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Da morte, da solitude e do vazio – Tatiana Nicz

tauchner: “ Loui Jover - Deconstructing Frida ”

Existe no português uma palavra chamada solitude, que diferente de solidão é uma solidão voluntária, escolhida, desejada. Nós não somos muito acostumados a ligar vontade com solidão, por isso a palavra solitude é pouco usada. É meio óbvio pensar que as sociedades antigas só podiam dar nomes àquilo que elas viam ou que existia, pois é essencialmente da necessidade de dar nome e sentido às coisas que nasceram as palavras. Por isso ela existe não apenas no português, como também no inglês, e em muitas outras línguas.

Mas estão aí os dicionários a misturar sentidos e neles “solus” em Latim vem do ato de estar/sentir-se sozinho trazendo em si uma conotação meio triste, talvez porque a solitude contenha também certa melancolia em si. A verdade é que ninguém nos ensina sobre a tristeza, que é um dos nossos sentimentos primários*. As escritas, as religiões e a economia se encarregaram de transformar a felicidade em “commodity”, algo rentável incentivando assim uma busca excessiva por ela, e nessa busca não podemos dar espaço para algo (tão precioso) como a tristeza, ou entender que a vida é feita de ciclos e que devemos vivê-los inteiramente com a sabedoria de que não são eternos, pois tudo na vida é impermanente. A desconstrução faz parte de nosso crescimento e ela só nasce na tristeza. E acima de tudo isso, nós precisamos nos libertar das polaridades e aprender a substituir o “ou” pelo “e”, uma coisa sempre complementa a outra, sendo assim nós não somos felizes ou tristes, nós somos felizes e somos também tristes.

Se a solitude é melancólica, é também ela que dá força ao processo de morte e ressurreição; que dá beleza à arte; que os poetas declamam; que os músicos cantam; que os grandes filósofos tentam há anos entender; que a psicologia entende; que dá sentido ao ditado “antes só do que mal acompanhado”; que clama para que “conheça-te a ti mesmo”; é ela que dá sentido à insignificância. Aprender que o copo não precisa estar meio cheio, nem meio vazio. Ele está apenas vazio.

Mas não aprendemos a encontrar alegria na tristeza, queremos ser apenas felizes, então não escutamos falar da morte, nem da tristeza e muito menos da solitude, pois isso tudo não cabe na felicidade. Mas a verdade mesmo é que só amando e conhecendo esses três grandes conceitos é que encontramos a felicidade. Não falamos de solitude, mas fala-se em meditação, essa é a palavra da moda e confesso que não vejo toda essa grandiosidade no ato em si, porque aprendi a reverenciar a solitude de diversas maneiras, para mim ela não mora apenas no ato de meditar. E finalmente eu acredito que aprendi a amar o encontro e não a busca. Por isso não preciso de livros, mestres e dizeres. Para mim basta escutar o vazio. Viver a solidão voluntária, escolhida, desejada, amada, sagrada. Aprendi a sentar no desconforto e enfrentá-lo. Ele. O nada. The void. Aquele que tanto nos amedronta, paralisa. E entendo também agora porque passei a vida toda fugindo desse vazio ou tentando preenchê-lo.

Enfrentar o vazio é mesmo um ato de coragem, muita coragem. Olhar para a morte, olhar para a tristeza, olhar para o vazio e encontrar beleza neles, requer muita coragem. E eu achava que tinha coragem de sobra, pois me senti corajosa em muitos momentos de minha vida. Mas hoje entendo que coragem é algo muito mais grandioso do que eu sentia, pois enfrentar o vazio requer algo maior, uma coragem que eu não sabia que existia e muito menos que eu poderia ter. É essa coragem que precisamos para enfrentar nossa própria sombra, para desviar das muitas distrações que o caminho traz, para enfrentar os olhos desconfiados dos que nos cercam e confundem solitude com isolamento; é preciso muita coragem para olhar a morte na cara e parar para sentir a dor dilacerante que emerge dela; para sentir-se vazio; precisamos de coragem para entender e amar a grandiosidade que existe em nossa completa insignificância. Uma coragem que vem do seu próprio significado: no Latim coragem deriva da palavra “cor”, que tem a mesma raiz que a palavra coração.

