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PÉROLAS – Rubem Alves

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As pérolas são feridas curadas,
são produtos da dor,
resultado da entrada de uma substância
estranha ou indesejável no interior da ostra,
como um parasita ou um grão de areia.
A parte interna da concha de uma ostra
é uma substância lustrosa chamada nácar.
Quando um grão de areia penetra,
as células do nácar começam a trabalhar
e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas
para proteger o corpo indefeso da ostra.
Como resultado, uma linda pérola é formada.
Uma ostra que não foi ferida de algum modo,
não produz pérolas,
pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de um amigo?
Já foi acusado de ter dito coisas que não disse?
Suas idéias já foram rejeitadas, ou mal interpretadas?
Você já sofreu os duros golpes do preconceito?
Já recebeu o troco da indiferença?
Então, produza uma pérola !!!
Cubra suas mágoas com várias camadas de amor.
Infelizmente são poucas as pessoas
que se interessam por esse tipo de movimento.
A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos,
deixando as feridas abertas,
alimentando-as com vários tipos de sentimentos pequenos e,
portanto não permitindo que cicatrizem.
Assim, na prática, o que vemos são muitas “ostras” vazias,
não porque não tenham sido feridas,
mas porque não souberam perdoar,
compreender e transformar a dor em amor.

Rubem Alves

 

Vergonha do Brasil? – Por Alexandre Esposito

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Eu tenho vários péssimos hábitos, como a maioria das pessoas. Mas acho que o pior de todos é a terrível mania de ler a seção de comentários das notícias de grandes portais.

Os comentários geralmente cobrem toda a variedade de coisas detestáveis possíveis: discurso de ódio, radicalismo, erros grotescos de português, interpretações equivocadas do conteúdo da matéria (algo natural até, quem não sabe escrever também não costuma saber ler). Enfim, mas de tudo isso, uma das coisas mais recorrentes e que mais me incomoda é a tal vergonha do Brasil que tantos comentaristas afirmam ter.

Todo mundo tem o direito de sentir vergonha do que quiser, até do próprio país, e nunca vocês vão me ver defendendo o “ame-o ou deixe-o” calhorda dos tempos da ditadura. A questão que me incomoda tanto na verdade está em duas coisas: 1) os motivos, que parecem mais um fruto do tal complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues cunhou há mais de 50 anos do que justificativas aceitáveis; e 2) o quanto que essas mesmas pessoas que dizem ter vergonha do Brasil estão contribuindo ou não pra deixar o país “menos vergonhoso”.

Sobre o primeiro ponto, nada como aproveitar um ponto de vista de fora. Há umas semanas, bombou na Internet um post de um francês que vive no Brasil onde ele lista várias particularidades do nosso país e do povo. Algumas me chamaram atenção:

“Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem
funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui é assim, é Brasil. Tem um
sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito
dos Estados Unidos. Tô esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.”

Olha o tal do complexo de vira-lata aí. Nelsão sabia das coisas. Só é uma pena que tantas décadas depois a gente ainda não tenha conseguido superar isso.

Mas não é só a mania de inferioridade que atrapalha, é o ódio mútuo. Tão fácil quanto ler sobre a vergonha do Brasil nos comentários de notícias, é encontrar discussões entre pessoas de regiões diferentes que ultrapassam o bairrismo e a rivalidade bem-humoradas e viram discursos de ódio. Podem conferir: tem sempre vários paulistas e cariocas ofendendo uns aos outros, vários gaúchos ofendendo o resto do Brasil e todo mundo, independente da origem, ofendendo os nordestinos. E talvez essa ignorância e incapacidade de ver os valores dos outros e a importância que eles tiveram pro crescimento do país (em todos os sentidos, desde economicamente até culturalmente) ajudem a explicar esse sentimento negativo de tanta gente quanto ao Brasil.

Aparentemente o brasileiro (ou pelo menos esses dos comentários) só faz parte de um só país durante a Copa do Mundo. Mas uma vez a cada quatro anos é muito pouco.

