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JEAN-MICHEL BASQUIAT

A arte é uma linguagem, e a perfeição técnica isolada não pode comunicar porque não é individual. Jean-Michel Basquiat é a prova de que na escola não se aprende tudo: não tendo formação acadêmica, tornou-se num dos pintores mais conhecidos da Pop Art, comunicando sentimentos e emoções em bruto.

 

Apesar de não ter qualquer educação formal e de ter morrido bastante jovem, Jean-Michel Basquiat entrou para a História da Arte americana e, consequentemente, para a mundial. Quem era este jovem que foi amigo íntimo de Andy Warhol e, segundo consta, namorou com Madonna?

Jean-Michel Basquiat nasceu em Brooklyn, em 1960, mas os pais eram imigrantes de Porto Rico e do Haiti. Conhecendo bem a vida nos subúrbios e os problemas a ele inerentes, como o racismo, a imigração e a exclusão social, Basquiat tornou-se um símbolo dos desenhos urbanos dos anos 80.

Começou por ganhar destaque com os graffiti que fazia em Manhattan com a sigla SAMO (Same Old Shit). Interessado em hip-hop, jazz, basebol e boxe, mas também em poesia francesa, Leonardo Da Vinci e arte modernista, cedo se iniciou na pintura, comunicando com clareza e urgência a sua própria experiência de vida num tom neo-expressionista. As suas criações são uma combinação de símbolos, escrita e cores encontradas fora da “normalidade”: são as cores da cidade, das ruas e do mundo em que viveu. Nos anos 80 – quando tinha apenas 20 anos –, Basquiat ganhou reputação no meio artístico pela realidade que, de uma forma completamente nova, apresentava nos seus quadros. Inspirado na pintura dos países de origem dos seus pais e também na cultura africana, ele consegue dominar a cor, mesclando-a com palavras crípticas e garrafais. Assim, a fama surgiu-lhe quase imediatamente, catapultando-o para a vida artística nas mais conceituadas galerias de Nova Iorque, e inserindo-o nos círculos de artistas mais em voga de então – como Andy Warhol com quem colaborou a partir de 1984 e de quem se tornou amigo próximo. Não obstante todo o sucesso conquistado, Basquiat era uma pessoal atribulada que cedeu ao domínio da toxicodependência. Acabou por morrer de overdose de heroína em 1988, um ano depois do seu grande amigo e mentor, Andy Warhol. Tinha apenas 27 anos e deixou o mundo artístico como sendo o primeiro artista negro de relevo no mundo ocidental. Sem dúvida, um nome incontornável da pintura, especialmente de um dos mais inquietantes movimento artísticos do século XXI, a Pop Art.

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Pegasus 1987. Acrylic, graphite and colored pencil on paper mounted on canvas. Courtesy John McEnroe Gallery

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Gravestone 1987. Acrylic, oil and oil paintstick on wood. Collection Enrico Navarra

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Jim Crow 1986. Acrylic and oil paintstick on wood. Private Collection, Paris

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Philistines 1982. Acrylic and oil paintstick on canvas. Collection of Mr. and Mrs. Thomas E. Worrell Jr.

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Native Carrying Some Guns, Bibles, Amorites on Safari 1982. Acrylic and oil paintstick on canvas. Collection of Hermes Trust (Courtesy of Francesco Pellizzi)

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Exu 1988. Acrylic and oil paintstick on canvas. Collection Aurelia Navarra

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Untitled 1981. Acrylic, spray paint, and oil paintstick on canvas. Courtesy The Stephanie and Peter Brant Foundation, Greenwich, CT

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Untitled 1981. Acrylic and spray paint on canvas. Collection of Annina Nosei

Texto de DIANA CALDEIRA GUERRA

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Camille Claudel

Camille Claudel foi assistente de trabalho e companheira de Auguste Rodin em um romance altamente destrutivo. Mas, o maior drama de sua história foi o fato de que seu talento extraordinário levaria décadas para ser reconhecido.

 

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Camille Athanaïse Cécile Cerveaux Prosper (1864-1943), ou Camille Claudel, como ficou conhecida, nasceu em Aisne (França), e cresceu em Villeneuve-sur-Fère.

Sua brincadeira de infância preferida era fugir de sua casa, sem que os adultos percebessem, para que ela e seu irmão Paul Claudel fossem para as montanhas que cercavam a vila, local no qual se encontrava o barro que era esculpido por eles durante a brincadeira.

Diferentemente de sua mãe, o pai de Camille, Louis Prosper, começou a se orgulhar das esculturas realizadas por ela, cujas primeiras figuras retratavam personagens como Napoleão, Davi e Golias e membros da família. Em 1881, acreditando na genialidade da filha de 17 anos, Louis Prosper a levou a Paris, palco da efervescência artística do século XIX.

