Arquivo de Tag | CRÔNICA

Carta ABERTA para uma VIDA INACABADA de uma Espectadora não linear.- Elisabete Cunha

22222'

9

Como vai Vida?

Querida,você tem tentado testar minha resistência né danadinha? Eu te entendo, quem manda dizer que é corajosa, valente e destemida. não é mesmo? Agora aguenta coração! Este ano de 2014 tenho tido muitas surpresas com você amiga. Por aqui, nada no mesmo, tudo mudando e rodando. Você me tirou o chão várias vezes, mas não reclamo. Pois através disso descobri uma força que sabia que tinha, só não sabia como administra-la. Pois, como você bem sabe tudo acontece no superlativo comigo e através disso percebi que a maior certeza que temos é que não existem “certezas” .

É difícil conciliar tantos acontecimentos novos e emoções nada tranquilizantes tenho lados tão opostos, sou tão Yin-yang… eu que nunca fui muito certa, continuo batendo a cabeça. Estou feliz com meu pavio curto que tem ficado bem mais zen e equilibrado. Mas, difícil ainda é aceitar certos limites no meu corpo que não existiam e você já deve ter percebido que tenho tentado ser cuidadosa,carinhosa e acima de tudo compreensiva aceitando meus limites e aprendendo que somos apenas um grão de poeira na areia deste universo . E vida , como existem pessoas que ainda não “perceberam” este detalhe, tão importante. Somos frágeis e podemos morrer a qualquer segundo, você com o tempo me ensinou isso. Apesar de saber que ainda não consigo ver a morte como algo natural.

O fato de descobrir que não sou eterna me deixou mais humilde e resiliente. Seguranças são tão preciosas e ao mesmo tempo inseguras, não sei se você me entende. Por isso alterno. Me alterno. Por isso choro, sorrio,escrevo, invento e ainda me emociono com uma flor, uma música, uma criança, um idoso fofo, um abraço de verdade. Eu quero entender o mundo, mas só consigo amar. Penso que se entendesse um pouco de mim eu perceberia mais os porquês e sofreria menos por nada. Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói muito. Corta, rasga, machuca e sangra. Quando fico feliz, o mundo me devora.Luz e energia fazem parte de mim, nasceram comigo, afinal sou uma típica ariana que encabeça o mundo.

Ah, minha amiga, esse meu coração me devora mesmo! As ventanias são tão fortes que as vezes penso que vou cair…Daí , vem a brisa soprando baixinho no meu ouvido: – Quem é de Oyá não cai, enverga enverga, mas não quebra. O meu Deus é um Deus de bondade , um Deus que une crenças e aceita o amor de qualquer religião. pois para mim , Deus é amor. E é esse Deus conciliador que é a minha base para nunca me deixar desistir de viver.Mas, a minha fome de viver é tanta que devora minhas palavras, minhas frases, meu desejo, e me alimenta para prosseguir.

Existe uma citação da Lya Luft que adoro e tento seguir: ”A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura.”Querida Vida, eu nunca fui uma pessoa equilibradamente linear, você bem sabe que desde menina sempre me refugiei no meu mundo de desenhos, livros e fantasia. Era minha salvação diante de tantos fatos que ocorriam na vida de uma menininha questionadora. Ainda não sou uma pessoa terminada e nem quero ser, eu não quero rótulos nem roteiros prontos, não existe começo nem fim em mim. Eu existo. E eu quero viver!

Enfim ,a cada dia aprendo que para compreender o outro é preciso respeitar a individualidade alheia. É preciso ter coragem pois acho que a vida é um processo mutável , além de tudo, não temos o controle de nada. É quase uma arte mostrar-se sem pudores, tornar-se vulnerável é coisa para gente forte… Não tem jeito, o caminho é prosseguir e contemplar cada momento que você nos dá como se fosse o último.O último suspiro.

Um beijo e dá lembrança a Felicidade , manda ela aparecer mais e avisa a Esperança que estou sempre confiando nela.Só vou te fazer um pedido…Não deixe o Medo e aquela galera do mal  que o seguem virem para o lado de cá,tá?

 Sem Mais !

Elisabete Cunha 06/11/2014

P. S. Esqueci de agradecer tantas coisas maravilhosas que você me proporciona a cada dia minha amiga Vida . Você tem sido generosa comigo sim. Muito! Pois é, esquecemos sempre que a gratidão é algo tão grandioso e pratica-la é tão raro . É esta feia mania de pedinte que os seres humanos possuem… Desculpe, somos seres difíceis de lidar. Eu sei. E novamente citando a grande Lya Luft  finalizo : “Apesar das minhas fragilidades, avanço.”

O homem fofo é o canalha de fato – Xico Sá

 

tumblr_n8co4jVzL41qmmcc4o1_500>

Ovídio, meu eficiente pombo correio do amor, não cansa de trazer mensagens e mais mensagens de corações trincados ou simplesmente descrentes nos homens. Ovídio arrulha, como se dissesse: meu amo, meu paciente conselheiro sentimental, te viras que a bronca é pesada. Novos ares, partiu, e lá se vai a avoante figura sobrevoando as encostas do morro do Cantagalo em busca de novas cartinhas.

