Arquivo | junho 2016

Covinhas…

 

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As covinhas femininas são a primeira experiência nuclear bem sucedida. Provavelmente, um buraco provocado por alguma divindade revoltada com a gigantesca discrepância entre feiura e beleza. Explico.

A primeira vez que vi uma mulher com covinhas nas bochechas, eu tinha entre sete e oito anos de idade. Obviamente, já devia ter visto mulheres com covinhas antes. Mas estou me referindo a um momento específico. Falo na pequena aptidão para reparar em pequenos detalhes. “Pequenos detalhes”: parece até pleonasmo. Mas não é.

No caso das covinhas, é algo pequeno só em tamanho mesmo. Do ponto de vista da beleza produzida pelo efeito, trata-se de um detalhe enorme. Um daqueles objetos anatômicos responsáveis por separar as mulheres em grupos: as instintivamente interessantes e aquelas que precisam se esforçar.

O primeiro par de covinhas que eu vi pertencia à secretária do meu dentista. Devo ter sido a primeira criança, nessa idade, a abandonar todas as reclamações ao ouvir a palavra “dentista”. Adoro ir ao dentista, até hoje. E foi meu pai quem ouviu o meu primeiro grande furo jornalístico: “pai, aquela mulher tem a cara furada! Mas, às vezes, não aparece. Olha!”, apontei com uma vontade assustadora de olhar o fenômeno muito de perto.

Fui contido pela mão pesada do meu pai, segurando meu braço com força. Ele evitava o abandono do meu lugar na cadeira da sala de espera. Eu só queria chegar mais perto e entender. Ela devia estar desesperada para não ser devorada por uma criança faminta com uma visível propensão para o canibalismo. Felizmente, esqueci o fenômeno logo que me colocaram sentado na cadeira do velho dentista por alguns longos minutos.

Ao me despedir, a elegante moça das covinhas havia trocado seu turno por outra mulher. Sem covinhas.

Da secretária com covinhas, só lembro que seus sorrisos eram mais escassos do que realmente deveriam ser. Acho que essa é a sensação que mantenho desde então a respeito disso. Mulheres com covinhas jamais sorriem o suficiente. É um eterno duelo entre a vulgaridade dos sorrisos falsos e a beleza de uma dupla de bochechas com covinhas.

No caso da secretária, os sorrisos escassos impediam a apresentação das covinhas com a frequência necessária para satisfazer minha mistura de curiosidade e desejo. É difícil imaginar algo que tem como exigência para se manifestar o sorriso, do qual faz parte como um fenômeno endógeno.

Qualquer tipo de explicação sobre as fibras da pele e a musculatura da face não é suficientemente abrangente para detalhar suas causas, muito menos seus efeitos. É o que separa a beleza feminina de todas as outras belezas. Covinhas nas bochechas afeminam os homens. Nas mulheres, é algum desses mistérios religiosos materializados: estranho, antes da experiência; e lindo quando materializado.

Sobrevivi, mas sem nunca esquecer aquela primeira imagem.

Honestamente, não lembro: era uma secretária magra, gorda, alta, baixa, feia ou bonita? Não sei. Brevemente, recordo o sorriso inicial, o fato de ela ter ficado assustada com minha reação ridícula e infantil. Lembro-me ainda de dois sorrisos simpáticos, subsequentes, dados ao telefone, instrumento de trabalho maldito, responsável por dificultar minha visão das covinhas. Eu estava posicionado num ângulo muito ruim.

Em alguns casos, covinhas são ovos fritos com azeite de oliva. As covinhas são o único elemento estético invariavelmente belo do corpo feminino. Magras, gordas, altas, baixas, loiras, morenas, ruivas, orientais. Não importa. Covinhas nascem bem em qualquer mulher.