Camille enfrentou várias diversidades diante desse novo mundo: contava com pouco dinheiro para sobrevivência, mal conseguia pagar o local onde morava e tinha dificuldade para comprar o mármore e o bronze para suas esculturas. Além disso, a escultura ainda era classificada como uma atividade essencialmente masculina, tendo Camille que colocar seu talento à prova a todo momento.

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Camille Claudel – “Jovem com um feixe [de trigo]” (1887)

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Camille Claudel – “A velha Helena”

A artista passou a ter aulas com Alfred Boucher, que a apresentou ao diretor Nacional de Belas Artes, Paul Dubois. Esse identificou semelhanças entre o trabalho de Camille Claudel e de Auguste Rodin e os apresentou. Nesta época, Rodin ainda não era famoso, mas era amado pelos vanguardistas da arte impressionista.

Rodin convidou Camille para trabalhar como sua assistente, a única mulher entre o grupo de artistas contratados para auxiliá-lo em uma de suas maiores obras: “Os Burgueses de Calais”. Camille era incumbida de esculpir pés e, principalmente, mãos, e era por meio das mãos que, segundo especialistas, Rodin costumava definir a emoção de seus personagens.

Camille tornou-se musa de Rodin. Eles se tornaram também amantes e, posteriormente, rivais.

Camille teria sido a modelo para esta escultura de Rodin: camille dana 02.jpg

Auguste Rodin – “A Danaide” (1885)

O relacionamento de Camille e Rodin configurou-se, desde o início, em algo extremamente conturbado. Rodin se recusava a deixar sua esposa e filho para viver definitivamente com Camille, o que tornou a proximidade de ambos atormentadora. Eles também brigavam pela autoria na concepção de obras.

Na interpretação da historiadora Monique Laurent, ex-diretora do Museu Rodin, Auguste Rodin tinha medo de assumir seu relacionamento com Camille por ser consciente da inteligência e do talento de sua amante, o que fazia dela uma artista que poderia suplantá-lo.

Sakuntala, também conhecida como Vertumnus e Pomona (1888), é um marco na trajetória de Camille Claudel. A escultura é inspirada no conto do poeta hindu Kalidasa e retrata o momento do reencontro de Sakuntala e seu marido, após um longo período de separação causado por um feitiço.

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“Sakuntala” ou ” “Vertumnus e Pomona” (1888)

Em 1892, após passar por um aborto, Camille decidiu se afastar de Rodin e desvincular sua arte da obra dele, embora os amantes tenham se encontrado por mais algum tempo depois dessa decisão. E foi nesse processo de distanciamento e rompimento que o trabalho de Camille Claudel teve seu período mais profícuo.

Suas obras desse período demonstram amadurecimento de concepções e de técnicas. Camille estudou arte oriental e, de 1894 a 1897, Camille passou do realismo ao fantástico e buscou trabalhar com a miniaturização de cenas de movimento.

Fazem parte desse período de grande produtividade de Camille as obras:

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“A Valsa” (1892)

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“As Bisbilhoteiras” (1893)

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A Pequena Castelã” (1893)

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“Reflexão Profunda” (1898)

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“A Onda” (1903)

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“A Tocadora de Flauta (1905)

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“A Idade Madura” (1899) – Museu D’Orsay – Paris

Em consequência da falta de reconhecimento de seu trabalho, dos conflitos com Rodin e após não conseguir se recuperar de um grande golpe que foi para si quando “A Idade Madura”, considerada a mais autobiográfica de suas obras, foi recusada pela Exposição Universal de 1900, mesmo após ter sido encomendada para a referida exposição, Camille passou a viver trancada em seu estúdio e a considerar que havia um complô de Rodin contra ela.

Camille continuou a sofrer preconceito pelo fato de ser uma mulher inserida no universo dos escultores e por ser acusada de copiar o trabalho de Rodin.

Em 1913, Camille Claudel foi diagnosticada como portadora de delírio paranoico e internada em um manicômio. Nunca mais voltou a esculpir e permaneceu nesse local durante 30 anos, até morrer em 1943, aos 79 anos de idade.

O amplo reconhecimento de seu talento só viria muitas décadas depois de sua produção.

Fontes:

WAHBA, Liliana Liviano. “Camille Claudel: criação e loucura”. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2002.

