Arquivo | abril 2011

Dar um Tempo – Carpinejar

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Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe.
O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos.
Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos.
Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto.
Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense.
Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio.
É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga.
Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas.
Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença,
sem levar ou deixar algo.
Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer.
Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.
Dar um tempo é igual a praguejar “desapareça da minha frente”.
É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo.
É um jeito educado de faltar com a educação.
Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes.
Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar,
já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance.
Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou.
E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo.
Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo.
Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo.
Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola.
Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes.
Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo.
Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo.
Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança.
Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido.
Melhor a clareza do que os modos.
Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir.
Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus.
Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.
Resumir a relação a um ato mecânico dói.
Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora.
Espera-se algo que escape do lugar-comum.
Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste.
Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois.
Dar um tempo é roubar o tempo que foi.
Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo.
É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos.
É compatível em maldade com “quero continuar sendo teu amigo”.
O que se adia não será cumprido depois.

Frida Kahlo

 

Frida Kahlo nasceu em Coyoacan, México, em 6 de julho de 1907, filha de pai alemão e mãe mexicana. Já bem garota sofreu de poliomielite, doença que lhe trouxe uma leve deficência física e uma lesão no pé direito. Este problema se recrudesceria com um acidente de ônibus, no qual teve a espinha fraturada, o que a deixou paralítica. Foi nesse período, em que ficava deitada todo o tempo, que começaram seus primeiros passos na pintura.

Foi casada com seu grande amor, o também pintor Diego Rivera, mas entre romances extra-conjugais dele e brigas frequentes, o casal se divorciou em 1940.

Entre 1937 e 1939, acolheu Leon Trotski em sua casa de Coyoacan.

Hoje, sua casa familiar conhecida como “Casa Azul” é a sede do Museu Frida Kahlo. Lá a sua arte, seu diário, sua vida e seu legado de perseverança, de genialidade, de beleza, à sua maneira, continuarão preservados e acessíveis, e assim as pessoas terão o prazer de conhecer a força e a beleza de sua obra que permanecerá viva para sempre.

Frida Kahlo foi, além de pintora genial e grande artista, uma mulher guerreira e forte, que lutou contra adversidades terríveis, e ainda assim foi capaz de transformar toda essa tragédia pessoal em criatividade.

Ela conseguiu manter uma postura política firme, e durante toda a sua vida, foi uma crítica ferrenha do imperialismo, nunca se deixando corromper pelos ideais capitalistas vindos dos EUA(Gringolândia), além de ter feito da sua via crucis, de seu próprio sofrimento, o material temático para sua arte universal e única. Frida Kahlo foi genial porque subverteu, sublimou e transcendeu a arte e pintou seus dramas, suas dores e suas aflições.

Frida morreu aos 47 anos. Oficialmente, a morte foi causada por embolia pulmonar, mas há uma forte suspeita de suicídio. Pouco antes de morrer, teria dito: “”Espero a partida com alegria… e espero nunca mais voltar… “, frase que sempre que eu leio, me emociona profundamente.

Desde o momento em que conheci a Frida Kahlo mulher, pintora, artista, feminista, engajada politicamente, fiquei fascinada por tudo que ela representava. Uma figura de uma beleza fora dos padrões, que se vestia de uma forma altamente regional(já chamando atenção para os problemas dos índios), a sua arte autobiográfica, melancólica, seus textos, o fato de ser uma deficiente física, latino-americana, valente, autêntica, bissexual num país extremamente machista, enfim, tudo o que geralmente é censurável numa pessoa, até nos dias de hoje.

Salve, Frida Kahlo!

Fonte- http://mysimplewords.blogspot.com/2007/07/salve-frida-kahlo.html

Confira a home page de Frida Kahlo – http://uminha.tripod.com/frida.html