Covinhas…

 

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As covinhas femininas são a primeira experiência nuclear bem sucedida. Provavelmente, um buraco provocado por alguma divindade revoltada com a gigantesca discrepância entre feiura e beleza. Explico.

A primeira vez que vi uma mulher com covinhas nas bochechas, eu tinha entre sete e oito anos de idade. Obviamente, já devia ter visto mulheres com covinhas antes. Mas estou me referindo a um momento específico. Falo na pequena aptidão para reparar em pequenos detalhes. “Pequenos detalhes”: parece até pleonasmo. Mas não é.

No caso das covinhas, é algo pequeno só em tamanho mesmo. Do ponto de vista da beleza produzida pelo efeito, trata-se de um detalhe enorme. Um daqueles objetos anatômicos responsáveis por separar as mulheres em grupos: as instintivamente interessantes e aquelas que precisam se esforçar.

O primeiro par de covinhas que eu vi pertencia à secretária do meu dentista. Devo ter sido a primeira criança, nessa idade, a abandonar todas as reclamações ao ouvir a palavra “dentista”. Adoro ir ao dentista, até hoje. E foi meu pai quem ouviu o meu primeiro grande furo jornalístico: “pai, aquela mulher tem a cara furada! Mas, às vezes, não aparece. Olha!”, apontei com uma vontade assustadora de olhar o fenômeno muito de perto.

Fui contido pela mão pesada do meu pai, segurando meu braço com força. Ele evitava o abandono do meu lugar na cadeira da sala de espera. Eu só queria chegar mais perto e entender. Ela devia estar desesperada para não ser devorada por uma criança faminta com uma visível propensão para o canibalismo. Felizmente, esqueci o fenômeno logo que me colocaram sentado na cadeira do velho dentista por alguns longos minutos.

Ao me despedir, a elegante moça das covinhas havia trocado seu turno por outra mulher. Sem covinhas.

Da secretária com covinhas, só lembro que seus sorrisos eram mais escassos do que realmente deveriam ser. Acho que essa é a sensação que mantenho desde então a respeito disso. Mulheres com covinhas jamais sorriem o suficiente. É um eterno duelo entre a vulgaridade dos sorrisos falsos e a beleza de uma dupla de bochechas com covinhas.

No caso da secretária, os sorrisos escassos impediam a apresentação das covinhas com a frequência necessária para satisfazer minha mistura de curiosidade e desejo. É difícil imaginar algo que tem como exigência para se manifestar o sorriso, do qual faz parte como um fenômeno endógeno.

Qualquer tipo de explicação sobre as fibras da pele e a musculatura da face não é suficientemente abrangente para detalhar suas causas, muito menos seus efeitos. É o que separa a beleza feminina de todas as outras belezas. Covinhas nas bochechas afeminam os homens. Nas mulheres, é algum desses mistérios religiosos materializados: estranho, antes da experiência; e lindo quando materializado.

Sobrevivi, mas sem nunca esquecer aquela primeira imagem.

Honestamente, não lembro: era uma secretária magra, gorda, alta, baixa, feia ou bonita? Não sei. Brevemente, recordo o sorriso inicial, o fato de ela ter ficado assustada com minha reação ridícula e infantil. Lembro-me ainda de dois sorrisos simpáticos, subsequentes, dados ao telefone, instrumento de trabalho maldito, responsável por dificultar minha visão das covinhas. Eu estava posicionado num ângulo muito ruim.

Em alguns casos, covinhas são ovos fritos com azeite de oliva. As covinhas são o único elemento estético invariavelmente belo do corpo feminino. Magras, gordas, altas, baixas, loiras, morenas, ruivas, orientais. Não importa. Covinhas nascem bem em qualquer mulher.

 

Escrito por Everton Maciel
Everton Maciel é gaúcho e não suporta bairrismo. Só tolera bares que não permitem camisas polo. Nasceu jornalista, mas fez mestrado em Filosofia e mantém um blog próprio, o Blog do Maciel. Tem Facebook e Twitter

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