DELBÉE, Anne.”Camille Claudel”. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Revista Aventuras na História. Editora Abril: nº 05 – janeiro/2004

Texto de : 

ANA CÉLIA ELLERO

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Mãe Bahia – Carybé

mercurionaveia: “ Carybé  Mulata Grande, 1980 Óleo sobre tela 61 x 45 cm =-=-=-=-=-=-=-==-=-=-= Carybé É argentino, é brasileiro É quichua, é asteca, é Inca, é carioca por bossa Mas é baiano por fé. É amigo do mundo inteiro Menos de quem não dá...
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Carybé / Mulata Grande, 1980/Óleo sobre tela/61 x 45 cm

 

Carybé

É argentino, é brasileiro
É quichua, é asteca, é
Inca, é carioca por bossa
Mas é baiano por fé.
É amigo do mundo inteiro
Menos de quem não dá pé.
Canta cantigas de Cuzco
Da Havana e do Tremembé.
É um sambista milongueiro
Bate um violão de terreiro
E é santo de candomblé.
É um compadre capoeiro
Legal!-berimbau de mestre!
É pintor que pinta porta
Pinta parede, janela
Pinta mar e pinta peixe
Pinta a pesca do xaréu!
(Pintor que pinta Maria
E pinta até Isabel)
É um pé-de-cana ligeiro
E um grande come-amarelo.
É um branca e ameríndio
Um salvadorense che
É um cara todo carinho
Um xique-xique sem espinho
é meu, é o nosso irmãozinho
É o cacique Carybé!

“Ay, que cuadritos más lindos
Pinta el pintor Carybé”

Vinicius de Moraes

Carybé – Pintor nascido na Argentina. Nome artístico de Hector Julio Paride Bernabó. Radicou-se, inicialmente, no Rio de Janeiro depois de ter vivido na Itália até os oito anos de idade. Fixou-se definitivamente na Bahia a partir de 1950, naturalizando-se sete anos depois. Suas obras traduzem a baianidade expressa nas cenas cotidianas e no folclore popular. Destacou-se pela criação de murais, hoje expostos em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Montreal, Buenos Aires e Nova York. Fez ilustrações de obras literárias, como O sumiço da santa, de Jorge Amado.

Fonte:
– LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

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“Hoje, as pessoas só confirmam sua existência quando estão em público.
No entanto, creio que é justamente quando estamos misturados aos demais que nos tornamos invisíveis.
Acabamos infiltrados na manada e compartilhamos opiniões originadas do senso comum, tudo pela ansiedade de fazer parte de alguma coisa.
Já ao nos concedermos momentos de isolamento, entramos em real conexão com nossos desejos, processamos as experiências vividas e esculpimos silenciosamente o homem e a mulher que estamos nos tornando.
Ficar sozinho não é estar abandonado, ao contrário: é encontro dos mais sagrados. Invisível para os outros, extremamente visível para si mesmo.
É divertido ser invisível e todos nós temos esse poder, basta estar numa festa para 800 convidados, por exemplo.
A visibilidade é que é rara: olhar profundamente para dentro e enxergar o que ninguém mais consegue ver.”
— Martha Medeiros.

LESÕES AFETIVAS- Carolina Vila Nova

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Nada nos machuca mais do que as lesões afetivas, as feridas que ficam na alma. Mais do que dor física, a falta de amor, a traição, a ausência de determinadas pessoas ou ainda as palavras proferidas na hora errada são capazes de nos ferir mais do que a dor da carne.

  • Nada nos machuca mais do que as lesões afetivas, as feridas que ficam na alma. Mais do que dor física, a falta de amor, a traição, a ausência de determinadas pessoas ou ainda as palavras proferidas na hora errada são capazes de nos ferir mais do que a dor da carne.

Desde criança nos habituamos a segurar o choro, escondemos os momentos de fraqueza e engolimos “seco” a dor de mesmo pequenos, carregarmos a obrigação de agir como adultos.

Nos ensinam a ser fortes, como se força significasse o não sentir, quando na verdade sentimos muito: sentimos a falta de afeto, sentimos a falta de nossas mães e nossos pais, sentimos a morte ou o sumiço do cãozinho de estimação, sentimos a repreensão injusta da professora na escola e os risos dos colegas sobre quem somos.

Durante toda a vida vivenciamos situações de injustiças, crueldade, desamor e tanto mais. Para o que nos fere não existe escapatória. Faz parte da vida, e de diferentes formas e momentos, iremos vivenciar a dor.

Qual a solução então para aquilo nos machuca mais profundamente? O afeto, os gestos e momentos do mais puro amor. E apesar de parecer algo simples, não temos tido tempo nesta vida para aquilo que é o alimento e remédio da alma.

