Arquivo | janeiro 2016

Sobre a Perversidade by Marla de Queiroz

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O perigo da perversidade é que ela é muito sútil. Um ser perverso jamais te atacará diretamente. Ele vai saborear cada silêncio calculado para despertar sua agonia. Ele vai tentar tolher seus lugares íntimos até que não reste qualquer espaço para manobras. Ele vai te seduzir da maneira mais irresistível e depois te tratar com um descaso inexplicável, como se algo de errado tivesse acontecido, mas sem te dar quaisquer indícios do que possa ter acontecido.

Ele será carismático com os outros, prestativo, mas demonstrará impaciência em responder à sua mais simples pergunta. Ele vai oscilar entre o tesão e a indiferença. Você se sentirá desejada quando o sufoco tiver tomado toda a sua alma e, totalmente desamparada quando o desejo demonstrado parecer esvaído nos primeiros suspiros da manhã. E o dia seguinte se tornará um longo e agonizante ano.

Ele parecerá espirituoso, depois irônico, mas estará sendo absurdamente crítico e sarcástico. E te deixará tão confusa que você, por momentos, não saberá identificar a crueldade que há neste tipo de comportamento. Os perversos são viciados em jogos de poder e controle. Não sabem o porquê. Simplesmente precisam tentar te destituir da sua autoconfiança e autoestima até que você se torne refém, dependente, à beira do desespero.

É muito difícil identificar um ser perverso e, depois se livrar dele. Ele te tratará com uma bipolaridade emocional absoluta. E quando tudo parecer perdido, quando você tiver decidido de maneira explícita sua escolha por um afastamento ou desligamento da relação, ele te rondará da maneira mais amorosa possível tentando te convencer que a falta de sintonia anterior era um problema seu. O perigo da perversidade é porque ela é muito sutil.

E o único antídoto para se curar de uma relação doentia como esta é reunir toda a coragem que você jamais imaginou ter e partir com toda a convicção de que você não precisa continuar neste campo minado. Você pode escolher um lugar de paz. Você pode não ser presa de um predador voraz. Você não precisa se vestir de sangue para alimentar estes vampiros. Esteja atenta. O perverso sempre parecerá um ser inofensivo e carismático. Com os outros. Apenas com os outros. E isto te deixará com uma imensa vontade de conquistar aquilo que ele fará questão de demonstrar que não está disponível para você. 

Quando a saudade localiza o sujeito na gente by Marla de Queiroz


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Onde a saudade localiza o sujeito na gente? No coração, na mente, no corpo ou nesse conjunto todo que pulsa revirando o baú de adeuses que, talvez, quem sabe, quisessem dizer outra coisa? Pois insiste em nós essa impregnação na lembrança, mas o sentimento ocupa muito mais que a memória.

Onde a saudade localiza o sujeito na gente se os olhares já nem se veem mais e as peles só exalam o perfume da distância? Se o tempo correu enchendo de poeira luas e mais luas deixando sonolentas e opacas as estrelas que brilhavam nas madrugadas incandescentes? Onde fica guardado o sujeito na gente?

Onde a saudade localiza na gente o sujeito inerte, mas animado, não sendo coisa ou algo, mas um ser vivinho, vivente? E um suspiro intenso estendido por dentro, o segredo que o olhar na busca incessante não ocultou? Se as fotos foram apagadas e os bilhetes queimados na fogueira dos livramentos, se até o cartão postal mudou para fechar um ciclo e inaugurar outro momento, onde se escondia esse sujeito? No peito? Na pele? Porque de tudo dele ainda, mesmo que em sonho, reacende a lembrança do beijo, abraço e do jeito. Onde a saudade localizou esse sujeito?

Se a febre que pensávamos medicada arde incessante, embora esporádica, e a noite mal dormida espreita o pesadelo: do riso, do choro, do cheiro, para qual direção foram os ventos que não o levaram por inteiro? Por que a saudade incute na gente esse desmantelo?

Onde a saudade localizou na gente este ser que parecia morto e ressuscitou tão certeiro?

 Marla de Queiroz

A carta que nunca te escrevi

Se um dia eu pudesse te escrever uma carta, eu antes de agradecê-lo, pediria desculpas. Desculpas por ter esperado de você o que não estava pronto para dar. E eu o insultei assim. Pediria desculpas por, não te aceitando totalmente quando queria mais de ti, quase invalidei o que me foi dado tão sinceramente e o que me foi ensinado de um jeito totalmente exclusivo. Um jeito que eu não entendo bem até hoje, mas que é exatamente o que você sempre quis: Que eu não te entendesse.

