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DADAÍSMO – O CABARET VOLTAIRE E O SEU TEMPO.

 

Tristan Tzara, Paul Éluard, André Breton, Hans Arp, Salvador Dalí,
Yves Tanguy, Max Ernst, René Crevel & Man Ray, 1933

“Dada não significa nada… A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta… não sou nem a favor nem contra, e não vou explicar porque razão odeio o bom-senso…”
” (Tristan Tzara).
Em 1914, quando começou a Primeira Guerra Mundial, o alemão Hugo Ball (1886-1927) mudou-se para a Suíça, que permaneceria como um país neutro, junto com sua companheira, também alemã, Emmy Hennings ( 1885-1948). Em Zurique, uma urbe cosmopolita, fundaram o Cabaret Voltaire, na Spielgasse, nº 1 (onde existe ainda hoje) . O nome do recinto evocava o filósofo francês François Voltaire (1694-1778) ele próprio, em sua época, considerado um intelectual iconoclasta e revolucionário. Os espetáculos no clube se caracterizavam pelo seu non sense e rebeldia, e o ambiente, pelo barulho incessante.

 


Cabaret Voltaire, Zurique, 1916

 

O nome Dada, escolhido para o movimento, não tinha o menor significado ou importância para seus próprios integrantes. A última coisa que desejavam é que tivesse conotação como alguma acepção de racionalidade. Teria sido encontrado numa escolha aleatória, abrindo ao acaso um dicionário francês, onde encontraram a palavra, que designava um “cavalo de brinquedo”. Ao mesmo tempo, dada se assemelhava a um balbuciar de nenê, portanto algo sem sentido próprio.


Revista Dada, 1917-18

Hugo nasceu em Pirmasens, pequena cidade alemã da Renânia e, ainda jovem, já era diretor de teatro em Munique, no Munich Chamber Theater, além de colaborador numa revista intitulada Revolution. Recusou cumprir seu serviço militar no exército alemão e tornou-se desertor. Era um personagem inovador e contestatário, tendo “inventado” poemas constituídos apenas por sons, simples fonemas, flatus vocis, que não representavam palavras coerentes, nem conceitos, mas apenas efeitos acústicos, como Gadji Beri Bimba.

Abaixo, os primeiros versos do poema “sonoro” Gadji beri bimba , de Hugo Ball. Não esquecer que em Zurique o idioma é o alemão – se é que isso importava aos dadaístas.

“gadji beri bimba glandridi laula lonni cadori
gadjama gramma berida bimbala glandri galassassa laulitalomini
gadji beri bin blassa glassala laula lonni cadorsu sassala bim
gadjama tuffm i zimzalla binban gligla wowolimai bin beri ban”

Hugo era um show man, e de fato seriam necessárias algumas décadas para que os ambientes artísticos, a partir de 1960, aceitassem este tipo de performance como forma de arte. Não por acaso, quando publicou excertos de seu diário do período dadaísta, Hugo os intitulou Flucht aus der Zeit (Fuga do Tempo). O Cabaret Voltaire liderou o movimento dadaísta suíço até 1917, e ali confraternizaram artistas como Hans Arp franco-alemão, 1886-1966); Marcel Janco (húngaro, 1895-1984); e Tristan Tzara (romeno, 1896-1963).

Emmy também era oriunda de uma pequena cidade alemã, e iniciava uma carreira de escritora quando conheceu o futuro marido em 1913, no Cabaret Simplizissimus, de Munique, onde se apresentava como artista profissional de cabaret, partindo depois junto com ele para Berlim e, mais tarde, para Zurique.  


Hugo Ball em performance, representando o mágico Bischof em roupas cubistas,
Zurique, 1916, foto do arquivo Nachlass Hugo Ball und Emmy
Hennings Schweizerisches Literaturarchiv, de Berna

 


Tristan Tzara

 


Raoul Hausmann, Cabeça Mecâmica – O Espírito do nosso Tempo
(Der Geist unserer Zeit), Berlim 1919.

 


Johnson contra Cravan, poster anunciando de luta de box,Barcelona, 1916.

 

Tristan Tzara (1896-1963), na verdade Samy Rosenstock, um romeno de origem judaica, um dos fundadores do Cabaret Voltaire, era poeta e ensaísta. Seu pseudônimo significava, em tradução livre, “Terra Triste”. Em 1917, quando Hugo Ball saiu de Zurique, ele assumiu o comando dos dadaístas. Como muitos intelectuais da época, engajou-se no comunismo e na resistência ao nazismo, enquanto produzia ensaios e poemas.

Marcel Janco (húngaro, 1895-1984), também de origem judaica, era poeta e pintor, tendo inclusive ilustrado poemas de Tzara. Fugindo à perseguição nazista, em 1941 foi para Israel (morreu em Tel Aviv), onde continuou sua carreira literária, realizando poemas fonéticos, à maneira de Ball.

