Por que as mulheres permanecem em relacionamentos abusivos – Por: Bruna de Lara

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Primeiramente, é importante deixar muito claro que não precisa haver agressão física para haver abuso. O abuso psicológico pode ter consequências tão graves para a vítima quanto um ataque físico, impactando severamente sua autoestima e confiança. A vítima passa a acreditar em tudo que seu parceiro diz, podendo sentir-se menor, desinteressante, feia, incapaz de corresponder às expectativas do parceiro e até mesmo totalmente desprovida de valor.

Para quem nunca passou por um relacionamento abusivo, é fácil supor que os atos cometidos pelo agressor são absurdos demais para passarem despercebidos. Porém, não é bem assim. De forma geral, a vítima de um relacionamento abusivo tem roubada a capacidade de agir de acordo com seus interesses, devido ao controle e à manipulação extrema a que é submetida. Além disso, seus sentimentos pelo agressor e a culpa que ele instaura nela mascaram o abuso sofrido. A princípio, ela não enxerga seu parceiro como um agressor, mas sim como a pessoa que ama e que retribui seu amor.

É possível também que, em alguns relacionamentos de abuso severo, o abuso sexual seja em parte o que mantém a vítima ligada ao agressor [1]. Como o sexo de alto risco ou coação é uma relação de poder e coerção que leva a danos psicológicos (e às vezes físicos), é possível que ele leve a vítima a desenvolver a Síndrome de Estocolmo. Embora soe estranho, podemos dizer então que a intimidação sofrida pode, em alguns casos, fortalecer o laço entre a vítima e seu agressor.

Ainda que o abuso seja de fato percebido pela vítima, entretanto, ainda pode haver diversos motivos que fazem com que a mulher se mantenha no relacionamento, como o medo de recriar a sua identidade após tanto tempo voltando seu eu em torno do agressor; o medo do desconhecido; a vergonha de admitir que o relacionamento não deu certo; a esperança de que a pessoa vá mudar ou o amor pelas características boas da pessoa [2].

A vítima pode também acreditar que seu parceiro a abusa sem perceber ou que ele está simplesmente passando por uma fase ruim. Porém, o abuso não ocorre de forma não-intencional. O agressor tenta de modo sistemático ganhar poder no relacionamento. Para isso, faz uso da culpa e da manipulação, limitando as opções da vítima e controlando-a, acreditando que isso a torna sua posse. Como foi colocado em um post sobre relacionamentos abusivos publicado pela Revista Capitolina: “A pessoa é responsável pelas agressões e abusos SIM. Aceite, quem está nesse relacionamento com você É uma pessoa abusiva. Essa característica faz parte da pessoa, não vai sumir do nada numa bela manhã de sol em julho”.

Além disso tudo, colocar o parceiro no papel de agressor significa também colocar a si mesma no papel de vítima – e isso pode ser muito difícil para algumas mulheres. Afinal, você não pode ser essa pessoa. Você é uma mulher forte, independente, feminista. Você teria percebido se algo tão ruim tivesse acontecido com você e teria sido capaz de se livrar logo dessa situação, não é mesmo? Não. Não necessariamente.

Como já vimos, existe uma tonelada de motivos que fazem com que você tenha dificuldades para ver a gravidade do que se passa com você. E nenhum – repita consigo mesma: NENHUM – deles é culpa sua. Você pode pensar que era seu dever proteger a si mesma e que, portanto, é sim sua culpa não ter saído logo do relacionamento. Bom, depois de meses ou anos em um relacionamento no qual você era levada a sentir culpa por absolutamente tudo que acontecia, não é de surpreender que você possa pensar que é também culpada por ter se “deixado” abusar. Mas isso não é verdade.

Se uma amiga tivesse passado pelo mesmo que você, você a culparia? Ou seria a primeira pessoa a dizer que é extremamente corajoso da parte dela reconhecer que foi sim uma vítima, que ela não tinha como saber o que estava acontecendo e que nunca fez nada para merecer isso? Se você seria essa pessoa, por que não ter a mesma compaixão consigo mesma? Não relativize sua dor. Lembre-se: a culpa nunca é da vítima. NUNCA. Mesmo quando a vítima é você.

 

[1] SAMSEL, M. Sexual abuse. Disponível em: <http://bit.ly/1Igh3Ra> Acesso em: 23 jul. 2015.

 

[2] PIUCCO, P; SOTER, S. Relacionamentos abusivos. Revista Capitolina. Disponível em: <http://bit.ly/1fp25RJ&gt; Acesso em: 23 jul. 2015.

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