 

Escrito por Everton Maciel
Everton Maciel é gaúcho e não suporta bairrismo. Só tolera bares que não permitem camisas polo. Nasceu jornalista, mas fez mestrado em Filosofia e mantém um blog próprio, o Blog do Maciel. Tem Facebook e Twitter

Aspectos psicológicos do câncer de mama

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O impacto psicológico causado pelo câncer de mama traz uma significativa repercussão na vida da paciente. Quando esse momento é vivido com conhecimento e compreensão, através de um apoio psíquico, torna-se possível o entendimento dos seus medos e angústias que podem interferir em uma resposta ao seu tratamento terapêutico. Desta forma, é importante que o acompanhamento multidisciplinar e especializado seja promovido à paciente com dedicação e confiança, oferecendo assim, o reestabelecimento da saúde em seu sentido mais amplo. A seguir, a psiquiatra e psicanalista do Serviço de Saúde Mental do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Lizete Dickstein, aborda aspectos psicológicos da doença.

Havendo a confirmação de um tumor maligno, a mulher passará por várias fases de conflitos internos que oscilam desde a negação da doença até a esperança da cura. Como é realizado esse primeiro apoio psicológico a essa paciente?

O tratamento de uma paciente com câncer de mama deve ser conduzido obedecendo algumas peculiaridades como, a idade, o momento de vida em que se encontra essa mulher e os seus anseios e planejamentos precisam ser expostos, para que haja uma conduta correta e direcionada. Outro ponto relevante é o acolhimento da equipe médica, como o diagnóstico é comunicado e posteriormente no efetivo tratamento, pois a relação médico-paciente gera troca e confiança entre eles. Quando isso não acontece, pode ocorrer um desgaste maior da mulher durante todo o processo do tratamento. O apoio familiar também é traçado como parte importante da terapia. A inserção da família nesse processo favorece a aceitação da doença e a reabilitação, influenciando na melhoria da qualidade de vida da mulher vítima do câncer.

A causa e a cura do câncer permanecem na obscuridade. Isso pode atrapalhar a procura e aceitação ao tratamento?

A paciente pode desenvolver uma depressão e um isolamento social. O especialista, ao perceber tais sintomas, deve encaminhá-la ao serviço de psicologia e psiquiatria. Muitas vezes, essa paciente se nega a aceitar tal conduta, ela tende a encarar a doença como uma ação destruidora e geralmente é sentida como um castigo, uma punição, uma vez que o câncer está associado ao estigma da morte. Apesar dessa postura, o médico deve mostrar as possibilidades de cura, a sua relação com a estética e como isso pode ser vivido e superado.

O diagnóstico da doença e todo o seu processo são vividos pela paciente e seus familiares como um momento de angústia. Como o profissional de psicologia pode atuar e conduzir esse cenário?

A atuação do profissional de psicologia deve ser vista como uma forma de tratamento e iniciada imediatamente após o diagnóstico e definição da conduta terapêutica oncológica. Essa primeira avaliação deve ser individual, para que haja um maior entendimento do psicólogo e para que ele consiga absorver todas as angústias e incertezas trazidas pela paciente. Em um segundo momento, o atendimento pode ser estendido aos familiares próximos, a fim de estreitar essa rede de apoio, de forma que a paciente se sinta acolhida e aceita nessa fase de sua vida.

Como manter o emocional equilibrado e a qualidade de vida diante de um diagnóstico de câncer de mama?

A presença da depressão e estado de dor e angústia é perfeitamente aceitável na descoberta da doença. É patológico se a mulher apresentar uma outra postura, isso significaria a negação do câncer. Para que esse cenário seja menos doloroso, a equipe de saúde pode, também, ser participativa positivamente nesse cenário psicoterapêutico, o que possibilitará uma maior tranquilidade e apoio durante todo o processo de tratamento, assim como de seus familiares.

Quais são os aspectos da doença que mais refletem na autoestima da paciente?

O temor ao câncer de mama acomete a retirada de parte do corpo da mulher e, que em muitas culturas, desempenha função significativa, a sua estética, fantasias e intimidade ficam comprometidas. Aceitar sua nova condição e adaptar-se à nova imagem do seu corpo, exige um esforço muito grande para o qual, muitas vezes, não estão preparadas e por isso ela precisa de um apoio próximo, de alguém confiável.