Hans Peter Wilhelm Arp (1866-1966) entre os dadaístas foi aquele que deixou obra artística visual mais expressiva. Praticou a pintura, escultura, colagens e relevos. Nascido em Estrasburgo, na Alsácia, quando a região fazia parte da Alemanha, era filho de pai alemão e mãe francesa. Em 1915, desertando do exército alemão, foi viver em Zurique (em 1926 acabaria por optar nacionalidade da mãe). Sua personalidade criativa o levou a participar, além do dadaísmo, em movimentos como o grupo Cobra e o surrealismo, tendo adquirido, como artista, notoriedade internacional e sucesso comercial.

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Em Berlim, antes de se refugiar na Suíça, o casal Hugo-Emmy frequentava o Café des Westens, que fervilhava de ideias e espírito revolucionário. Naquele ano (1914) os “vermelhos” Rosa Luxemburgo (1871-1919) e seu companheiro Karl Liebknecht (1871-1919) fundaram na Alemanha a Liga Espártaco (alusão ao líder escravo que chefiou revoltas contra o Império Romano) e, em 1918, o jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha). Os dois morreram assassinados pelos nazistas, junto com centenas de seus seguidores, sem jamais terem sido julgados. Este ambiente social explosivo, explica o exacerbamento político dos dadaístas. Zurique encontrava-se no epicentro de um conflito bélico global de proporções até então nunca vistas, nem imaginadas.

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Por outro lado, aproximava-se a Revolução Russa de 1917, enquanto o czarismo derrocava, afundando em seus erros e crimes. Na época, o mais importante líder comunista russo, Lenin, seguia um périplo no seu exílio, chegando à Suíça em 1914, primeiro a Berna e depois mudando-se para Zurique. E foi nesta cidade que Lenin, dois anos depois, escreveu Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, um dos textos que serviram de base à orientação dos marxistas de todo o mundo. Zurique, na Suíça, era um refúgio para os revolucionários, assim como Munique, na Alemanha, se tornaria, na década de 1920, o olho do furacão nazista. Em 1917 diversos movimentos pacifistas explodiram na Alemanha.

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Mais tarde, Hans Arp, um dos artistas que aderiu ao movimento, escreveu: “… revoltados com a carnificina da Primeira Guerra, permanecemos em Zurique, nos dedicando (somente) às artes. Enquanto as armas rugiam ao longe, nós cantamos, pintamos, fizemos colagens, escrevemos poemas com todas as nossas energias.”

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Um dos escritores que reproduziu esse cenário de chumbo foi Franz Kafka (1883-1924), judeu nascido em Praga, mas que escrevia em alemão. Em 1915 publicou Metamorfose uma novela densa e enigmática sobre um homem comum, que um dia acorda transformado em um inseto nojento.
Se revivermos o momento histórico em que aconteceu o dadaísmo, suas propostas não parecem pueris. As guerras e seu cortejo de infâmias, num continente dilacerado sistematicamente por conflitos intermináveis, não apareciam aos olhos dos artistas como algo sensato, mas completamente ilógico, uma ignomínia sem explicação. Os dadaístas esperavam que a sociedade ousasse se mirar num espelho, para sentir todo o absurdo da situação. Ou seja: o dadaísmo, quando comparado à brutal realidade, parecia um divertimento inocente.

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Em 1915, três artistas declaradamente dadaístas rumaram para Nova York, onde pretendiam estabelecer-se profissionalmente: Man Ray (na verdade Emanuel Rudzistsky, norte-americano, fotógrafo e pintor, 1890-1976); Francis Picabia (francês, pintor e poeta, 1879-1953); e Marcel Duchamp (francês, artista e teórico, 1887-1968). Fundaram a revista 291, porém, não obtendo notoriedade, acabaram voltando para a Europa.


Marcel Duchamp, Fonte, foto de Alfred Stieglitz em Nova York, 1917.

 

 


Man Ray, Solarização, foto, 1929

 

 

 


Man Ray, Mulher desenhando, 1912

 

 


Francis Picabia, Lu-Li, 1947

 

Na Alemanha, antes mesmo da Primeira Guerra terminar, em 1918, o dadaísmo  chegou a Colônia, Hanover e Berlim, contando-se entre eles o mencionado Hans Arp, Marx Ernst (alemão, pintor, escultor, um dos artistas mais influentes da primeira metade do século 20, 1891-1976), mais Kurt Schwitters (alemão, pintor, escultor e poeta, (1887-1948).

 


Hans Arp, Bigodes, circa 1925, Tate Gallery, Londres

 

 


Merzbau, Kurt Schwitters, Hannover 1923

 

 


Max Ernst, Uma maneira de ser (também) pode ser arte, 1919

 

A partir de 1919, o dadaísmo se fixou definitivamente em Paris, tendo como corifeus o citado Tristan Tzara, além de Francis Picabia, Man Ray e André Breton (francês, escritor, poeta, teórico do surrealismo, 1896-1966).

O Brasil, como os Estados Unidos, não experimentava as convulsões sociais da Europa. As condições objetivas para o surgimento e a expansão do dadaísmo eram quase inexistentes. Mesmo assim, alguma repercussão teve o movimento no país.