Numa sociedade em que todos estamos sempre correndo, não há mais tempo para a conversa com os amigos, um telefonema, um olhar mais demorado, o apreciar da chuva ou do pôr-do-sol. Não viajamos mais para dentro de nós mesmos através daquilo que nos conecta com a própria vida.

Nossos filhos crescem sem nossa presença, rodeados de presentes que representam as falhas tentativas de compensação. Envelhecemos dia-após-dia, afastando de nós mesmos os que mais amamos, devido à nossa pressa de ir ao trabalho, à faculdade, ao supermercado e de cumprir as infinitas tarefas que a vida em sociedade nos incumbe.

Acumulamos nossa feridas na alma e acabamos por recriar lesões afetivas ao nosso redor. Não por uma maldade existente em nós mesmos, mas pelo ritmo contagioso da vida. Repetimos os erros de nossos pais em nós mesmos e em nossos filhos. E assim sucessivamente.

Diante da loucura de preencher os requisitos diários do dia-a-dia, devemos nos lembrar também, diariamente, do que faz a vida valer a pena. São os pequenos momentos, as pequenas coisas, aquilo que acontece de forma natural e expontânea e nem preço tem. Um momento de qualidade com nossos filhos e familiares, sem pressa, com real presença de nós mesmos. Uma palavra de conforto e motivação. Um elogio e um reconhecimento.

Se por um lado as lesões afetivas nos marcam profundamente, os afetos tem o poder de nos curar de todo mal vivenciado um dia. O abraço afetuoso, um beijo na testa, uma expressão de amor que pode vir em palavras ou numa simples expressão corporal.

Nada muda o nosso passado. E por mais dor e arrependimentos que se carregue, o comportamento de agora tem o poder de ser transformador. Para nós e para os outros.

Se a falta de amor em diversos momentos da vida nos marca com dor, a presença do amor alivia as marcas adquiridas ao longo de nossa existência, nos torna mais fortes e tolerantes para as dores que ainda hão de vir e nos permite ser os que irão aliviar as feridas de outros, de preferência as dos que tanto amamos.

A resposta é simples: amor!

Fonte :© obvious: http://lounge.obviousmag.org/reading_terapia/2016/07/lesoes-afetivas.html#ixzz4FkllFhwL

Você não consegue!

Da morte, da solitude e do vazio – Tatiana Nicz

tauchner: “ Loui Jover - Deconstructing Frida ”

Existe no português uma palavra chamada solitude, que diferente de solidão é uma solidão voluntária, escolhida, desejada. Nós não somos muito acostumados a ligar vontade com solidão, por isso a palavra solitude é pouco usada. É meio óbvio pensar que as sociedades antigas só podiam dar nomes àquilo que elas viam ou que existia, pois é essencialmente da necessidade de dar nome e sentido às coisas que nasceram as palavras. Por isso ela existe não apenas no português, como também no inglês, e em muitas outras línguas.

Mas estão aí os dicionários a misturar sentidos e neles “solus” em Latim vem do ato de estar/sentir-se sozinho trazendo em si uma conotação meio triste, talvez porque a solitude contenha também certa melancolia em si. A verdade é que ninguém nos ensina sobre a tristeza, que é um dos nossos sentimentos primários*. As escritas, as religiões e a economia se encarregaram de transformar a felicidade em “commodity”, algo rentável incentivando assim uma busca excessiva por ela, e nessa busca não podemos dar espaço para algo (tão precioso) como a tristeza, ou entender que a vida é feita de ciclos e que devemos vivê-los inteiramente com a sabedoria de que não são eternos, pois tudo na vida é impermanente. A desconstrução faz parte de nosso crescimento e ela só nasce na tristeza. E acima de tudo isso, nós precisamos nos libertar das polaridades e aprender a substituir o “ou” pelo “e”, uma coisa sempre complementa a outra, sendo assim nós não somos felizes ou tristes, nós somos felizes e somos também tristes.

Se a solitude é melancólica, é também ela que dá força ao processo de morte e ressurreição; que dá beleza à arte; que os poetas declamam; que os músicos cantam; que os grandes filósofos tentam há anos entender; que a psicologia entende; que dá sentido ao ditado “antes só do que mal acompanhado”; que clama para que “conheça-te a ti mesmo”; é ela que dá sentido à insignificância. Aprender que o copo não precisa estar meio cheio, nem meio vazio. Ele está apenas vazio.

