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EFEITO COLATERAL DA MULHER ROMÂNTICA – Fabrício Carpinejar

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A mulher romântica tem um efeito colateral: não perdoa. Não perdoa mesmo.
Ela não esquecerá qualquer mancada que você tenha feito. Pode recorrer ao exorcismo, afogar Santo Antônio, investir o salário em macumba.
Nada apagará a ofensa de sua memória. Nada amansará sua dor.
O tempo não desgastará a mágoa, é tudo como se fosse ontem. Ou melhor, hoje de manhã.
Não existe atenuante, não existe a tecla Delete, não existe nem condenação a serviços comunitários.
A idealização, quando machucada, traz a intransigência. Não encontrará mais rascunhos na idealização.
A partilha, antes bênção dos elogios, será calvário das acusações.
Para a mulher romântica, a memória tem uma única vida, como o vestido de noiva. Não há maneira de reaproveitá-la.
Uma falsidade, ainda que eventual, tornará o resto inteiro falso, criando a suspeita do engano permanente.
Ela se lembrará da tristeza pela relação inteira. Sempre voltará ao assunto, sempre trará o ressentimento à baila.
A mácula se transformará num quartinho proibido e assombrado da convivência, a mancha fechará a porta da espontaneidade.
Você pensa que, por ser romântica, ela é tapada. Você pensa que, por ser romântica, ela é dependente e frágil. Você pensa que, por ser romântica, ela aceitará qualquer coisa. Você pensa que, por ser romântica, ela terá compaixão. Enganou-se redondamente.
Você confundiu romantismo com amor incondicional, este é o seu engano.
Toda mulher romântica, por mais que se esforce, jamais perdoa qualquer deslealdade ou infidelidade.
O homem pode se retratar diante da família e dos amigos, arrepender-se publicamente, rastejar no chão da cozinha, subir escadarias de joelhos, prometer ser perfeito dali por diante: não adianta.
Mulher romântica apenas é boa quando você não pisa na bola. Depois da falha, ela será um inferno.
Como ela é devota, sensível e dedicada, qualquer sofrimento pesa duas vezes mais. A ferida dói o dobro.
A mulher romântica não tolera mentira.
Desde o início da relação, só faz uma exigência: a sinceridade.
Quando quebrada a sinceridade, ela não acreditará mais.
O conto de fadas não tem como ser refeito. O encantamento some, e o poder das juras desaparece. É agora falar para o vento e viver casado com a tempestade.
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Carpinejar…

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Odeio atenuantes, desculpas, restrições. Odeio quem marca e desmarca. Odeio quem maltrata a esperança do outro, quem não cuida da expectativa que mesmo criou. Odeio quem afirma que não tem saída, que surgiu algo importante, que está de mãos amarradas. Sempre há o que fazer. Sempre podemos escolher.
Odeio quem diz que vai e depois retira a palavra. Quem sempre inventa um senão de última hora. Quem não banca seu desejo. Quem finge intensidade para soar romântico. Adiar não é esperança. Um sim pela metade é não. Respeito aquele que sofre de medo, jamais respeito aquele que aceita ser menor do que o medo. Respeito aquele que sofre de dúvida, jamais respeito aquele que coleciona incertezas. Na paixão, ou é ou não é. Não se negocia com a loucura.

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MENDIGO DO AMOR – Fabricio Carpinejar