A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

Uma das minhas passagens favoritas, que muito já citei, diz “um homem não é uma ilha isolada em si”, mas hoje discordo em partes. Somos ilhas porque somos únicos, porque o nosso mundo é inteiramente baseado no que experenciamos sozinhos, mesmo quando estamos cercados, mesmo quando nos distraímos, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, pois a experiência é única para cada ser. Ninguém nem nada pode nos tirar dessa condição de solitude, por tudo isso faz-se necessário conhecê-la e aprender a amá-la. O Budismo entende a beleza da solitude e usa a flor de lótus como uma bela analogia para isso. A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

E a busca, essa busca toda desenfreada, vem justamente da não apreciação dessa solitude, do medo que dá de vivê-la, da tentativa de preencher esse vazio. Mas ele está lá, sempre esteve e sempre estará. Todo mundo sente esse vazio, em maior ou menor escala, nas diferentes fases da vida, só não aprendemos ainda o que devemos fazer com ele. Então buscamos refúgio nas religiões, crenças, na medicina, nos outros para preenchê-lo sem lembrar que ele é o que nos faz humanos, únicos, isolados em nós mesmos.

Em seu recente livro “A festa da insignificância”, o grandioso e sábio escritor tcheco Milan Kundera nos convida a amar a insignificância e a insignificância traz o vazio em si. Insignificante é aquilo que é vazio de significado. E para aprender a amar o vazio, não precisamos ter posses, nem conhecimento de nada ou manual, aliás nem alfabetamento requer. Digo esse alfabetamento convencional, ler e escrever. Do contrário requer um profundo alfabetamento emocional, é preciso aprender a ler e escrever no vazio. Hoje olho para tudo que busquei um dia, e após minha tão recente experiência com a morte aprendi que é tudo tão mais simples do que eu pensava, a resposta está apenas em aprender a amar o vazio. Mas a sensação que tenho é que alguns amam mais a busca do que o encontro. Mas, há quem ame o encontro também. E o que posso dizer para estes é: escute o vazio, a tristeza, escute a morte. Porque tudo, tudo, tudo é insignificante diante dela. E mesmo assim a nossa libertação está em aprender a amá-la. E o vazio é aquilo que ela traz, é também o que nos faz maiores e melhores; pois é só o vazio que nos preenche.

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la.”
Milan Kundera em A Festa da Insignificância

*são consideradas por algumas linhas da psicologia como emoções primárias: medo, alegria, raiva, tristeza, afeto

flor de lótus

 

Não gosto de meias-palavras

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Eu sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona o fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, os dias passam rápido, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, ninguém sabe ao certo quem descobriu a cor. (Têm coisas que não precisam ser explicadas. Pelo menos para mim). Tenho um coração maior do que eu, nunca sei a minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).

Coragem eu tenho um monte. Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo de Jornal Nacional, de lagartixa branca, de maionese vencida, tenho medo das pessoas, tenho medo de mim. Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos dormem e acordam, nunca sei a hora certa. Mas uma coisa eu digo: eu não paro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei aonde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre questiono se você está feliz, se eu estou bonita, se vou ganhar estrelinha, se posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim. Não gosto de meias-palavras, de gente morna, nem de amar em silêncio. Aprendi que palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força. E força não há de faltar porque – aqui dentro – eu carrego o meu mundo. Sou menina levada, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu… Escrevo escondido, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Quer me entender? Não precisa. Quer me fazer feliz? Me dê um chocolate, um bilhete, um brinde que você ganhou e não gostou, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Todo dia é dia de ser criança e criança não liga pra preço, pra laço de fita e cartão com relevo. Criança gosta mesmo é de beijo, abraço e surpresa!

(E eu – como boa criança que sou – quero mais é rasgar o pacote!)

Fernanda Mello

Recôncavo Baiano

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RESPOSTA aberta a um senhor que me chamou de petralha nordestina entre outras coisas. Um insulto como se nordestina fosse defeito ou desmerecimento.
Não sou filiada a nenhum partido, mas com certeza estarei do lado do injustiçado. Alguém que foi eleita verdadeiramente pelo voto do povo deve permanecer ate o final do mandato. Não sou Pt e não aprovo muita coisa .