No Brasil, uma performance que lembra o espírito dadaísta foi realizada, em outubro de 1956, pelo artista Flávio de Carvalho (1899-1973) que passeou pelo centro de São Paulo vestindo o seu New Look, na verdade um traje supostamente adequado ao calor, que incluía uma blusa com mangas curtas, saiote, chapéu e sandálias. O poeta Manuel Bandeira e o pintor Ismael Nery, em alguns momentos, igualmente foram influenciados pelo dadaísmo. Mário de Andrade, autor de Paulicéia Desvairada, ali incluiu um poema que exprime a aversão à sociedade estabelecida: “… Eu insulto o burgês! O burguês-níquel, / o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! …”

 


Flávio de Carvalho e seu New Look, 1956

Apesar do dadaísmo não ter, praticamente, sobrevivido à Primeira Guerra, algumas de suas teses contaminaram o expressionismo (inclusive o expressionismo Abstrato), o surrealismo, a arte conceitual e a Pop Arte.

CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO

Será possível determinar algumas “características”, ou chamar o dadaísmo de “movimento” , quando seus seguidores  exorcizavam quaisquer atributos para classificar suas próprias ações? Porque sua única regra era: não observar regras.

Em suas apresentações, os dadaístas tratavam, em primeiro lugar, de provocar reações negativas ou de repulsa, entre os circunstantes. Nas suas obras havia traços que provinham de outros movimentos artísticos, como o expressionismo, o cubismo e o futurismo, mas esta herança não devia interferir com as violentas mensagens dadaístas. Mais tarde, alguns artistas dada aderiram ao surrealismo, que lhes pareceu bem mais consistente sob o ponto de vista estético. No Cabaret Voltaire, as manifestações não eram adocicadas como caprichos intelectuais, antes reações barulhentas  e raivosas. Ao ponto de os próprios seguidores aceitarem que uma hipótese viável para o futuro do movimento seria a sua autodestruição.

Pode também notar-se no dadaísmo a influência do niilismo do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1884-1900). Este defendia que o ser humano, tendo chegado à conclusão que o cristianismo era um conjunto de falsidades, passaria a manter uma desconfiança total em relação a todos os valores, concluindo que nada que o cerca tem sentido, nem na sua vida pessoal, nem sob os pontos de vista religioso ou metafísico (décadas mais tarde, o movimento filosófico existencialismo voltaria a estas teses, com pessimismo semelhante).

Também não havia limites ou preferências por qualquer forma de arte, fosse pintura, tecelagem, arte em vidro, música, poesia “sonora”, fotomontagens, teatro, ou objetos prontos (ready made).

O artista francês Marcel Duchamp (1887-1968) trouxe para o dadaísmo o objet trouvé, ou tout fait (do francês: objeto encontrado por acaso – rótulos de garrafas, tíquetes de metro ou de ônibus, produtos industriais sem serem modificados, embalagens de bebidas, coisas achadas em latas de lixo)  o qual poderia se incorporar à obra de arte, mesmo sem qualquer interferência do artista no seu aspecto visual. Em inglês este objeto se designa como produto ready-made.

 


Marcel Duchamp jogando xadrez, um de seus passatempos favoritos

 


Marcel Duchamp, readymade, porta-garrafas

 


Marcel. Duchamp, ready made, Roda de bicicleta

 


Marcel Duchamp, Gioconda. Em 1919, o artista colocou um bigode
sobre uma reprodução barata do célebre quadro de Da Vinci, com a inscrição LHOOQ.
Soletrando em francês, estas letras se pronunciam como “elle a chaud au cul”
(que, em tradução livre, quer dizer: ela tem fogo no rabo).
Esta apropriação vulgar da obra de um clássico permaneceu
como um símbolo da iconoclastia dos dadaístas.

 

***

Escreveu Tristan Tzara “… Eu redijo um manifesto e não quero nada… sou, por princípio, contra manifestos … redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, num único sopro… sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem a favor nem contra e não vou explicar porque razão odeio o bom-senso…”

ARTES VISUAIS NA ÉPOCA DO DADAÍSMO
Como era o ambiente das artes visuais na época do dadaísmo? Que escolas, ou movimentos, aconteciam naquele período? Continuavam as escolas tradicionais, como o romantismo, o classicismo, o academicismo e o impressionismo, todos eles encarados com desdém pelos vanguardistas, que se alinhavam à margem do figurativismo tradicional. Os principais movimentos contestatários eram:

 

EXPRESSIONISMO. Na cidade alemã de Dresden, em 1905, tinha surgido uma facção de artistas que se congregavam em torno de propostas vanguardistas. Seu grupo se chamava Die Brücke (A Ponte). Entre os nomes que ficaram: Erich Heckel (1883-1970), Emil Nolde (1867-1956) e Ernst Kirchner (1880-1938).
Este núcleo inicial deu origem a um movimento mais amplo e o expressionismo se espalhou pela Europa e Américas.  “… Seus integrantes não se conformavam com o fato de, naquele tempo conturbado e violento, os artistas continuarem a pintar à maneira ‘agradável’ das décadas anteriores (classicismo, romantismo, impressionismo, pontilhismo, art nouveau). Procuravam refletir as emoções, a revolta interior e denunciar a violência social. Usavam cores fortes, recusavam a verosimilhança da obra de arte com seu objeto, a luz aprazível das obras de escolas anteriores. A arte seria ação, não contemplação; deveria ser uma projeção da mente do artista para fora, não assimilação plácida do mundo real. Utilizavam pinceladas grossas e vigorosas, exercendo a crítica social com suas figuras deformadas… ” Foram figuras dominantes do expressionismo: o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944); os franceses Georges Rouault (1871-1958), Henri Matisse (1869-1954) e André Derain (1880-1954); e o austríaco Oskar Kokoschka (1886-1980).