O francês falou de mais um ponto interessante:

“Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter trânsito, obras com
atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos
especificamente brasileiros. Mas nunca fui num país onde as pessoas dirigem
bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista,
onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde
todo mundo é bem educado!”

Pois é, seja qual for a notícia ruim, sempre tem alguém para mandar um “só podia ser no Brasil! Lixo de país”. O mais curioso foi quando vi um comentário assim em uma notícia de um assalto… que tinha acontecido em Barcelona!

E eu não tô dizendo que é pra gente ser ufanista alienado e fechar os olhos para os problemas do país, como a corrupção, violência, falta de educação e afins. É pra reclamar, ficar em cima, cobrar mesmo (embora fazer isso apenas pela Internet não resolva nada). O que não dá é pra achar que só nós temos esses problemas, porque isso dá um ar de “missão impossível” para eles e torna as soluções ainda mais distantes.

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É isso que eu quis dizer lá em cima sobre os motivos de ter vergonha pro Brasil não fazerem muito sentido. Corrupção, violência e falta de educação são vergonhosos sim, mas não são exclusividade nossa. Mas infelizmente tem aqui e tem na maior parte do mundo também.

Então que tal parar de sentir vergonha e tentar cobrar mais as mudanças? Fazer alguma coisa? Porque é justamente aí que entra a minha segunda questão: o quanto cada um está fazendo.

Quer reclamar da corrupção dos políticos? Ótimo. Mas se você faz carteirinha falsa pra ir a shows, ou se paga cinquentinha pro guarda não te multar quando é parado fazendo merda no trânsito, você é tão corrupto quanto eles. Nem mais, nem menos: a mesma coisa, porque é cada um tentando tirar vantagem de acordo com suas possibilidades. E depois disso, cabe à gente com mais participação política (constante e séria, e não só entrar na onda de compartilhar imagens de Facebook sobre o Feliciano) e votos conscientes mudar a situação a cada eleição. Mas em vez disso temos um grupo enorme de pessoas que tem preguiça, que não tem saco de falar de política, e que acham mais cômodo ficar só compartilhando as tais imagens.

O caos no trânsito te envergonha? Perfeito, a menos que você faça bandalhas no trânsito, não use seta, dirija embriagado. Se o mal planejamento urbano é uma das causas dos congestionamentos, a falta de educação da maioria das pessoas também é. Aliás, o trânsito é justamente o lugar que prova que falta de educação está longe de se restringir à falta de instrução. O que mais se vê nas grandes cidades é o empresário com todas as graduações possíveis (e que, apesar de se sentir espertalhão superior aos outros, pagou em seu carro gigantesco o triplo do valor que o resto do mundo paga) fechando cruzamentos ou cortando todo o trânsito sem a menor consideração e respeito pelo próximo.

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O Brasil tá longe de ser o que poderia, mas só sentir vergonha não resolve nada. Enquanto a individualidade falar mais alto que a coletividade e ninguém se unir pra trazer soluções reais, nada vai mudar.

Mas é aquela coisa, se você quer ter vergonha do Brasil, direito seu. Mas primeiro tenha vergonha na cara.

Publicitário, blogueiro, produtor de festa e, pro azar de vocês, piadista.

Eu, eu mesma e minha vagina

Cara Vagina,

Não está fácil o mundo aqui fora. Como você deve saber, somos mulher, e isso não exatamente ajuda.

Há quem discorde, e diga que mulheres têm muito mais facilidades do que homens. Porque somos fisicamente mais fracas, e porque a sociedade machista quer nos agradar e nos levar para cama, o que deveria abrir certas portas. Talvez, mas implica em te usar quando os outros querem, e não quando eu quero. Te colocaria meio que a serviço deles. Te curto vagina, e levo a sério seus sentimentos e vontades. Tento sempre que possível, atendê-los. Ouço e levo em consideração.

(Sigo te devendo o Javier Bardem. Tá difícil, mas não desisti).