O principal assunto das cartas que tenho recebido é o seguinte: o cara vem cheio de chabadabadás para cima das moças -principalmente nas redes sociais-, a conversa pega fogo, rola o encontro, o rapaz é fofo e carinhoso, o sexo para começo de história está ótimo, o menino joga na linguagem de um possível caso ou namoro, segue a vida, mais uma saída, um sexozinho gostoso de novo…

Alguns dão até presentinhos…

Fofo!!!

Aí do nada o desgraçado desaparece. Quebra geral a narrativa. Nem um sinal de tambor na floresta, necas de uma mensagenzinha, mesmo que sem graça, em uma garrafa atirada nos mares da internet.

A moça tenta um contato de terceiro grau. Nada. A moça, amigo, vos digo, não é uma desesperada que viu no encontro uma cena de matrimônio. Ao contrário. Estava na dela, tipo ele fala em casamento… ela toma uma coca zero. Nem aí mesmo.

Só fica puta da vida porque o miserável das costas ocas, o malassombro, não é claro no seu sumiço. Havia até falado em ver “O grande hotel Budapeste”, o filme, com a nega. Sem se falar em outras fofuras futuras etc.

Aí chegamos ao ponto, colega. Os fofos são os piores nesse aspecto. Só os fofos pulverizam o ambiente com o bom-ar das falsas promessas. Os fofos sentem a extrema necessidade de continuarem fofos. Amam ser elogiados pela utópica fofolândia que carregam no mapa imaginário de bolso.

Não vivem sem isso. São escravos da fofura ou da falsa e viciante fofura.

O cafajeste até deixa um certo suspense, afinal de contas sabe que o encontro de um homem e uma mulher é e sempre será dirigido pelo cineasta Hitchcock, mas o cafa não engana com os signos da fofice de um possível namoro. Todo cafa é apenas um budista -sem templo- que vive o momento amoroso.

O perigo, nesse sentido, amiga, vem do fofo. O que apenas prova que o contrário da cafajestice não é a fofura. O bom homem é, digamos assim, o homem normal, o homem da agricultura, da pecuária, o vaqueiro, o suburbano sem os arrotos do canalha-bouquet dos vinhos finos –mas aí já seria outra crônica.

O fofo pode ser sim um perigo. Sendo indie ou não.

O fofo sofre de um certo don-juanismo, a doença da conquista pelos bons modos e a boa impressão que causa. Aquele que faz a moça ligar para a amiga no dia seguinte e dizer, na euforia, “bicha, num acredito, o que é esse homem, tão sensível, curte literatura, ama o Morrissey…”

O fofo tem sangue frio na sua arquitetura da decepção. O fofo constrói todo um repertório de coincidência de meus livros, meus discos, minhas bandas etc.

Sumir todo mundo some, homem, mulher etc, mas na equação entre promessa e fuga ninguém supera a covardia –sentimental ou sexual- de um um homem dito fofo.

“C’est la vie”

Metade gente, metade animal. Assim ela se reconhece desde criança. Nunca foi fã de zodíaco, mapa astral e esses papos. Mas ao conhecer seu signo, descobriu-se nele: ser vestida de poesia versus razão é normal. O arco tenso em sua mão direciona a grande flecha para a liberdade ilimitada: impossível prender uma sagitariana. Banalidade não faz parte do repertório. Numa busca incessante por conhecimento e viagem, às vezes ela se cansa dela mesma.
É sedenta pelo saber. Coração mole até demais: parte do seu lado gente. Força física e mental para ter noção dos seus próprios limites (mesmo sem aceitar alguns) e defeitos: parte do seu lado animal. Diz que quer poder estudar “pra sempre” até quando o sempre existir para ela.
Hoje sabe que a tal lua nova em seu signo representa a renovação de ciclos, por isso sua inconstância e necessidade de mudança constante. Não falta-lhe poder para o recomeço, mesmo que às vezes não se reconheça forte. Amante da solitude e solidão, se recolhe para juntar os cacos quando em pedaços. Sabe que não há alegria sem dor nem felicidade sem busca.
Há pouco tempo libertou-se da reclusão, hoje respira tão fundo tudo o que quer, que seus pulmões mal conseguem suportar. É tempo de virar uma lua cheia com a beleza da noite, período do dia em que nasceu. Está iluminada pelas estrelas, abençoada pelos seus esforços. Abriu as portas do novo, do próximo ciclo. É hora de cruzar o planetário… E ela faz isso amanhã… Pela trigésima segunda vez.

Fernand’s

A FITA MÉTRICA DO AMOR – Martha Medeiros

I AM...CRAFTY!: Hooked on Granny Squares

 

Como se mede uma pessoa?

Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento.

 Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

 Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto. Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma.

Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês. Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos.

Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande.

É a sua sensibilidade sem tamanho !

 

[Martha Medeiros]

VEM AMOR!

Tumblr_lmja4pyzjl1qec335o1_400_large

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês,  mais me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca … Goste de música e de sexo. goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois … se calhar … Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos … me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte! Se nada disso funcionar … experimente me amar!

Martha Medeiros

[Martha Medeiros é uma jornalista e escritora brasileira. É colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.]

Tumblr_ls46ahl0gu1qmjdx1o1_500_large