 

CUBISMO.  Foi iniciado em Paris, com as contribuições de Georges Braque (1882-1963) e Pablo Picasso (1881-1973) os quais, por sua vez, se inspiravam em Paul Cézanne (1839-1906). Entre os críticos convencionou-se que o marco inicial da escola seria o quadro de Picasso Les demoiselles d’ Avignon (As moças de Avignon) pintado em 1907. Neste período inicial houve igualmente a contribuição de vanguardistas russos, alguns fazendo parte do chamado cubofuturismo. O cubismo sugeria a substituição do espaço tridimensional (e a perspectiva, que dominava a pintura ocidental, sobretudo desde a tradição do renascimento) por formas geométricas unidimensionais e pelo emprego das cores, numa paleta limitada de cinzentos e marrons. O objeto seria passível de ser representado em várias imagens espaciais simultâneas. Por exemplo, o retrato de uma pessoa poderia apresentá-la de frente e de perfil, no mesmo quadro.

 

FUTURISMO. Em Milão, Itália, o poeta italiano Fillipo Tommaso Marinetti (1876-1944) lançou em 1909 seu Manifesto Futurista. Segundo este libelo, a arte deveria libertar-se do passado e assumir o papel que lhe caberia perante o novo mundo industrial. Em vez da contemplação teria que cultuar a velocidade, a violência, as máquinas: “… Declaramos que o esplendor do mundo foi enriquecido com uma nova forma de beleza, a beleza da velocidade. Glorificamos a guerra – a única verdadeira higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo … destruiremos museus, bibliotecas e lutaremos contra o moralismo, feminismo e todas as formas de covardia utilitária…”

 

SURREALISMO. Devem-se assinalar algumas raízes comuns com o dadaísmo. Como data aceitável para o início do surrealismo pode indicar-se 1919, quando o artista alemão Max Ernst (1891-1976) participou de uma exposição em Colônia, Alemanha. Seus trabalhos faziam parte da mostra Novas Tendências, da qual participavam dadaístas. Entre as obras havia instalações, tendo esculturas com fios, colagens, objetos encontrados ao acaso e apetrechos científicos. Logo após esta mostra,Breton escreveu a Ernst e desta sua colaboração iriam brotar as primeiras manifestações surrealistas. Em 1920, as colagens exibidas em Colônia provocaram o espanto de intelectuais como Tristan Tzara e o poeta francês Louis Aragon (1897-1982). Em relação aos dadaístas, os surrealistas haviam absorvido mais informações sobre a mente humana, sobretudo pela difusão das teorias psicanalíticas de Freud, o que proporcionou ao movimento surrealista mais densidade e consistência intelectual do que se verificava no dadaísmo.

 


Max Ernst, Édipo Rei, 1922. Influência surrealista

 

BAUHAUS. Em 1920, poucos anos depois do Cabaret Voltaire, em Weimar, cidade alemã  na contramão de todos estes movimentos, anteriormente citados,  com posturas pessimistas, surgiu o Bauhaus, uma espécie de Secretaria de Estado para a Construção, originariamente dirigida por Walter Adolf Gropius (1883-1969). 

O Bauhaus advogava papel mais importante para a arquitetura e o design, perseguindo a máxima economia de materiais, atendendo às finalidades práticas do fazer artístico. Não era uma proposta somente estética, mas social e política, pois o convívio teve um efeito didático, mesclando cérebros criadores com ofícios manuais.

Em 1925, Gropius projetou uma escola em outra cidade germânica, Dassau, na qual continuou a mostrar o respeito e atenção por cada material, sempre cuidando de baratear os custos das construções e do mobiliário. Com este ponto de vista, passaram a desenhar-se e a fabricar-se, em escala industrial, cadeiras, mesas, instalações tubulares, atividades em que se destacaram Mies van der Rohe (1866-1969) e artistas de vanguarda atraídos pelas propostas. Nomes que ficariam para a posteridade, como Paul Klee (1897-1940), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Moholy-Nagy (1895-1946), ensinaram na Bauhaus. Le Corbusier (Édouard Jeanneret-Gris, dito 1887-1965) foi um dos talentos que estabeleceu contato importante com os inovadores. Além disso, o Bauhaus teve contribuição inestimável para a segunda fase do Art Déco.

Em 1928, Gropius foi substituído na direção até que, após pressão dos nazistas, finalmente a escola foi fechada, em 1933. A diáspora levou alguns de seus artistas para os EUA, inclusive Gropius.