Não é tarefa fácil. O mundo não exatamente curte o tipo de relação que nós temos. O mundo prefere que a gente não se entenda e que eu não te dê ouvido ou voz. Que eu não consiga te entender e te agradar. O mundo fica mais tranquilo quando mulheres e vaginas são inimigas.

O mundo mina nossa relação tratando meu temperamento quase insuportável como se fosse consequência de negligenciar suas vontades e desejos. Ah, se eles soubessem o que se passa aqui…

Mas não sabem. E não só no que diz respeito a você. O mundo não entende nada de mulher. E prefere assim. Prefere fingir que tudo se resume a TPM, muito sexo, pouco sexo, nenhum sexo, vontade de procriar e competitividade entre vaginas. Eles acham que é assim simples. Que somos assim óbvias.

Claro. Afinal vai tudo de vento em popa, e as pessoas só fazem melhorar. Por que raios alguém teria algum motivo para se aborrecer com esses humanos lindos? Puro desequilíbrio. Pura falta de sexo. Até porque são todos exímios amantes que de tão incríveis, mudariam nossa vida com uma noite de sexo.

Mulher é tudo louca, repetem por aí. Quero ver aguentarem o que aguentamos.

O mundo é machista. Não estou militando, não estou nem reclamando, mas é. São os fatos. Mulheres são machistas. Constatação que não é novidade, mas é real. Se um marido dá em cima de uma mulher X, e ela deixa: ela é uma puta. Se uma esposa, dá em cima de um homem solteiro: ela é uma puta. Gostaria de entender. Gostaria que eles entendessem.

Mas como eles entenderiam? No mundo heterossexual machista tem coisas que eles nem imaginam que passamos, simplesmente por existir. E não falo de opressão, ou violência, ou injustiça. Falo das pequenas coisas do dia a dia. Eles não imaginam o constrangimento que é ir ao ginecologista e além de responder questões íntimas sobre nós duas, ainda deitar naquela mesa medonha, te deixar exposta, e quando parece que não existe como piorar, o médico senta ali no meio e puxa uma luminária que tem um spot na ponta, para te enxergar melhor. Tudo isso enquanto pergunta o que temos feito da vida. No momento estamos passando vergonha, doutor.

O mundo maravilhoso da intimidade feminina. Da manutenção, do cuidado e da higiene.

Não imaginam como sofremos na depilação. Não imaginam que mais do que tornar tudo esteticamente mais agradável para eles, nos submetemos a rotina de arrancar os pelos todos com cera quente porque fica tudo mais gostoso. E a dor passa e a sensação fica. E é deliciosa. Pararei por aqui. Porque você sabe do que eu estou falando e aqui não é lugar para ficar de conversinha para punheteiro se inspirar. Até porque eles te imaginam depilada, mas, não imaginam o contorcionismo envolvido, e a sensação humilhante que é ter que te abrir para a fulana depiladora deixar tudo impecável.

Temos nossos bons e maus momentos. Confesso me chatear com você quando você faz barulhos fora de hora, na frente dos meninos, durante o sexo. Eu sei, foi ele quem empurrou ar para dentro e uma hora o ar teria que sair. Eu sei que acontece muito de vez em quando, mas eu gostaria que não acontecesse nunca. O que importa é a gente, mas eu gosto e quero impressionar alguns dos moços para quem te apresento. Gostamos deles.

Não imaginam também como é gostoso quando concordamos, e que sempre sabemos o que queremos, mesmo quando não é a melhor das ideias. Não imaginam como somos doces e gentis com eles, mesmo quando eles fazem tudo errado. Como insistimos e mostramos o caminho, mesmo quando o começo é pouco promissor. Não entendem que a única forma de terem alguma chance com a gente é se nos entendermos. Não sabem nos valorizar e cuidar das duas em igual medida.

Sorte que nos entendemos, e contamos uma com a outra. E fazemos nossos exercícios Kegel e nos preocupamos mais com incontinência urinária na terceira idade do que com o tamanho dos pênis que encontramos por aí.