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Até que ponto é possível amar sem ser amado?
Quando amamos platonicamente, o amor pode durar muito tempo. Pois não tem ninguém para estragar nossa idealização. Não há convivência para nos desafiar. É uma paixão estanque, feita de sonho e névoa. É uma vontade desligada da realidade. Temos a expectativa intacta, longe de contratempos. Acordamos e dormimos com o mesmo sentimento, longe de interrupção em nossa fantasia.
Mas quando amamos dentro de um casamento e quem nos acompanha não retribui o amor? Quanto tempo dura? Quanto tempo você suporta a secura, o desaforo, a grosseria? Quantos meses, se cada dia é um ano?
Nem estou falando de falta de sexo, mas a falta de beijo, de abraço, da telepatia rumorosa, do colo, de perceber seus cabelos sendo penteados pelas mãos, de ver seu rosto encarado de forma única e brilhante. Nem estou falando da falta de aventura, mas do conforto protetor, da cumplicidade, do afago que é viver com a certeza de que é admirado. Nem estou falando da falta de viagens, mas do mínimo da rotina apaixonada, ser cuidado mesmo quando está distraído. Não estou falando de arroubos e arrebatamentos, mas da vontade boa de morder seus lábios levemente quando suspira e de esperar o final de semana como um feriado.
Quanto tempo dura o amor sem retorno, sem reconhecimento?
Talvez pouco, quase nada. Quem não se sente amado não é capaz de amar. Não é problema de carência, é questão de tortura.
Extravia-se a cintilação dos olhos. Ocorre um bloqueio, uma desesperança, uma resignação violenta. É como dançar valsa sozinho, é como dançar tango sozinho. É abraçar pateticamente o invisível e não ter o outro corpo para garantir seu equilíbrio.
Você se verá um mendigo em sua própria casa, diminuído, triste, desvalorizado, esmolando ternura e atenção. Aquilo que antes parecia natural – a doação, a entrega, a alegria de falar e de se descobrir – será raro e inacessível. Todo o corredor torna-se pedágio da hostilidade. Passará a evitar os cômodos para não brigar, passará a evitar certos horários para se encontrar com sua esposa ou marido, passará a prolongar os períodos na rua, passará apenas a passar. Combaterá as discussões e gritarias anulando sua personalidade. Despovoará a sua herança, assumirá o condomínio do deslugar. Comerá de pé para evitar o silêncio insuportável entre os dois.
Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?
Por ausência de gentileza, perdemos romances. O que todos desejam é alguém que diga: não vou desperdiçar a chance de lhe amar. Alguém que não canse das promessas, que não sucumba ao egoísmo do pensamento, que tenha mais necessidade do que razão.
A gentileza é tão fácil. É fazer uma comida de surpresa, é convidar a um cinema de imprevisto, é pedir uma conversa séria para apenas se declarar, é comprar uma lembrancinha, é chamar para um banho junto, é oferecer massagem nos pés, é perguntar se está bem e se precisa de alguma coisa, é tentar diminuir a preocupação do outro com frases de incentivo.
Quando o amor para de um dos lados, o relógio intelectual morre. Não se vive desprovido de gentileza. A gentileza é o amor em movimento.

O AUGE DO DESESPERO FEMININO – Fabricio Carpinejar

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Eu sei quando uma mulher está desesperada. Bem desesperada. Altamente desesperada. Quando ela está prestes a se separar, ou romper os laços com o trabalho, quando não aguenta sua rotina, quando expulsa os demônios, quando não responderá mais nada educadamente, quando não pretende conversar, quando atravessou a arrebentação e agora irá gritar e não fique por perto e não busque acalmá-la, que ela passou realmente dos limites e não adianta fazer o que ela pediu ou falar o que ela desejava ouvir, pois é tarde.
Quando ela tomar esta atitude, deu, foi, o vulcão rugiu e cobrirá o dia de tremores.
A mulher está desesperada na hora em que derruba o conteúdo de sua bolsa sobre a mesa, na hora em que despeja sua bolsa, na hora em que vira de cabeça para baixo sua bolsa, na hora em que derruba tudo desprovida de compaixão, desligada do cuidado se alguma coisa quebrará no choque com a realidade.
A bolsa é seu controle, sua memória, sua casa portátil.
O gesto tem uma dramaticidade de ópera, um sentido de ária. Significa o fim dos bons modos, sinaliza a rendição ao caos, nada será como antes.
Na sua mentalidade, expor os segredos da bolsa é desistir da razão ou da forma como enfrentava as adversidades até aquele momento.
A bolsa é a derradeira fronteira da aparência, os limites entre a cidade e o inferno.
Se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a eficiência do tato, se ela deixou de procurar o que queria encontrar com a luz do celular, se ela não achou o que queria nem com os olhos das mãos muito menos com os olhos dos olhos, é que o negócio é sério, ela explodiu, perdeu a paciência, dobrou a esquina do desaforo.
A bolsa é seu equilíbrio, guarda o que precisa lá, conserva o que gosta lá, conhece exatamente seus zíperes, seus bolsos, seus esconderijos.
A bolsa é sua alma, seu chacra, seu yinyang, seu espírito.
Quando tem consciência da localização das coisas na bolsa, está tranquila, está centrada, está focada, está confiante.
Jogar fora o que vai dentro expõe que a situação não tem conserto, é uma medida extrema de mudança de personalidade.
Ao despejar a bolsa, ela verá o que foi sua vida no último mês. O que ela tentou esconder de si mesma. E iniciará uma faxina sem precedentes.
Todo cuidado é pouco, você pode desaparecer junto.