Mas, a constituição deve ser respeitada. Não foi o nordeste que elegeu Dilma. Foi o Brasil caro amigo, sim, sou nordestina com o maior orgulho da alma. Eu sou nordestina, baiana e do recôncavo baiano. Sei de minha origem e sou fruto de gente corajosa e trabalhadora. Em Terra Nova – BA chegaram meus bisavós por parte de pai do Porto – Portugal pra tentar reconstruir e tentar sorte com armazém de secos e molhados na beira de uma Usina de Cana de Açúcar – ALIANÇA era o nome da usina. E eles venceram.
Pelo lado da minha mãe sou neta de uma mulher, culta, forte inteligente e poeta. Filha de um padre foi criada com a melhor educação que poderia ter na época. E meu bisavô padre assumiu a filha perante toda a sociedade e a deu carinho e educação.

Minha vó namorou anos com o caboclo belo e rude, administrador de usina através de cartas. quando ele se estabilizou foi buscar a minha vó e foram formar família , família grande parte de professores……Família que muito me orgulha…Fui criada na poesia , na verdade , na luta. E eles venceram. Não peçam de mim imparcialidade, indiferença e personalidade equilibrada e nula. Sou uma mistura de raças e isso me dá forças para reconstruir sempre!!!
Quando pequena adorava ver os raios e trovões riscando o céu.
O caos não me assusta… eu sempre venço ele.
Qual motivo estou escrevendo isto?
Um misto de orgulho de meus antepassados e esperança no meu futuro em um momento delicado , perigoso e incerto.
Um dia quando tiver netos quero que eles leiam este post.

EPAHEY OYÁ!

A Marca da Saudade – Ita Portugal

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Saudade não se cura, não se mata, não possui juízo, não leva desaforo prá casa. Saudade não se confronta, não possui companhia, não tem prazo de validade. Saudade não possui destino certo, não fica impotente. Saudade toca flauta no coração lembrando sua presença.

A saudade é muda, silenciosa, companhia no desamparo. A saudade é o sentimento que despe a alma. Saudade que se preze é cheia de intenções e a maior delas é ressuscitar as lembranças. Saudade respeitada é aquela que abre a porta do passado, por teimosia, engaiola as certezas e interdita os novos amores.

A saudade é a bagunça afetiva que não nos ensinaram a arrumar. É a solidão fantasiada de melancolia. Sentir saudade é querer o manjar do passado que está estragado. É continuar o ritual, agora sem companhia. É dançar sem música, correr sem adversário, cantar sem afinação, tocar sem partitura, seduzir sem parceiro, sentir frio no banco da praça, sem cobertor para aquecer.  

Saudade é o canto da sala que não foi varrido, mas pode ser a nossa chancela e nosso exílio, nossa tragédia ou reeducação amorosa. Saudade é o fervor escondido do que se foi. Toda saudade é um pouco fantasma que se alimenta na nossa solidão. É cortar as asas do nosso coração para não deixá-lo voar. Saudade é tudo que dizem por aí. Saudade é o tropeço que o amor deixou.

Ita Portugal

Superação Já!

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Quando as mulheres se apaixonam julgam que o relacionamento irá durar toda a vida, no entanto cada vez mais começamos a viver numa sociedade em que tal não se verifica, sendo que para encontrar o tal muitas mulheres terão que passar por algum fim de namoro.
Quando nos apaixonamos o sentimento de amor é forte, assim como o sentimento de possessão Não está nos nossos planos perder aquela companhia algum dia. Muitas mulheres não se importam que o ex-namorado traia, ou que minta, elas não se importavam de viver para sempre assim, numa mentira.Mas o que é isto do amor? Acho que as pessoas que chegam ao fim de namoro, não amam de verdade, embora custe deixar o outro partir, o amor é algo que possui dois sentidos. A sua felicidade deve estar acima de tudo. Não se deve forçar ou tentar forçar alguém a manter-se num relacionamento se o amor já se tiver desvanecido.“Se ama alguém, deixe-o ir. Se regressar para você, é seu. Se não regressar, nunca foi seu.”Lembre-se sempre destas dicas para seguir em frente e dar o seu lugar, deve ser digna e forte até ao final. Não deve chorar e implorar, as mágoas são para os fracos.Se por todos os meios já tentou combater o fim de namoro, de considerar que talvez seja tempo de seguir em frente. Tal como muitas outras pessoas que no passado se levantaram para tornar a juntar os pedaços do coração e recomeçar as vidas.