Deixa eles, Vagina. Uma hora eles aprendem.

Tenho que ir agora, hora do banho e depois cinema. Te vejo mais tarde.

Beijos!

A menina e o pássaro encantado – Rubem Alves

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Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

* * *

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

VAI NO PSICÓLOGO!!!


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A expressão “é psicológico”, “é emocional” ou “é psicossomático” está na boca do povo. Médicos costumam utilizá-la com frequência. É fato comum: você vai ao médico e ele pede uma série de exames. Não conseguindo encontrar evidências fisiológicas ou orgânicas relacionadas aos males que você apresenta, não hesita, solta logo seu veredicto sagrado: “seu problema é de origem psicológica”.
Alguns encaminham o paciente para um psiquiatra. Outros recomendam psicoterapia. E esses pacientes aparecem em nossos consultórios. E, não muito raro, têm expectativas médicas e até mecânicas em relação à solução de seus problemas. Geralmente esperam que a solução virá de um conserto aqui e outro ali, ou de um medicamento que logo apagará tudo o que lhe tem feito padecer. Pode-se dizer que, nesses casos, muitas vezes o médico passa a batata quente para as mãos do psicólogo. Pois o paciente chega até nós bastante ansioso em relação à solução imediata de problemas que nem mesmo se tem certeza sobre sua possível causalidade. Dizer ao paciente que é psicológico possui talvez alguns sentidos que seria interessante tratar aqui. O que um médico está fazendo quando enuncia isso a seu paciente? Está de fato apontando a causa dos problemas desse paciente e lhe indicando o melhor caminho ou tratamento a ser seguido? Na minha concepção não está apontando causa nenhuma. O enunciado “é psicológico” é muito vago para poder ser considerado científico. Se tivéssemos que tornar esta comunicação mais precisa, seria mais interessante comunicar ao paciente que ele deveria procurar profissionais de outras áreas, psiquiatras e psicólogos, por exemplo, para continuar a investigação das possíveis causas de seu problema de saúde.

Não deixo de me lembrar de algumas considerações acerca desse tipo de interações com médicos. Em um determinado episódio da série de televisão “House, M.D.”, o protagonista diz mais ou menos assim: “Quando um médico diz que seu problema é psicológico é porque ele é um idiota e não descobriu as causas”. Apesar de ofensiva, esta fala chama a atenção para um fato: o que muitos médicos estão fazendo quando emitem esse enunciado tão genérico a seus pacientes? Estão, muitos deles, tentando esconder de seu paciente sua incapacidade ou limites para saber o que está acontecendo? Não são capazes de dizer: “sinto muito, mas não sei o que você tem”? Por que tudo, no meio médico, tem de terminar com uma espécie de veredicto, com um diagnóstico categórico? Outra passagem da qual me recordo é de Susan Sontag, em seu livro “A doença como metáfora”. Ela diz que se ouvir de seu médico que seu problema é psicológico, se isto ocorrer, peça seu dinheiro de volta. E há como ter esta segurança toda, enunciando que o problema é “psicológico”?

Tem como simplesmente transferir o problema para psicólogos e psiquiatras? Penso que não é tão simples assim. Alguns médicos, nessas situações, estão mais tentando se livrar do problema e de assumir seus limites do que trabalhando para de fato tentar descobrir o que está acontecendo. Assumir seus limites e deixar claro que estão compartilhando a investigação com outros profissionais talvez seja uma devolutiva mais profissional. Neste mesmo livro, Sontag deixa claro os equívocos históricos que já ocorreram em função dessa atribuição espúria de causalidade. Os exemplos mais notórios são a tuberculose e as úlceras estomacais, sendo que o segundo exemplo é bem recente – só para não nos esquecermos desse tipo de equívoco. No caso da tuberculose, antes da descoberta de sua verdadeira causa, a bacterial, eram atribuídas a ela, também, causas psicológicas. No caso das úlceras estomacais, é bem mais fácil de se compreender o cenário, pois o papel etiológico significativo de um agente microbiano (a Helicobacter pylori) rendeu até mesmo um Prêmio Nobel de Medicina em 2005. Ou seja, há evidências, na história, da repetição do misticismo de que esta ou aquela doença é “psicológica”. É muito mais fácil atribuir uma causalidade vaga do que investigar de fato o que pode estar acontecendo, com abertura para todas as possibilidades factíveis. Não estou também, por outro lado, querendo apagar os componentes comportamentais ou interacionais de nossa saúde. Se há a possibilidade desses componentes estarem exercendo sua influência de modo mais determinante, eles devem ser investigados com mais precisão. Há um argumento de Skinner que talvez ajude a compreender essa questão da causalidade.