Pediria desculpas também (já as retirando) por não ser tão intensa. Por ser tão complexamente simples: Porque eu tinha Amor pra dar e simplesmente dava. Pediria desculpas pela minha loucura não ter respeitado a sua sanidade, ou vice-versa. E por termos nos magoado com telefonemas que não foram dados. Pediria desculpas por, talvez, não ter aprendido o que você realmente tentou me ensinar. Afirmo acreditar que um dos nossos encontros/desencontros tenha se formado porque não me sinto “tocada pelos sentimentos”, eu “toco” neles. Vivo visceralmente as minhas relações, quaisquer que sejam. Atraio pessoas que gostam disso, e as que não gostam têm o direito à escolha.

Bem, se eu te escrevesse uma carta seria mais ou menos assim:

Tenho escrito a você mentalmente todos os dias. Hoje me ocorreu enviar algo. É que gostaria que soubesse que tenho tentado ter apenas as lembranças boas da nossa história. Sei que dentro das suas limitações você abraçou um lado meu que achava bonito, mas rejeitou um outro também repleto de belezas. Não há julgamento no que te escrevo, mas uma forma de olhar como quem se olha no espelho.

Que você, se ainda não sabe, se permita e descubra quão delicioso é amar e ser amado. Eu descobri e descubro a cada dia com manifestações diárias de amigos e pessoas diversas que não têm medo de viver o que é pra ser vivido. Dê-se ao luxo de ser VERDADEIRAMENTE profundo. Com ou sem o manto da espiritualidade. Eu realmente torço para que experimente o Amor na vida. Desses que fazem a gente pensar que “dessa vez é definitivo”. Que experimente também a banalidade e o pieguismo deliciosos que vêm junto com essa sensação e que nos dá um brilho diferente nos olhos: Aquele que você viu nos meus.

O quanto se poderia dizer que teríamos para viver além do que tivemos? Eu te perdoei e fui embora e você questionou minha atitude. Mas entenda, eu precisava ir para perdoar também a mim. Eu não podia mais esperar que algo bom acontecesse depois de uma sucessão de breus. E por te perdoar, não te levei comigo, entende? Não houve uma desistência, mas a escolha de um caminho outro: neste que, agora eu sei, seus passos não admitiriam trilhar. Por isso a desocupação do teu abraço: deixei ali o meu perdão e segui para a ocupação dos meus espaços. Decidi o que quero e preciso vibrar nesta energia para atrair a história INTEIRA e INTENSA com POESIA e PRESENÇA.

Eu te peço perdão. Porque eu simplesmente perdoo você. Por favor, me perdoe também. Você nunca teve culpa. Eu também nunca tive culpa. A vida nos ensina através das discórdias, e eu aprendi a te amar e a deixá-lo ir de minha mente. Você precisa viver suas próprias lições e eu também. Por isso eu perdoo você. Agora vá ser feliz, para que eu seja também. E que o Universo te proteja e perdoe os nossos mundos. Hoje afirmo que as mágoas desapareceram, e só há Luz e Paz em minha vida. Por favor, se cuide. Quero você alegre, sorrindo, onde quer que você esteja. É tão bom soltar, parar de resistir e deixar fluir novos sentimentos! Eu perdoei você do fundo da minha alma, porque sei que você nunca fez nada por mal e sim porque acreditou que era a melhor maneira de ser feliz. Agora entendo que só podemos ser felizes quando soltamos as vidas, para que sigam seus próprios sonhos e seus próprios erros. Não quero mais controlar nada, nem ninguém. Por isso, peço que me perdoe e me solte também, para que seu coração se encha de Amor, assim como o meu.

Eu diria na carta essas coisas que um coração “convencionalíssimo” não mais magoado, diz. Talvez com mais aspereza, dessas que não cabem no Amor.

Hoje quando acordei você foi a primeira pessoa que me veio em pensamento. E eu não quero saber se a nossa relação minguou ou se qualquer coisa nos distancia. Eu só quero saber se você está feliz, se a vida tem sido justa contigo e se as suas escolhas têm sido assertivas. Quero saber se o seu coração está arejado, se você precisa de algo, se se sente só ou amparado, se o dia nasceu bonito em seu peito. E, independente do que esteja acontecendo por aí, dentro mesmo do seu ser, eu quero te desejar uma alegria tão sincera, uma surpresa tão boa hoje, e que ela se perpetue para os próximos dias de toda a sua existência!

Me perdoe por ter nutrido ódio e mágoa por tanto tempo em meu coração. Eu não sabia como era bom perdoar e soltar; eu não sabia como era bom deixar ir o que nunca me pertenceu. Ficarei bem, fique bem. Teremos sorte. Ainda nos encontraremos “por acaso”(!) para falar de amor, sobre amizade, sobre ser feliz… E é com um nozinho na garganta, mas com a voz mansa e o coração sossegado que eu me despeço:

Até quem sabe…


Autora: Caroline Zanon

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