Como fica a relação dessa paciente com o seu companheiro (questões sexuais e emocionais)?

O apoio do companheiro é muito importante, embora, seja uma situação de dificuldade e aceitação também para ele. A mulher, na maioria das vezes, apresenta um sentimento de isolamento, se torna fria e distante e se recusa a ter relações sexuais, por acreditar que não é mais atraente para o marido e que não é capaz de trocar experiências, antes compartilhadas. O suporte psicológico deve ser oferecido ao casal, muitos homens se assustam com a deformação do corpo da mulher, fica com medo de tocá-la, se sentem amedrontados com a situação, que deve ser trabalhada e abordada pelo casal. O amadurecimento, cumplicidade e a confiança estabelecida nesse relacionamento também será um fator de peso para a condução psicoterapêutica do problema.

É possível perceber uma relação entre a faixa-etária e o comportamento psicológico de uma paciente com câncer de mama, ou seja, uma mulher que já tenha família/filhos reage de forma diferente de uma que esteja buscando esses ideais?

Essa questão terá um lugar de menos ou mais importância, dependendo da idade e etapa da vida em que a mulher está inserida. Uma descoberta da doença em uma paciente com 25 a 30 anos terá um impacto mais traumático, pois pressupõem que essa mulher esteja em busca de uma união, a construção de uma família, provavelmente, isso vai afetar muito mais as questões sexuais, atrativas e de autoestima da paciente.

Uma mulher que se encontra em uma fase mais avançada da vida e já tenha vivenciado essas experiências também terá a sua sexualidade fragilizada, embora outros laços de família se façam presentes, amenizando o peso e os traumas da doença.

Fonte: Suely Amarante/ IFF/Fiocruz

Fibromialgia: lidando com a dor crônica

Fibromialgia: lidando com a dor crônica
A fibromialgia pode nunca desaparecer completamente, mas o tratamento e um bom auto-cuidado podem reduzir os sintomas.

Por Havens Lila.
Revisão médica: Giselle HPR Diniz.

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A fibromialgia é uma doença crônica que causa dores e cansaço extremo. Os sintomas são semelhantes aos causados por artrites, mas ao contrário da artrite, não causa danos nas articulações e nos músculos.

Qualquer pessoa pode ter fibromialgia, mas as pessoas mais comumente afetadas são:

  • Mulheres entre 20 e 30 anos
  • Pessoas com uma doença que afeta as articulações, tais como artrite reumatoide, lúpus ou espondilite anquilosante

A fibromialgia tende a piorar algumas vezes e melhorar em outros períodos. Ela pode nunca desaparecer completamente, mas você pode se sentir melhor com o tratamento.

O que provoca a fibromialgia?

Os médicos não têm certeza da causa da fibromialgia, mas parece estar relacionada a um problema com a forma com que o corpo processa os sinais de dor, fazendo-a reagir exageradamente a eles.

A fibromialgia é geralmente causada por uma lesão, uma infecção ou stress. Parece aparecer nas famílias, por isso a tendência em desenvolvê-la, pelo menos em parte, deve ser herdada (genética).

Quais são os sintomas?

Os sintomas mais comuns da fibromialgia são:

  • Sensibilidade. Uma das características principais da fibromialgia é a presença de “pontos sensíveis” específicos no pescoço, ombros, braços, pernas, costas e quadris. Mesmo uma leve compressão desses pontos pode ser dolorosa.
  • Dor. A dor é generalizada e afeta diferentes partes do seu corpo em momentos diferentes. Seus músculos e articulações podem latejar, doer ou queimar. Você pode sentir dor forte quando acordar pela manhã.
    • Fadiga. Você pode se sentir tão exausto que terá problemas para cumprir as tarefas do dia.
    • Problemas de sono. Você pode ter problemas para ter um sono profundo e restaurador.