Em seu livro “Ciência e comportamento humano”, mais especificamente no capítulo 3, ele defende que toda causa é sempre externa e que a atribuição de causas internas a nossos comportamentos não teria qualquer função explicativa. Se um sujeito, por exemplo, está bebendo água com uma frequência alta e perguntarmos o por quê desse comportamento, geralmente teremos a seguinte resposta: bebe água porque está com sede. E assim acabamos ficando reféns de uma explicação circular: bebe água porque tem sede, logo tem sede porque bebe água. E isso não nos leva a lugar algum, a qualquer possibilidade concreta ou precisa de resolução do problema. Se, por outro lado, pensarmos em possíveis causas concretas, teremos algo mais palpável, mais razoável como hipóteses. O sujeito bebe muita água pois pode estar com uma dieta muito salgada; pode estar transpirando bastante, devido a altas temperaturas; pode estar com alguma disfunção orgânica, tal como diabetes, por exemplo. Enfim, essas são hipóteses mais precisas e menos vagas. E isto é investigar, de fato.

Quando alguém diz que é “psicológico”, podemos logo então perguntar: psicológico como, de que maneira? O que este sujeito faz para que assim o seja? Qual é precisamente sua participação? Que tipos de interações ou comportamentos, especificamente, podem ser determinantes? E até que ponto dizer que é psicológico também pode piorar a situação, em vez de ajudar? Sim, pode haver casos em que a pessoa, ao ouvir um enunciado vago desses, venha a se sentir culpada por coisas que nem mesmo lhe dizem respeito. Para tornar isso mais claro, vamos a um exemplo bem prático. Uma conhecida minha padeceu durante meses de coceiras nas costas. Foi de médico em médico, fez diversos exames, e ouvia sempre o quê? “Isso é psicológico…”. Um belo dia, ela teve uma idéia muito simples: trocaria de marca de sabonete. Assim o fez e as coceiras desapareceram, por completo. E aí me pergunto: onde esses médicos vão colocar essa conversa banal e reducionista de que “é psicológico” depois de uma dessas? E vamos supor que ela começasse a se sentir responsável por seus sintomas de um modo bastante difuso e comum: “ah, tenho coceiras nas costas, pois sou uma pessoa que carrega rancores, que não sabe perdoar, de ruindade mesmo…”. Enfim, com todo um desfile de superstições modernas, psicologizantes. Sim, pois todo o desespero em atribuir sentidos ou causas, gerando equívocos, é superstição.

É mais fácil nomear logo, encontrar uma pseudocausa para nossos problemas do que a investigação e ponderação razoável sobre o que de fato pode estar acontecendo. E assim também talvez não seja muito difícil desembocarmos em lugares comuns os quais afirmam uma série de outras besteiras atuais, tais como a força do pensamento positivo, por exemplo. Tudo pode, dessa maneira, terminar em algumas idéias pobres e comuns de que tudo depende de nossas crenças, do poder de nossa mente para mudar o que se encontra em nossa volta e por aí vai. Ou seja, se é psicológico, a responsabilidade é inteiramente sua. Logo, além de doente, você ainda terá motivos, obtusos, de sobra, para se sentir também culpado. Um fardo e uma ilusão a mais, e muita investigação a menos.

Fonte:

14 Oct 2009

Adriano Facioli

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