ARMORY SHOW. Pode ser considerada a primeira grande exposição de arte moderna em qualquer parte do mundo. Foi realizada em Nova York em fevereiro e março de 1913, dela participando importantes artistas europeus, como Paul Gauguin (1848-1903), Pablo Picasso (1881-1973) e Marcel Duchamp (1887-1968). Mostraram-se mais de mil obras de diversas tendências, que iam do impressionismo às (então recentes) experiências abstratizantes. O nome da exposição (Armory, arsenal de armas), organizada pela Associação dos Pintores e Escultores Americanos, advém do fato de ter sido realizada nas dependências de um antigo regimento militar. Teve grande importância para a arte norte-americana, pois a colocou em contato com as vanguardas europeias.

 

Fontes

Em português

Chilvers, Ian, Dicionário Oxford de Arte, tradução de Marcelo Brandão Cipolla. Martins Fontes, São Paulo, 1996.

Dempsey, Amy, Estilos, escolas e movimentos, tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Cosac & Naify, São Paulo, 2003.

Richter, Hans, Dadá: arte e antiarte. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1993.

http://dododadaismo.blogspot.com.br/p/dadaismo-no-brasil.html
http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_795.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dada%C3%ADsmo
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/dadaismo/dadaismo-1.php

Em francês

http://www.le-dadaisme.com/

Em inglês

http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/88/dada-def.html
http://www.theartstory.org/movement-performance-art.htm

Em espanhol

http://www.arteespana.com/dadaismo.htm

 

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Beatriz Milhazes e suas mil cores

Carioca formada em comunicação, Beatriz Milhazes faz parte de um grupo de artistas chamados de “Geração 80”, composto por artistas plásticos que conquistaram espaço no mercado depois da exposição que aconteceu no Parque Lage em meados de 1980.

Suas obras com inspiração nos projetos de Burle Marx, no Barroco, nas telas de Tarsila do Amaral, entre outras referências, estão cada dia mais em alta. Milhazes hoje tem destaque internacional, com suas obras em acervos de museus como MoMa, Metropolitan, Guggenhein, além de exposições itinerantes em várias cidades do mundo e até mesmo painéis para projetos comercias, como o da livraria Taschen de Nova York – que já postamos aqui no blog – , em que a artista pintou 39 murais, cada um medindo 3.7m de altura.  

O elemento principal de suas obras é a diversidade de cores e formas geométricas em diferentes variações, sejam essas em colagens, pinturas e sobreposições. Em 2008, sua tela “O Mágico” (2001) foi arrematada em um leilão em Nova York pela bagatela de R$1.049 milhões de dólares, valor até então nunca alcançado por nenhum outro artista brasileiro vivo.

A artista tem fila de espera por uma de suas obras, mas ela não muda sua maneira de criar e continua a produzir no máximo sete telas por ano. Segundo Beatriz, “Sem a cor a imagem não acontece. Quando a sinfonia das cores não funciona, a sedução acaba.”

Fizemos uma seleção de alguns dos trabalhos dessa artista contemporânea que esta com tudo que é a cara do Brasil!

fonte -http://saoromaomoveis.wordpress.com

O que é Pop Art?

 
Se a arte tem como conceito imitar a vida, a pop arte cumpre esse papel com excelência.
A Pop Art foi um movimento inspirado na cultura de massa, ou seja, popular, essa vertente transformava temas do cotidiano em obras, refletindo de maneira criativa e ácida os traços e contornos da sociedade de consumo.
Surgiu no final dos anos 50, foi nos Estados Unidos e na Inglaterra que ela teve destaque. Suas raízes provém do dadaísmo de Duchamp (a utilização do non-sense ou falta de sentido que pode ter a linguagem, como na fala de um bebê) e tinham como objetivo fazer oposição ao expressionismo abstrato, que predominava desde o término da Segunda Guerra Mundial, trazendo a tona o conceito de arte figurativa.
Uma das principais características da pop arte era a crítica irônica que fazia a sociedade, por meio dos objetos de consumo. Temas da publicidade, quadrinhos, ilustrações entre outros, eram constantemente utilizados como inspiração para compor sua trajetória no mundo das artes.
Marilyn Monroe, de Andy Wharhol
Impossível falar de pop arte sem citar Andy Wharhol, com uma visão irônica e ácida do mundo, ele costumava fazer serigrafias e retratos seriados sobre telas de mitos como Marilyn Monroe, Pelé, Elizabeth Taylor, Jacqueline Kennedy e Elvis Presley. O que possibilitou que ele mostrasse sua concepção da produção mecânica da imagem em substituição ao trabalho manual.
Além de Andy Wharhol, outros artistas como Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein, Andy, Cleas Oldenburg, Georges Segal, também ajudaram a construir a história da Pop Arte.
O Brasileiro Romero Britto é considerado um ícone da cultura pop, tem criado obras-primas que invocam o espírito de esperança e transmitem uma sensação de aconchego, colecionadores e admiradores a chamam de “arte da cura”.
Sua arte contém cores vibrantes e composições ousadas, criando graciosos temas com elementos compostos do cubismo. Britto tem suas pinturas e esculturas presentes nos cinco continentes e em mais de 100 galerias no mundo.
A Pop arte continua atual e é um recurso muito utilizado em publicidade.