    A fibromialgia podem também causar outros sintomas. Estes incluem a síndrome do intestino irritável, dores de cabeça, síndrome das pernas inquietas, problemas para raciocinar ou de memória, ansiedade e depressão.

    Como é diagnosticada?

    As pessoas às vezes vivem com dor e fadiga por algum tempo antes de serem diagnosticadas com fibromialgia. Os sintomas são semelhantes aos de muitas outras condições, e isso muitas vezes ocorre juntamente com outras doenças, que devem ser descartadas antes da fibromialgia ser diagnosticada. Os médicos dependem de um exame físico e um histórico de sintomas para diagnosticá-la. Você pode ser diagnosticado com fibromialgia, se tiver:

    • dor generalizada por pelo menos 3 meses
    • dor ou sensibilidade em 11 dos 18 “pontos dolorosos” específicos
    • sintomas que não podem ser explicados por um outro problema

    Não há exames de sangue ou raios-x que possam diagnosticar a fibromialgia, mas um médico pode pedir estes exames para ajudar a excluir um outro problema que causa sintomas semelhantes.

    • Qual é o tratamento?

      Fibromialgia é uma condição frustrante que pode ser difícil de diagnosticar e tratar. Muitas pessoas se beneficiam de uma combinação de tratamento médico e de estratégias de auto cuidado.

      Medicamentos podem ajudar a aliviar os sintomas. Medicamentos que os médicos prescrevem frequentemente incluem:

      >Analgésicos, como paracetamol ou ibuprofeno ajudam algumas pessoas. Outros precisam de medicamentos fortes, como tramadol.

      • Antidepressivos, como a amitriptilina, fluoxetina, venlafaxina e duloxetina.
      • Remédio para neurites, chamados pregabalina ou gabapentina.
      • Medicamentos para sintomas específicos, tais como relaxantes musculares e remédios para dor de cabeça.

      Seu médico também pode sugerir outros tratamentos, como massagem terapêutica, fisioterapia e outras terapias, como a terapia cognitivo-comportamental, que pode ajudar você a aprender formas de lidar com a sua doença.

      Um bom auto-cuidado é vital para a gestão de fibromialgia. Para isso:

      • Faça exercícios físicos diariamente. Pode ser difícil pensar em se exercitar quando você não tem energia e sente dores. Mas o exercício é provavelmente a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo. Comece devagar e faça mais do que você se sente capaz. Tente uma caminhada de 15 minutos, nadar ou andar de bicicleta, depois de alguns alongamentos. Ao longo do tempo, o exercício pode reduzir a dor e a rigidez. Sempre verifique com seu médico antes de aumentar sua atividade.
      • Pratique bons hábitos de sono. Vá para a cama e acorde na mesma hora todos os dias. Verifique se o seu quarto é silencioso, escuro e com uma temperatura confortável. Evite cafeína e álcool antes de deitar. Tente não cochilar durante o dia.
      • Encontre maneiras de reduzir o stress. Procure maneiras de simplificar a sua agenda. Reserve algum tempo todos os dias para relaxar. Tente meditação ou respiração profunda.
      • Saiba mais sobre fibromialgia. Organizações de fibromialgia sempre têm muita informação. Compartilhando o que você aprende com a família, amigos e colegas de trabalho, você poderá ajudá-los a entender mais sobre sua doença.
      FONTES:

      – Consenso Brasileiro do Tratamento da Fibromialgia. Rev. Bras. Reumatol. 2010;50(1):56-66.

      – National Institute of Arthritis and Musculoskeletal and Skin Diseases. Fibromyalgia.
      – Burkham J, Harris ED, Jr. Fibromyalgia: A chronic pain syndrome. In: Harris ED, Jr., et al., eds. Kelley’s Textbook of Rheumatology, 7th ed. Philadelphia, PA: Elsevier Saunders; 2005.
      – American College of Rheumatology. Fibromyalgia.

       

    dor ou sensibilidade em 11 dos 18 “pontos dolorosos” específicos