A ÚLTIMA BOLACHA RECHEADA DO PACOTE – Fabricio Carpinejar

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A vingança é um efeito colateral da vaidade. É um sinal da arrogância que existia desde o começo da relação.

Ninguém se torna vingativo, as pessoas já são vingativas e demonstram a predisposição de destruir logo no primeiro encontro.
A vingança não é uma novidade do fim, mas uma notícia velha do início.
Não venha dizer que só conheceremos com quem a gente se casou quando nos separamos. A gente conhece de quem a gente vai se separar quando casamos.
Quem se acha demais acaba se vingando. Porque pensa que, ao namorar, realiza um favor. Porque pensa que, ao namorar, concede o bilhete premiado de sua companhia. Porque pensa que, ao namorar, está garantindo a simpatia de sua conversa, a gentileza de sua personalidade, a dádiva de sua alegria, o luxo de seu humor, atributos raros e impossíveis de se jogar fora.
Quem se acha demais não namora, na verdade dá uma chance.
O tipo narcisista se coloca na posição de provedor da verdade. É afetado, unilateral e autoritário – tornou-se assim pela beleza, pelo dinheiro ou pela projeção social.
A questão é que se enxerga perfeito e intocável e confunde sua presença amorosa com filantropia.
O narcisista não admitirá qualquer crítica, e a separação é a maior delas, discordância evidente de seu modo de vida.
Jamais aceitará que errou, jamais pedirá desculpa, jamais arcará com a responsabilidade de seus atos, jamais carregará culpa pelo distanciamento. Não tem humildade da autocrítica para acolher suas falhas, muito menos sente o remorso que vem da saudade. Não tem aquela pontada natural após uma ruptura, aquela tristeza baldia e consciência aguda de que foi desatento e que poderia ter sido diferente.
Não atravessa o luto, parte direto para a represália. Uma vez rejeitado, fará de tudo para mostrar que a pessoa nada é sem ele. Diante de uma ruptura, pode deflagrar perseguição, boicote e uma série de constrangimentos sociais. Procura humilhar quem antes adorava, procura rebaixar quem antes endeusava. Troca de lado: odeia com todo o ânimo quem amava.
Sua generosidade é investimento ou um modo de manter o controle da situação. O que oferece ao longo da convivência cobrará no final.
É tão centralizador que usa a dor para aumentar seu poder e castigará qualquer um que renunciou o prazer de seu reflexo.
O narcisista é vingativo por perceber o amor como uma monarquia. Sem ele, o outro não é nada, não tem história, não tem passado, não tem futuro. Distanciado de seu domínio, perde o direito à coroa e converte-se, de novo, em reles súdito.
A vingança é vaidade, mas não tema, não se acovarde.

A última bolacha recheada do pacote ficará para as formigas.