 

 

A campanha “Yes, we can!” de Barack Obama para a corrida presidencial nos EUA, teve a utilização de recursos do “pop art” e representou uma inovação na comunicação visual de campanhas políticas, evidenciou o aspecto jovial de Obama em contraposição ao septagenário John McCain. A campanha de Obama causou forte impacto no mundo inteiro, levou prêmios e obteve a resposta esperada: vitória nas urnas.
Lady Gaga

 

Fonte-http://www.designergh.com.br

Os Impressionistas

O Impressionismo é talvez o movimento artístico mais fascinante e amado, da história da arte no mundo inteiro. A denominação nasce quase por acaso, por conta de um crítico que detestou o quadro de Monet, Impressão, nascer do Sol  (1872). A frase de Louis Leroy foi “Impressão, Nascer do Sol – eu bem o sabia! Pensava eu, se estou impressionado é porque lá há uma impressão. E que liberdade, que suavidade de pincel! Um papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha“. Assim, de uma expressão pejorativa, nascia o nome do movimento que celebrizou tantos pintores. O conceito do grupo de jovens artistas era fugir do Realismo, dos quadros que retratavam fielmente a realidade. A luz e o movimento eram a força motriz nessa nova pintura, plena de pinceladas soltas, pintadas ao ar livre, captando a luz, o momento. De perto parecem borrões e é ao se distanciar que se tem a verdadeira dimensão da beleza da pintura.

Édouard Manet ( Paris, 23/01/1932 – Paris,  30/4/1883), filho de um alto funcionário do governo e neto de um diplomata, junto com seus irmãos Eugène e Gustave, teve acesso à arte com o tio, o Capitão Édouard Fournier, que  os levava ao Louvre para admirar as grandes obras. Na escola Manet demonstrou logo que não conseguiria atender às expectativas do pai, que queria que ele fosse advogado. Suas notas eram tão ruins que ele não conseguiu sequer passar no exame para a escola Naval. Acabou sendo admitido como marinheiro para trabalhar num navio que viria ao Brasil, onde ele admirou muito a luminosidade da Baia de Guanabara.

Apesar de não se considerar propriamente um impressionista, Edouard Manet foi, de certa forma, o precurssor do Impressionismo quando escandalizou Paris ao pintar Olympia. Sua pintura quebrou os laços com a antiga forma de pintar e essa era uma das características do Impressionismo.

Manet serviu de grande inspiração para os impressionistas  Claude Monet, Edgar Degas, Auguste Renoir, Camille Pissarro, e os ajudou muito, em especial ao seu quase homônimo, Monet. Emprestou dinheiro a ele várias vezes e os apoiou em exposições. Foram precisos quase trinta anos para acostumar o olhar do público à nova arte e para que o Impressionismo conquistasse o gosto popular e dos críticos.

Oscar-Claude Monet (Paris 14/11/1840 – Giverny, 5/12/1926) é o mais famoso dos pintores impressionistas e aquele com mais seguidores. Em Giverny, onde sua casa virou um museu lindo, ao lado existe o museu dos Impressionistas americanos, jovens que inspirados pelo mestre, mudaram para Giverny para ficar próximo de Monet. 

Monet pintou durante toda a sua vida, sempre respeitando os ideais propostos pelo Impressionismo. A Ponte Japonesa e as Nympheas foram seus temas mais frequentes. Ele pintou durante trinta anos essa ponte e no fim da vida, já com a visão muito afetada pela catarata, colava massa com diferentes formas em suas latas de tinta para saber quais eram as cores e continuar a pintar.

Pierre-Auguste Renoir (Limoges, 25/02/1841 – Cagnes-sur-Mer, 3/12/1919), é um dos maiores pintores franceses e um expoente do Impressoinismo. Muito jovem, para ajudar a família, ele começou a trabalhar numa fábrica de porcelana. Tinha um traço perfeito e tão rápido que propôs ao patrão que pagasse pela quantidade de peças e não por hora. Com isso ele começou a estudar Belas Artes. Sua pintura sempre foi plena de sensualidade, alegria, beleza. Ele dizia que o mundo já tinha muitas tristezas e que o pintor devia trazer a beleza, não retratar a feiura.

O Brasil possui um de seus lindos retratos, o quadro Rosa e AzulAs Meninas Cahen d’Anvers), pintado em 1881, que pertence ao Masp desde 1952.

Edgar H. Germain Degas (Paris, 19/07/1834 – id. 27/09/1917) é sempre lembrado por suas lindas bailarinas. Ele idolatrava o pintor Dominique Ingrès e admirava muito a pintura italiana, que sempre o influenciou de tal maneira que ele nunca foi um “perfeito” impressionista. Degas não pintava a luz, mas, representava a beleza dos movimentos da dança. Era grande amigo de Manet, a quem teria dito: “Você precisa de uma vida natural e eu de uma artificial”. Com um pai banqueiro, ele teve uma vida privilegiada (até a morte deste), mas, ao final de sua vida foi atormentado pela cegueira, que o fez voltar-se para a escultura. O Masp possui uma bela coleção de algumas de suas esculturas.

