Arquivo | abril 2014

Eu quero , eu quero, eu quero!

Vejam só, são poucos os jovens que não desejam possuir um iPhone, uma camiseta da marca Abercrombie (ou qualquer outra marca que impressione e dê status) e sem esquecer de um tênis da Nike para chamar de seu.

Se um desses artigos faltar, eles na certa reclamam e provavelmente vão se sentir diferentes do resto da turma. Mas reflita:
Essa padronização de consumo faz bem para a saúde psicológica do seu filho?
Como mostrar para seu filho (A) que antes de TER é importante SER?
o ESSENCIALe importante é que os pais digam que os valores pessoais são muito mais importantes do que grifes.
Diante do excesso de estímulos publicitários a que somos expostos hoje, as crianças ficam mais propensas a ter um comportamento consumista, que pode prejudicá-las não só na infância, como na vida adulta. E para combater isso, é fundamental que os filhos sejam educados financeiramente desde cedo.
E é essencial que nossas crianças aprendam a lidar com frustrações, pois só ouvindo “não” elas aprenderão a valorizar o “sim”. E somente dessa forma elas estarão preparadas para enfrentar as decepções com as quais irão se deparar quando mais velhas, tanto no campo financeiro, quanto pessoal.

O macho e a falta de jeito para acabar a relação Por Xico Sá

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Seja um casamento seja um rolinho primavera. Homem não tem a manha.

Por que o homem não sabe acabar direito uma história? Fora Esopo, que ainda nos deixa uma moralzinha de presente, nenhum macho sabe concluir uma narrativa -digo nenhum mais deve ter uns dois ou três lá na minha terra. Só no Crato!

A modinha agora é terminar por mensagem de texto. Indolor. Modinha de macho, óbvio. O medo do goleiro diante do choro. Mal sabem que as lágrimas das raparigas são coquetéis sem alcool, como diz o amigo ultramarinho Miguel Esteves Cardoso no seu livro “O Amor é Fodido” (ed. Assírio & Alvim).

A modinha é até acabar pelo Instagram, como me alerta aqui esse colosso de moça chamado Nick Lanis. Repare na falta de vergonha desse menino, leia isso.

Juntei aqui umas 30 mensagens de leitoras sugerindo o tema. No que me manifesto, com fragmentos de textos que já escrevi sobre o assunto e algum frescor de reciclagem. Urge.

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o escandaloso ponto poroso da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente, jornal da morte, SANGUE, SANGUE, SANGUE, como cantava o Roberto Silva na música regravada lindamente pela Nação Zumbi.

Sem reticênciasm, faz favor, seu cronista.

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, as mulheres sabem que não faz sentido a prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no continental sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem aqui nem Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever na neve o “the end” sem pelo menos uma discussão que amplie o aquecimento do planeta.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais sentava praça.

O mais frio, o mais cool dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim, amém.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira costela ou com o primeiro mancebo que aparece pela frente.

Faça como o cara aí do filme “Alta Fidelidade” (foto), sofra dignamente, mas também não precisa exagerar. Isso passa.

 

fonte- Folha

OBSESSÃO DO MAR OCEANO / Mario Quintana

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Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Julio Cortázar

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“Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água.”

Julio Cortázar

A Serenata – Adélia Prado

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A Serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardin.
Estou no começo do meu dessespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
– só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela,se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

Adélia Prado

 

Cavernas

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Em algum lugar houve a primeira camada, a primeira poeira da qual vieram outras poeiras que foram se juntando, formando uma pedrinha, e assim foi o mundo surgindo.

E as camadas se acomodam aparentemente, porque elas têm a paixão dentro delas, porque as camadas, de repente, podem originar vulcão, terremoto, tsunami.

A natureza humana tem esse lado de geologia porque é capaz de pôr em prática ou de traduzir o possível mistério humano que está no fundo das pedras, das montanhas e até mesmo das mais profundas cavernas que possuímos e temos medo de conhece-las.