10 Conselhos para superar um fim de namoro:

  • Não implore por amor, isto diminui a auto-estima;
  • Amar é algo voluntário e não obrigatório, é livre de escolher;
  • Não chore por algo que já foi, não era para você, pense positivo;
  • Não force ninguém a ficar com outrem por pena, é a pior coisa que se pode fazer;
  • Pode sempre encontrar outra pessoa como você, que procura alguém para amar;
  • Não se desgaste com sentimentos de culpa;
  • Olha para você e veja como é bonita;
  • Faça coisas interessantes, mude de visual;
  • Você é mais que um objeto, é uma mulher maravilhosa;
  • Quando a deixam porque não a amam, há que fazer para o amor voltar!

E por último nunca se deve culpar pelo fim de namoro. O amor também se desgasta, e culpa não é inteiramente sua. O amor é igual às flores, que requerem constantes cuidados e mimos, caso contrários secam.

Fonte:diariodemulher.com

100 frases de Nelson Rodrigues

 Nelson Rodrigues foi o maior frasista brasileiro, o nosso Rochefoucauld. Com a contribuição milionária de Erika Nakamura, o Diário selecionou em 2012 100 máximas de Nelson Rodrigues para festejar seus 100 anos.

  1. A adúltera é a mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela.
  2. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.
  3. A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.
  4. A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.
  5. A liberdade é mais importante do que o pão.
  6. A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.
  7. A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
  8. A platéia só é respeitosa quando não está a entender nada.
  9. A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.
  10. A televisão matou a janela.
  11. A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
  12. Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
  13. Amar é dar razão a quem não tem.
  14. Amar é ser fiel a quem nos trai.
  15. Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.
  16. As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.
  17. Com sorte vc atravessa o mundo, sem sorte vc não atravessa a rua.
  18. Começava a ter medo dos outros. Aprendia que a nossa solidão nasce da convivência humana.
  19. Copacabana vive, por semana, sete domingos.
  20. D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.
  21. Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
  22. Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.
  23. Deus está nas coincidências.
  24. Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.
  25. É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.
  26. É preciso trair para não ser traído.
  27. Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância.
  28. Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.
  29. Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.
  30. Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.
  31. Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.
  32. Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.
  33. Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.
  34. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário.
  35. Invejo a burrice, porque é eterna.
  36. Jovens: envelheçam rapidamente!.
  37. Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…
  38. Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:- 14 anos!
  39. Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.
  40. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.
  41. Não admito censura nem de Jesus Cristo.
  42. Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca. A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: – é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.
  43. Não existe família sem adúltera.
  44. Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou.
  45. Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.
  46. Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais.
  47. Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.
  48. Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
  49. Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.
  50. O adulto não existe. O homem é um menino perene.
  51. O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.
  52. O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.
  53. O asmático é o único que não trai.
  54. O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.
  55. O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.
  56. O Brasil é muito impopular no Brasil.
  57. O brasileiro é um feriado.
  58. O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.
  59. O cardiologista não tem, como o analista, dez anos para curar o doente. Ou melhor: – dez anos para não curar. Não há no enfarte a paciência das neuroses.
  60. O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade.
  61. O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.
  62. O homem começa a morrer na sua primeira experiência sexual.
  63. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.
  64. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.
  65. O morto esquecido é o único que repousa em paz.
  66. O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.
  67. O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.
  68. O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.
  69. O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.
  70. O puro é capaz de abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete.
  71. O sábado é uma ilusão.
  72. O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.
  73. Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.
  74. Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
  75. Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano.
  76. Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos.
  77. Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.
  78. Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro.
  79. Se os fatos são contra mim, pior para os fatos.
  80. Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.
  81. Sem paixão não dá nem para chupar picolé.
  82. Sexta feira é o dia em que a virtude prevarica.
  83. Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.
  84. Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.
  85. Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.
  86. Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.
  87. Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.
  88. Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos.
  89. Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.
  90. Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
  91. Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.
  92. Toda mulher bonita tem um pouco de namorada lésbica em si mesmo.
  93. Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem.
  94. Toda unanimidade é burra.
  95. Todas as mulheres deviam ter catorze anos.
  96. Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.
  97. Todo desejo é vil.
  98. Todo tímido é candidato a um crime sexual.
  99. Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.
  100.  Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.
 Texto de Paulo Nogueira
 

 Entrevista histórica de Nelson Rodrigues – Otto Lara Resende –

 
 

As mentiras que os homens contam – Luis Fernando Veríssimo

Nós nunca mentimos. Quando  mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que  mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor um doente do que um vagabundo. E se ela não acreditasse, e nos mandasse ir à escola  de qualquer jeito, ainda  tínhamos um trunfo sentimental. “Então vou ter que inventar uma história para a professora”, querendo dizer vou ter que mentir para outra mulher como se ela fosse você. “Está bem, fica em casa estudando!” E ficávamos em casa, fazendo tudo menos estudar, dando-lhe todas as razões para dizer que não nos agüentava mais, que é outra coisa que mãe também adora.