Berthe Morisot (Bouges, Cher, 14/01/1841 – Paris, 2/03/1895), foi a única pintora impressionista  que alcançou sucesso. Posou para Manet algumas vezes, sendo esse o retrato mais famoso.

Embora se pudesse supor que fossem apaixonados, ele era casado e ela só posava acompanhada de familiares. Finalmente Berthe se casou com o irmão de Manet, Eugène. Participou da primeira exposição dos Impressionistas em 1874 e suas obras foram expostas em diversos países, com destaque para New York ( 1886). Seus traços eram inspirados nos de Manet mas, mais leves e puros.

Paul Cézanne (Aix-em-Provence, 19/01/1839 – id. 22/10/1906), já não pode ser considerado um impressionista. Ele marca a separação entre o Impressionismo e o Cubismo. É a ponte entre os dois séculos, o  XIX e o XX.  Diz a lenda que Matisse e Picasso consideravam Cézanne “o pai de todos nós”. Segundo Cézanne ele via a natureza em suas formas elementares.

Cézanne era quase um ermitão, permanencendo em sua cidade natal praticamente toda sua vida e pintando quase obsessivamente a montanha de sua cidade: A Sainte-Victoire.

Auvers-sur-Oise – A cidade possui um museu muito especial, voltado para o Impressoinismo e conta a história deste período, na Paris daqueles tempos. Ir até o Château des Impressionnistes é muito simples e leva só 30 minutos de Paris. É como passar um dia com os Impressionistas. Conheça os detalhes em

http://www.francetravelthemes.pro/pt/61/chateau-d-auvers-voyage-au-temps-des-impressionnistes/

Foi nesta cidade, próxima de Paris, que Van Gogh (Zundert, 30/03/1853 – Auvers-sur-Oise, 29/07/1890) viveu seus últimos dias. Ao caminhar pelas ruas, não sem emoção,  identificamos as paisagens de muitos de seus quadros.

O quarto onde ele viveu e morreu também pode ser visitado e sua simplicidade é tocante.  Aproveite para ir até o cemitério e ver o túmulo dele e de seu irmão Théo. Se for primavera e tiver sorte, poderá ver os girassóis que fazem sombra sobre Van Gogh.

O Museu D´Orsay em si já é uma obra de arte! Antiga estação de trem – Gare d´Orsay – que reformado e inaugurado em 1986, se transformou em um dos maiores museus de Paris. É o museu com a maior quantidade de obras Impressionistas.

Em São Paulo, 320 mil pessoas foram ver a exposição Impressionismo – Paris e a Modernidade que agora chega ao Rio de Janeiro no Centro Cultural do Banco do Brasil, certamente fará o mesmo sucesso. Os 81 quadros foram  cercados de cuidados que vão desde a aclimatização das obras, controle da umidade do ar durante a exposição, número de visitantes, entre outros.  A atmosfera e a decoração no Rio é moderna: cores vibrantes, violeta, azul-marinho, verde-musgo predominam. É a reprodução das cores atuais na sede do Musée D´Orsay. Assim, no Brasil, ficamos mais perto da França e dos Impressionistas. Muito mais perto.

Por Cecilia Cavalheiro

Isadora Duncan

Filha de uma pianista e de um poeta americano, Isadora Ducan é considerada a pioneira da dança moderna. Num momento, em que predominavam a técnica e a rigidez do balé clássico, sua dança foi inspirada pelas figuras das dançarinas nos vasos gregos tornando-se um ícone da dança contemporânea.

Sua proposta de dança era algo completamente diferente do usual à época. Ela trazia movimentos improvisados, inspirados, também, nos movimentos da natureza: vento, plantas, entre outros. Os cabelos meio soltos e os pés descalços também faziam parte da personalidade profissional da dançarina. Sua vestimenta era leve. O cenário simples era composto apenas por uma cortina azul. A dureza e rigidez deram lugar à simplicidade.

Outra mudança importante trazida pela dança de Isadora Duncan é que, por influência dela, se começou a utilizar músicas até então tidas apenas como para apreciação auditiva. Ao som de Chopin e Wagner, a expressividade pessoal e improvisação estavam sempre presentes, encantando o novo mundo que estava nascendo.

No tocante à sua própria história, registros apontam que Isadora tinha personalidade forte e não se curvava às tradições. Não era afeita ao casamento, tendo casado três vezes e só o fazendo porque tinha a possibilidade de separar-se, caso quisesse. Em Londres, no Século 19, Isadora consolidou fama.

Em 1913, um incidente tira a vida de seus dois filhos, Deirdre e Patrik, e de sua governanta, que tragicamente morrem afogados no rio Sena. Devido ao fato, Isadora passa alguns anos sem se apresentar. No ano de 1916 ela vem ao Brasil e se apresenta no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aos 38 anos de idade. Passa seus últimos anos na França, depois do suicídio de seu terceiro marido.