SEXO É BOM E EU GOSTO – Fabricio Carpinejar

 
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Sexo é treino. Não é como andar de bicicleta, que nunca desaprendemos. Não é como dirigir, que decoramos naturalmente.
Sexo é intimidade. Depende mais da transpiração do que da inspiração.
Quatro semanas sem sexo e será incomodado pela estranheza: a lentidão do gesto, a carência de aptidão, a aspereza decorrente dos maiores intervalos da fala.
O distanciamento pesa na pele. É como tirar de repente a música ambiente, e mergulhar no silêncio ensurdecedor da criação do mundo.
Haverá um toque cômico, patético, que virá da ausência de ritmo. Prenderá o cabelo dela com o cotovelo, esticará a perna além do necessário e confundirá com sessão de alongamento, baterá a cabeça na cabeceira da cama.
Sexo é sequência. É se afastar e terá que superar o desconforto, refinar o tato, reinventar o ritmo. Terá que quebrar o gelo.
Para remediar a distância, abusará do aquecimento, da insistência obsessiva, da alternância obrigatória das palavras ora ternas, ora safadas.
Tanto o homem como a mulher percebe o estremecimento; tira-se a roupa meio no seco, meio temerário, quase à meia-luz.
Não dá para puxar a cintura com ímpeto, entrar com vontade debaixo da camisa e da calça. Sacrifica-se a continuidade, a avidez lúbrica.
O sexo já pede explicações, já envolve desculpas.
Até para começar a transa é difícil, com interrogatórios desnecessários, educação exagerada, pudor de estreia.
Quando o par está há muito tempo sem sexo surge o questionamento se o outro quer transar. A pergunta é a prova do esfriamento da relação.
Os beijos pela casa tornam-se também raros, assim como aquele avanço bobo da língua na nuca e nas orelhas.
Ninguém se pegará na cozinha, na sala, fora de hora. O encontro fica restrito ao colchão e, de preferência, à noite.
Menos sexo equivale a menos romantismo. Estão diretamente ligados. Quem transa com frequência acaba mais receptivo e sensível, mais aberto e comunicativo, mais generoso e atento.
O sexo é o romance em ação. É dependência química. É vício dos laços.
Quanto mais transar, mais vontade de transar. Quanto menos transar, menos vontade de transar.
Não confio na máxima “Sexo é algo que não esquecemos”. Muita gente esquece de como se faz.
Casais que permanecem um mês de jejum enfrentarão a formalidade, a solenidade do início, a avareza do fôlego (interessados em guardar energia para o trabalho no decorrer da semana).
Sexo é mecânica amorosa. Demorar demais é encarar uma nova virgindade.
E a primeira transa – lembre! – nem sempre é boa.

Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
30/4/2014

FICO FELIZ QUE VOCÊ NÃO ME RESPONDE – Fabrício Carpinejar

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Fico feliz que você não atende aos meus telefonemas. Fico feliz que você deixa minhas mensagens no vácuo, que você espia, não responde e apaga. Fico feliz com sua disposição em me destruir e não colar os nossos pedaços. Fico feliz com sua raiva contida, seus protestos secretos, suas exigências sempre misteriosas, sua atitude intransigente. Fico feliz com seu extremismo, seu isolamento, seu vestido preto e justo. Seu luto é lindo.

Fico feliz que você me evita, que você nem fala mais de mim, que cansou de sofrer. Fico feliz que você pode não me escolher, pode me rejeitar. Não suporto mesmo mendicância.

Fico feliz que você muda os trajetos para não esbarrar comigo. Fico feliz que você não escuta nossas músicas, arquivou nosso idioma, jogou fora nossos presentes, fotos e bilhetes. Fico feliz com a astúcia de sua ausência. Fico feliz que sou como uma encarnação antiga, que não estou em seu corpo. Fico feliz que não desperto nem saudade fria, nem saudade quente. Fico feliz que você não olha minhas páginas no Facebook, no instagram, que desapareceu a curiosidade da dor.

Fico feliz que você já passou de ser vítima do desespero para ser dona do seu desespero e manda e desmanda nas palavras e no silêncio. Fico feliz que você já voltou a sair, a beber, a contar piadas, a conversar com os amigos. Fico feliz que você pode me ocultar no jardim de sua memória, sem cruz e sinal de pedras. Fico feliz que você pode fingir que nada aconteceu, fugir do que aconteceu. Fico feliz com sua resistência, sua força de vontade. Fico feliz que está resolvida e não acredita em mim. Fico feliz com sua estabilidade imediata, sua defesa articulada e coesa. Fico feliz com seu equilíbrio na tempestade, segurando o desaforo, o guarda-chuva e o rosto ao mesmo tempo. Fico feliz que abandonou as lágrimas, o nariz escorrendo, os ouvidos tremendo. Fico feliz que recolheu as roupas de sua tristeza.

Fico feliz que se tornou decidida a ponto de me evitar, a ponto de me recusar, a ponto de me esnobar. Fico feliz que você optou por seguir sua intuição, por concordar com suas premonições, por não se submeter a ser menor do que esperava no amor. Sem metades, sem mentiras, sem meias-promessas. Fico imensamente feliz que você me nega, que você me esnoba. Fico tão orgulhoso do que o nosso relacionamento nos ensinou.

Você está pronta para mim. Necessito de oposição. Necessito de alguém que me desafie. Necessito realmente de uma mulher forte ao meu lado.

Da série Ficções do amor