Quem vive a transformação, transforma-se

17499196_10209422815102955_7950868381583403714_n

Passaram 50 anos. Do nascimento até agora, aprendi e apreendi ensinamentos básicos e outros, mais elaborados, que chegaram por acréscimo. Foi a partir dos momentos mais agrestes, dos mais duros e difíceis de atravessar, que retirei os melhores ensinamentos e conquistei defesas para enfrentar adversidades que, de outro modo, me teriam dominado.

 

De um modo geral, a mulher de 50 equilibra-se entre duas forças: de um lado, o peso dos anos e, do outro, a leveza da sua liberdade – a liberdade de não ter obrigação de provar mais nada a ninguém. Quanto muito, apenas a si mesma – se e quando assim o entender.

 

A mulher de 50 não deixa que o tempo nem ninguém atropele os seus projetos. Convive com as suas (im)perfeições e mudanças do corpo. Caso não goste, não entra na histeria desmesurada tão característica de épocas anteriores – onde a insegurança a mantinha escrava de imagens idílicas ditadas por padrões e tricas alheias.

 

A mulher de 50 – casada, solteira ou divorciada – queixa-se das mesmas coisas que a mulher de 30 ou 40: queixa-se da dificuldade em encontrar alguém que a complemente, que a complete, da falta de de companheirismo, dinheiro, da falta de sexo. A diferença é que se sente mais capaz que nunca para dar azo ao que quer para si, para a sua vida.

 

Para a mulher de 30, ter marido é um capital extremamente valorizado e prova definitiva do seu sucesso – mesmo que, na prática, tenha um casamento infeliz – sendo a ausência de casamento vista como um fracasso. A mulher de 50, que já passou pela cobrança dos vários papéis a si atribuídos, vive com a liberdade de ser ela mesma, dá resposta às suas vontades e deixa de parte a obrigação de satisfazer desejos alheios.

 

A mulher de 50 assume, sem preconceito ou inibições, modelos diferentes de relação sem temer opiniões de terceiros ou medo de ser apontada como leviana. Quanto mais capital tem uma mulher, mais se torna livre para não assumir relações enfadonhas. Pelo contrário, assume quaisquer outras desde que obedeçam às suas pretensões.

 

Para a mulher de 50, o envelhecer está a ser reinventado por toda uma geração de mulheres que não aceita as classificações impostas socialmente e que atribui extrema valorização à sua liberdade. Após passar pelas diferentes obrigações de ciclo – arranjar marido, cuidar dos filhos, sexo no casamento sem vontade – considera ser esta a fase de vida em que se sente mais livre para ser ela mesma, definir os seus próprios projectos, fazer novas amizades, cultivar as que merecem a pena e usufruir dos mais diversificados prazeres.

 

A mulher de 50 preocupa-se em usufruir do poder que conquistou, da sua sabedoria, personalidade e da autonomia adquirida. Liga-se à qualidade de vida e ao gozo da sua própria casa, viagens, amizades e programas culturais. Não se sente velha. Sente-se madura, segura e mais confiante que nunca. O envelhecimento deixou de ser vivido como um momento de perda de capital do próprio corpo e da sua sexualidade. Pelo contrário, a mulher de 50 encara, esta fase, como sendo o momento da colheita.

 

Para a mulher de 50, a ruptura com padrões pré-estabelecidos marca o momento de mudança. Não aceita classificações e estigmas sociais e faz, da sua própria vida, uma permanente invenção. Não paralisa. Afasta-se de preconceitos e modelos rígidos do que é ser mulher, ser velha ou ser nova. Reinventa a sexualidade, o corpo, formas conjugais e de relacionamentos, novas formas de ser mãe, reinventa o envelhecer. Não se aposenta de si mesma. Não aceita uma identidade colectiva.

 

A mulher de 50, não dispõe da mesma frescura física da de 30, o peito não tem a densidade de outrora, o cabelo perde força e cor, a pele já não é a mesma. Porém, a mulher de 50, arrasa na pele de mulher madura, sábia, sensual e com experiência de vida. Desempenha, com segurança e leveza, os vários domínios e territórios em que se move e segura firme as rédeas da sua vida.

 

Até há pouco tempo, a mulher deixava de contar quando entrava na menopausa. Algo tido como penoso e vergonhoso. O fim da capacidade de procriar significava o fim do seu sentido de ser. Nem o consolo de uma terapia restava a essa “infeliz”. Como se a mulher se tornasse física e sexualmente incapaz de continuar a viver de forma gratificante. Como se a maternidade – essa dádiva reservada à mulher –  fosse razão do seu histórico infortúnio, encarnando um ser inferior ao homem e consolidando a ideia de mulher como ser menor e nefasto.

 

A cinquentona ‘sortuda’ de hoje, pode optar por estar a léguas de distância de uma boca de fogão e ficar mais perto de uma boca de prazer. Deixou de estar aprisionada em casa e com tudo o que dela faz parte. A fantasia da mulher “sexo frágil” e sinónimo único de “mulher-mãe” foi substituída pela mulher poderosa, sedutora, realizada, livre e independente de pressões alheias. A mulher geradora de filhos dá lugar à mulher geradora do seu próprio prazer, à mulher profissional, à mulher de corpo inteiro.

 

Todas estas mudanças fizeram com que a mulher chegasse hoje aos 50 como sendo um mulherão invejável. Cinquenta anos é um marco para a mulher. Como se se tratasse de um clique que dá início à vivência de libertação. É o momento em que a mulher deixa, maioritariamente, de cuidar dos outros – casa, filhos, marido, pais – em que deixa de se preocupar com o que os outros pensam e dizem, deixa de estar virada para fora e coloca o foco em si e nas suas vontades.

 

A medicina, a tecnologia e o avanço em vários campos, são os seus grandes aliados. Sente-se física e psicologicamente bem, tem a segurança que chega com a idade e a experiência que faz dela um furacão.

 

A mulher de 50 permite-se envelhecer bem, cuida-se, não quer engordar e faz ou pondera fazer, pequenas intervenções ou correcções. É a segunda metade de vida. É o período em que se dá o processo psicológico mais importante: o da busca da identidade profunda de quem é e o assumir do que é e quer. Fá-lo de forma leve e livre.

 

A minha felicidade nunca passou por ter marido e filhos. Mulheres como eu são muitas vezes vistas como ETs ou sem coragem suficiente para assumir a sua homossexualidade. Não me incluo em nenhum destes dois grupos. Incluo-me no grupo de quem quer ser feliz para além dos modelos tradicionais.

 

Toda a vida corri atrás dos meus sonhos. Hoje corro à sua frente com a maturidade conquistada. Casar e ter filhos nunca fez parte do meu projecto de vida. Nunca aceitei ter uma vida segundo o modelo que a sociedade criou. Optei por ter uma vida plena – mas traçada e definida por mim. “Ficar com alguém até que a morte nos separe?” Nunca tinha pensado nisso – senão agora. Não por medo de ficar sozinha. Mas por vontade de me entregar, livre e consciente, a quem ame, me ame e mereça. Foi preciso chegar aos 50 para ver, nessa hipótese, o sorriso de liberdade, felicidade e determinação.

 

Quem vive a transformação, transforma-se. E a mulher de 50 tem tudo para o conseguir e conquistar. Mais do que ganhar autonomia financeira, a mulher de 50 adquire autonomia existencial. Acreditem: ser mulher aos 50, é do caralho!

Texto : ISABEL FEIO

 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s