A primeira namorada. Mentíamos para preservar nosso orgulho, certo? 

– Não, não, eu estava passando por acaso. Você acha que eu fico rondando a sua casa o dia inteiro, é? 

Mas o que vocês pensariam se nós disséssemos: “Sim, sim, não posso ficar longe de você, penso em você o dia inteiro, aqueles telefonemas que você atende e ninguém fala, sou eu! Confesso, sou eu! Vamos nos casar! Eu sei que eu só tenho 12 anos e você tem 11, mas temos que nos casar! Senão eu morro. Senão eu morro!”? Vocês se assustariam, claro. A paixão nessa idade pode ser um sumidouro. Mentíamos para nos proteger do sumidouro. 

Outras namoradas. Outras mentiras. 

– Eu só quero ver, juro. Não vou tocar. 

Vocês não queriam ser tocadas, mas ao mesmo tempo se decepcionariam se a gente nem tentasse. Nem desse a vocês  a oportunidade de afastar a nossa mão, indignadas. Ou de descobrir como era ser tocada. 

Namorar – pelo menos no meu tempo, a Renascença – era uma lenta conquista de territórios hostis, como a dos desbravadores do Novo Mundo. Avançávamos no desconhecido, centímetro a centímetro, mentira a mentira. 

– Pode, mas só até aqui. 

– Está bem. Não passo daí. 

– Jura? 

– Juro. 

– Você passou! Você mentiu! 

– Me distraí! 

Dávamos a vocês todos os álibis, todas as oportunidades para dizer depois que tudo acontecera devido à nossa calhordice e não à vontade que vocês também sentiam. Não mentíamos para vocês, mentíamos por vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram os que enganavam as mulheres. Os calhordas diziam, abjetamente, a verdade. Não faziam o que juravam que não iam fazer, transferindo toda a iniciativa a vocês. É ou não é?

Mas isso tudo mudou, desgraçadamente bem quando eu deixei para trás as tentações do mundo e entrei para uma ordem (a dos monógamos). A revolução sexual, que um dia ainda vai ser comemorada como a Revolução Francesa, com a invenção da pílula anticoncepcional correspondendo à queda da Bastilha e o fim dos sutiãs ao fim da monarquia – e o termo sans culotte, claro, adquirindo novo significado – tornou o relacionamento entre homens e mulheres mais franco e desobrigou os homens de mentir para as mulheres para salvar a honra delas. Aliás, dizem que a coisa virou de tal maneira que hoje a mentira mais comum dita pelos homens é “Esta noite não, querida, estou com dor de cabeça”. Não sei. Mas continuamos mentindo a vocês para o bem de vocês.

“Rmmwlmnswl” não significa que nós estamos fingindo dormir com medo de ir ver que barulho é aquele na sala. Significa que estamos fingindo dormir para que você vá ver com seus próprios olhos que não é nada e pare com esses temores ridículos, e se for mesmo ladrão nos avise a tempo de pular pela janela.

“Fiquei fazendo companhia ao Almeidinha, coitado, ele ainda não se refez” significa que a nova gata do Almeidinha só saía com ele se ele conseguisse um par para a prima dela, e nós fazemos tudo por um amigo, mas não queremos estragar a ilusão de vocês de que a separação deixou o Almeidinha arrasado, como ele merecia.

“Está quase igual ao da mamãe” significa que não chega aos pés do que a mamãe fazia, ou então que está muito melhor, mas que o importante é vocês não se sentirem nem tão ressentidas que decidam atirar o doce na nossa cabeça e depois se arrependam, nem tão confiantes que parem de tentar ser iguais à mamãe, e no dia que a gente disser que está sentindo uma coisa estranha bem aqui, só para não ir trabalhar e ficar vendo o programa da Xuxa, vocês não digam “Comigo essa não pega” e nos botem para a rua.