 1

“A gente olha e pensa: Quando aperto? Agora? Agora? Agora?
Entende? A emoção vai subindo e, de repente, pronto. É como um orgasmo, tem uma hora que explode. Ou temos o instante certo, ou o perdemos…e não podemos recomeçar…” 

Henri Cartier-Bresson

 

Gare St Lazare, Paris, 1932
(uma de suas fotos mais famosas)

 

Instante 2

“O que importa é o olhar. Mas as pessoas não olham, a maioria não observa, apenas aperta o botão.”
Henri Cartier-Bresson

 

Casal em Paris, em 1968

 

Instante 3

“Fotografar é um meio de compreender, que não pode se separar dos outros meios de expressão visual. É uma forma de gritar, de se liberar e não de provar ou de afirmar sua própria originalidade.”
Henri Cartier-Bresson

 

Martine’s Legs, 1967

 

Instante 4

“Sensibilidade, intuição… senso de geometria. Nada mais”
Henri Cartier-Bresson

 

Hyeres, France, 1932

Instante 5

“É preciso esquecer-se, esquecer a máquina… estar vivo e olhar. É o único meio de expressão do instante. E para mim só o instante importa… e é por isto que adoro, não diria a fotografia….mas a reportagem fotográfica, ou seja, estar presente, participar, testemunhar…”
Henri Cartier-Bresson

 

Queen Charlotte’s Ball, London, 1959

 

Instante 6

“Fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”
Henri Cartier-Bresson

 

Mannhattan, New York, 1968

Os instantes decisivos de Bresson despertam em nós a sensibilidade para outras paragens…

Fonte-Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Professora dos cursos de Comunicação Social e de Psicologia do CEULP/ULBRA.

Mais imagens: http://www.henricartierbresson.org/

Saiba mais:

GALASSI, Peter. Henri Cartier-Bresson: o século moderno. Tradução de Cid Knipel. São Paulo: Cosacnaify, 2010.

FLUSSER, V. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 2002.

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