Em 1927 escreve uma auto-biografia intitulada My Life e morre no mesmo ano, em um acidente de carro conversível, quando a sua echarpe ficou presa a uma das rodas, enforcando-a.

A vida trágica foi uma moldura para que a dança da época desse lugar ao que hoje conhecemos como dança contemporânea.

Texto de: Camila Ribas

CONFIRA ABAIXO ALGUMAS FOTOS DA DANÇARINA

A dança de Isadora Duncan e Martha Graham – Parte 1: Isadora Duncan

Pequeno documentário sobre a vida e a dança de Isadora Duncan e Martha Graham. Imagens retiradas da internet, cenas do filme “Isadora Duncan, the Biggest Dancer in the World” produzido pela BBC TV em 1966 e vídeos das companhia de dança de Isadora Duncan e Martha Graham.
Trilha Sonora: Tori Amos.
Produção, edição e narração: Alan Villela.
Trabalho feito ao cumprimento da disciplina “Expressão Corporal III” do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto pelo aluno Alan Villela.

As cores de Almodóvar

Pedro Almodóvar, nd -by Ruven Afanador
No caos dos amores e dos relacionamentos, o absurdo transparece e se transfigura em situações plausíveis. Entre cores berrantes, figurinos extravagantes, personagens caricatos, situações delirantes e exageradas, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar exercitou a arte de tornar verossímil o estranhamento do ser humano com as suas próprias contradições. E o universo cinematográfico de Almodóvar flutua no diálogo entre o racional e o instinto do homem.

Esta dicotomia tênue da condição humana explode na tela no formato de uma multiplicidade de idéias e sensações. É deixar se envolver com o plural das vivências, com o acaso das escolhas. E também é, de certa forma, descobrir que todos nós temos o nosso lado brega. O kitsch tornou-se marca registrada da filmografia deste cineasta, que nasceu na década de 50, na Calzada de Calatrava, província de La Mancha, a pátria amada de Dom Quixote.

Educado na infância em colégio interno de padres, Almodóvar parte para Madri, onde começa a trabalhar em uma companhia telefônica. Nos tempos livres, ele freqüentava grupos de teatro, galerias de arte e viajava sempre que possível para Barcelona, point das vanguardas na época. Em 73, Almodóvar realiza seus primeiros curta-metragens em preto-e-branco, no formato Super 8. Na década de 80, o cineasta engaja-se na ”movida madrile¤a”, período de efervescência cultural motivada pela redemocratização da Espanha após o fim da ditadura de Franco (1892 – 1975). É nesse período que vem o seu primeiro longa-metragem: Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón.

Para sobreviver em Madri, Almodóvar participou de uma banda de rock, atuou como drag-queen numa boate e publicou histórias em quadrinhos. Colaborou com artigos para revistas e jornais alternativos sob o pseudônimo de Patty Diphusa. Tenta enveredar pela literatura com o romance pornô-humorístico Fogo nas Entranhas, de 1981. Mas as habilidades de Almodóvar seriam tragadas pelo cinema, quando passa a fazer um filme por ano. Labirinto de Paixões, Maus Hábitos e O que fiz para merecer isto? são os longas iniciais e os menos conhecidos do público em geral. Com Matador, Almodóvar lança a carreira de Antonio Banderas, que também atuou em A Lei do Desejo e Ata-Me!.

O reconhecimento internacional veio com a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988 por Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. É com esta produção que Almodóvar lança as bases para uma série de filmes tragicômicos e melodramáticos. Nada parecido com qualquer chatice novelesca. Para trabalhar as emoções na passagem do amor ao ódio sem meio-termos, o cineasta centra o foco no universo feminino. ”Os homens também choram, mas penso que as mulheres choram melhor. Elas não conhecem nem o pudor nem o sentido do ridículo, nem essa coisa horrível que chamam de amor próprio”, afirmou para a imprensa espanhola em 2002.

No ritmo melódico do bolero, as heroínas dos filmes de Almodóvar vivem constantemente situações de traição, solidão, sofrimento e desespero. O espectador se identifica facilmente com as adoráveis mulheres almodovianas, como a protagonista-título de Kika, a Marina de Ata-Me!, a Elena de Carne Trêmula, a Manuela, a Nina e a Hermana, de Tudo Sobre Minha Mãe, a Lydia e a Alicia, de Fale Com Ela. O turbilhão de sentimentos encontra espaço nos cenários, onde o uso de cores vivas fragiliza a fronteira entre o cinema e a pintura. Vermelho, azul, laranja, rosa e verde fundem-se na desordem de manifestações geométricas, inspiradas nos quadros de Mondrian e Gatti.

Nos três últimos filmes (Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e o recente A Má Educação), Almodóvar atinge a maturidade ao amenizar o emaranhado de elementos provocantes para valorizar o lirismo e a poesia das contingências da vida humana. E nesse intervalo efêmero, a tentativa de compartilhar sonhos, anseios e desejos com o outro. Personagens que compreendam e sejam compreendidos, ainda que imersos no colorido das paixões.

Obs: Matéria publicada no Jornal O Povo em 12/11/2004