Mas não aprendemos a encontrar alegria na tristeza, queremos ser apenas felizes, então não escutamos falar da morte, nem da tristeza e muito menos da solitude, pois isso tudo não cabe na felicidade. Mas a verdade mesmo é que só amando e conhecendo esses três grandes conceitos é que encontramos a felicidade. Não falamos de solitude, mas fala-se em meditação, essa é a palavra da moda e confesso que não vejo toda essa grandiosidade no ato em si, porque aprendi a reverenciar a solitude de diversas maneiras, para mim ela não mora apenas no ato de meditar. E finalmente eu acredito que aprendi a amar o encontro e não a busca. Por isso não preciso de livros, mestres e dizeres. Para mim basta escutar o vazio. Viver a solidão voluntária, escolhida, desejada, amada, sagrada. Aprendi a sentar no desconforto e enfrentá-lo. Ele. O nada. The void. Aquele que tanto nos amedronta, paralisa. E entendo também agora porque passei a vida toda fugindo desse vazio ou tentando preenchê-lo.

Enfrentar o vazio é mesmo um ato de coragem, muita coragem. Olhar para a morte, olhar para a tristeza, olhar para o vazio e encontrar beleza neles, requer muita coragem. E eu achava que tinha coragem de sobra, pois me senti corajosa em muitos momentos de minha vida. Mas hoje entendo que coragem é algo muito mais grandioso do que eu sentia, pois enfrentar o vazio requer algo maior, uma coragem que eu não sabia que existia e muito menos que eu poderia ter. É essa coragem que precisamos para enfrentar nossa própria sombra, para desviar das muitas distrações que o caminho traz, para enfrentar os olhos desconfiados dos que nos cercam e confundem solitude com isolamento; é preciso muita coragem para olhar a morte na cara e parar para sentir a dor dilacerante que emerge dela; para sentir-se vazio; precisamos de coragem para entender e amar a grandiosidade que existe em nossa completa insignificância. Uma coragem que vem do seu próprio significado: no Latim coragem deriva da palavra “cor”, que tem a mesma raiz que a palavra coração.

A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

Uma das minhas passagens favoritas, que muito já citei, diz “um homem não é uma ilha isolada em si”, mas hoje discordo em partes. Somos ilhas porque somos únicos, porque o nosso mundo é inteiramente baseado no que experenciamos sozinhos, mesmo quando estamos cercados, mesmo quando nos distraímos, nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, pois a experiência é única para cada ser. Ninguém nem nada pode nos tirar dessa condição de solitude, por tudo isso faz-se necessário conhecê-la e aprender a amá-la. O Budismo entende a beleza da solitude e usa a flor de lótus como uma bela analogia para isso. A flor de lótus nasce da lama do fundo da lagoa e é ali que ela encontra forças para crescer solitária e emergir na superfície e assim florescer. Uma vez que floresce nenhuma sujeira prende-se às suas pétalas que mantém-se sempre limpas e sua semente pode germinar novamente após longos períodos dormentes. Apesar de poder estar rodeada de outras flores, ela faz todo o processo em solitude.

E a busca, essa busca toda desenfreada, vem justamente da não apreciação dessa solitude, do medo que dá de vivê-la, da tentativa de preencher esse vazio. Mas ele está lá, sempre esteve e sempre estará. Todo mundo sente esse vazio, em maior ou menor escala, nas diferentes fases da vida, só não aprendemos ainda o que devemos fazer com ele. Então buscamos refúgio nas religiões, crenças, na medicina, nos outros para preenchê-lo sem lembrar que ele é o que nos faz humanos, únicos, isolados em nós mesmos.

Em seu recente livro “A festa da insignificância”, o grandioso e sábio escritor tcheco Milan Kundera nos convida a amar a insignificância e a insignificância traz o vazio em si. Insignificante é aquilo que é vazio de significado. E para aprender a amar o vazio, não precisamos ter posses, nem conhecimento de nada ou manual, aliás nem alfabetamento requer. Digo esse alfabetamento convencional, ler e escrever. Do contrário requer um profundo alfabetamento emocional, é preciso aprender a ler e escrever no vazio. Hoje olho para tudo que busquei um dia, e após minha tão recente experiência com a morte aprendi que é tudo tão mais simples do que eu pensava, a resposta está apenas em aprender a amar o vazio. Mas a sensação que tenho é que alguns amam mais a busca do que o encontro. Mas, há quem ame o encontro também. E o que posso dizer para estes é: escute o vazio, a tristeza, escute a morte. Porque tudo, tudo, tudo é insignificante diante dela. E mesmo assim a nossa libertação está em aprender a amá-la. E o vazio é aquilo que ela traz, é também o que nos faz maiores e melhores; pois é só o vazio que nos preenche.

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la.”
Milan Kundera em A Festa da Insignificância

*são consideradas por algumas linhas da psicologia como emoções primárias: medo, alegria, raiva, tristeza, afeto

flor de lótus