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Renovação diária – Clarissa Corrêa

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Nem sempre a realidade se apresenta na forma daquele lindo sonho. Mesmo sem querer, criamos expectativas para tudo na vida. Todo mundo espera pelo príncipe encantado, pelo trabalho dos sonhos, pela família de comercial de margarina light, pelo cabelo da modelo no comercial de shampoo, pelos milagres prometidos nas capas de revista. Mas o dia a dia pode ser duro, o mundo real pode se mostrar um pouco mais cruel que os sonhos adocicados. Frequentemente esquecemos que a perfeição só existe naquele filme que está em cartaz no cinema pertinho da sua casa. Não entendo essa nossa mania desumana de querer que tudo seja sempre especial, único e intenso. A rotina não tem nada de bonita. As pilhas e pilhas de relatórios em cima da sua mesa só acumulam. O cachorro continua fazendo xixi na perna do sofá. O telefone continua sem tocar. Você segue esperando alguma coisa boa cair do céu no seu colo macio e sedoso. 
 
Será que o erro não está aí dentro? Será que não é a hora certa de rever atitudes, pensamentos e conceitos? Será que não estamos querendo um mundo ideal e por vezes esquecemos que muitas coisas estão, sim, em nossas mãos e que outras tantas não dependem de nós? Será que esquecemos que, sendo seres imperfeitos, não podemos cobrar a perfeição dos outros? Será que não queremos frios na barriga diários, fogos de artifício e trilhas sonoras para momentos simples? Será que não estamos cegos?
 
Coisas boas acontecem todos os dias, é só abrir os olhos e o coração para a infinidade de pequenas alegrias. Não adianta buscar emoção, sonho e fantasia se você não sabe fazer um momento aparentemente simples virar especial. Tudo está dentro de nós e eu te garanto que isso não é papo para boi dormir. Não espere grandes acontecimentos, aprecie tudo que a vida oferece com um sorriso no rosto. Não espere uma cena de filme, faça e viva a sua vida da forma que puder e souber. Mas entenda que os melhores momentos acontecem quando estamos distraídos pensando que a vida do outro é bem mais interessante que a nossa.

SENTIR FALTA – Ana Coutinho

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Sentir falta, ao contrário do que dizem por aí, é diferente, muitíssimo diferente, de sentir saudades. Ah, sentir saudades… Sentir saudades é grandioso. Dor enorme que rasga por dentro dias seguidos, horas intermináveis, tempo infinito.

Sentir falta não. Sentir falta é pontual. Sentir falta é dor fina, dor de beliscão com unha, dor de anestesia de dentista. Sentir falta é mais específico. Sente-se falta do carinho antes de dormir, da implicância com o controle remoto, sente-se falta do jeito boboca que ele tinha de andar, se balançando todo. Sentir falta é mais egoísta, quase que material. Sentir falta do café dele, da bagunça dele, dos discos dele, do chinelo dele, sempre ali, jogado displicentemente na beira da cama. Sentir falta da camiseta velha dele que você podia usar… Ai, que falta faz essa camiseta… Sentir falta é pequeno, mas não menos doloroso.

Ou não dói uma unha encravada? Ou não dói um bife que a manicure tira? Ah, dói… e como. Talvez até mais que a dor da saudade.

A dor da saudade é grande. É infecção generalizada. É uma gripe daquelas, uma dengue hemorrágica, uma pneumonia. A saudade não te deixa respirar. Não te permite trabalhar, te faz faltar o ar. É dor das grandes que te derruba de tal forma que, de repente, por mais que esteja sol, faz um frio de rachar na sua casa e você pode jurar que nunca – nunca – sairá de novo de dentro do seu edredom, porque suas forças acabaram ali, naquele instante, e não há mais nenhum fiapo de vontade, sequer para amarrar um tênis. Isso é saudade.

Saudade não é sempre de uma coisa específica. Pode até ser, mas normalmente saudade é plural. Saudades é dos dois. Saudades é de você mesma, com os olhos brilhando. Saudades do frio na barriga, saudades do começo, saudades da praia, saudades daquela festa ridícula, saudades dos foras que vocês davam juntos, dos preparativos para aquela viagem, saudades daquela viagem e da alegria de estar lá. Da expectativa de ir pra lá, da ansiedade, da enorme felicidade e graça, que só vocês conheceram…
Saudades de coisas efêmeras, saudades de fumaça que não se pega, não se toca e, talvez, nem tenha acontecido de fato.

Por isso, saudade pode ser inventada – falta não. Saudade é contínua, falta é curta. Saudade é pó, falta é pedra. Saudade é soco no estômago, falta é puxão de cabelo.
Falta é daquilo que não está ali, e que deveria estar. É a dor da cozinha intocada, da luz apagada, do controle remoto só seu. A falta está na rotina, nas pequenas coisas concretas do dia a dia. Ela é pontual, mas pode aparecer todos os dias. E todos os dias você sentirá a dor fina da picada de uma abelha quando notar, por exemplo, que o banheiro está arrumadíssimo e a pia ficou grande para os seus poucos perfumes. Lá está a dor da falta vindo de repente, tal qual um ladrão que te furta a bolsa… Ela vem e, como uma unha encravada, não te impede de trabalhar, de viver, até de se divertir. Mas avisa que está lá, latejando dentro do sapato bonito.

Você pode até ter se curado das saudades, mas, talvez, um dia, quando o chuveiro queimar, você vai sentir uma falta enorme dele, e de todas as soluções simples que ele tinha para problemas tão complexos como esse…

Talvez uma se cure antes da outra, talvez nenhuma das duas tenha cura. Ambas, no entanto, te trazem a sensação da angústia. Ambas acontecem apenas quando o objeto da saudade ou da falta, parece estar ali, na beirada da sua vida. Ambas te fazem esticar o braço com força, com toda a sua força, o máximo que pode, para alcançar aquilo que já não está mais ali, que é sombra, é marca d’água de powerpoint, e é por isso que dói.

Talvez essas duas dores só sumam de fato quando ele sair da beirada. Quando o desenho do rosto dele não for mais tão nítido na sua memória, quando o som da voz dele não for mais tão claro em teus ouvidos. A saudade e a falta, de formas diferentes, com dores distintas, clamam por aquilo que mais se teme. A única solução possível é a mais temida, e serve para as duas: o esquecimento.