Rubem Alves

Este texto tem um pouco a ver talvez com o meu momento, quem sabe, com o seu também. O seu título é OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA.
Esse para mim é um dos livros mais lindos dele (Só perde para o Amor que acende a lua!).
Num dos textos dessa obra Rubem relembra como nasce a pérola que, na verdade, deriva de uma agressão à ostra. Essa agressão não se dá na casca dela, ou seja, no lado externo, e sim, no seu interior. Para se proteger do agente agressor que a fere, a ostra começa a liberar um material que isola aquele intruso e que vai formando camadas e mais camadas em seu entorno, até se transformar naquilo que é o desejo de consumo de muita gente: uma linda e reluzente pérola.
E ele faz a conexão dessa situação da ostra, conosco, seres humanos.
Todos nós passamos por momentos da vida em que somos agredidos, machucados, magoados. As vezes nos ferimos imensamente. As vezes essas dores são causadas por termos ferido alguém. E isso gera uma dor muito grande dentro de nós. São as chamadas “dores da alma”. E assim como a ostra, nós também tentamos nos “proteger” da dor. 
Alguns criam uma espécie de “capa” no sentimento para fazer de conta que ele não existe, não está ali. Seja por incapacidade de olhar pra ele, de suportar sua intensidade, de descobrir sua participação nele, seja porque deseja fugir mesmo daquilo. Para isso se anestesiam, dopam-se ou de remédios ou de drogas diversas, ou ainda, foge através do bloqueio mental, da negação, para poder “dar conta” de necessidades do momento, afinal é preciso trabalhar, sobreviver pois a vida continua. E jogam-no lá no “lixão” da mente. 
Esses, apesar de momentaneamente conseguirem o amortecimento da dor, não a resolvem, deixam ela lá latente, prestes a explodir a qualquer momento, bastando para isso um agente catalisador. E quando ela não explode, vai com o tempo encrustando dentro da gente, virando uma espécie de capa dura. Vai nos “endurecendo” o sentimento, nos anulando por dentro, nos consumindo. Aos poucos perdemos o sentido de viver, o prazer na convivência conosco e com o outro, vamos azedando, nos tornando pessoas pesadas, densas, amargas. Morremos por dentro, adoecemos. Por fora, vamos definhando a olhos vistos. Estes, enquanto não tiverem a coragem de olhar “para o intruso”, nesse caso o sentimento que tenta negar, não obterão cura, não realizarão seu crescimento emocional. Não transformarão isso em mudança. Não virarão pérola.
Para virar pérola a gente precisa receber a dor e aceitá-la. Ter a coragem de vivê-la, senti-la, por maior que ela seja. É preciso identificá-la dentro de nós, nominá-la e não ter medo. Falar dela, chorar num ombro amigo ou sozinho, confiar em alguém para compartilhar essa dor. Porque a dor que se compartilha fica mais leve, mais suportável. Não a transferimos para o outro, mas falar dela com alguém faz com que ela deixe de nos assustar porque tivemos a coragem de vê-la, ouvi-la, conversar com ela. Perdoá-la e nos perdoar. 
É a partir dessa “aceitação” e vivencia que começamos a soltar o “nácar” (o material que a ostra libera para envolver o intruso que a fere) para envolver aquela ameaça interna que nos agride. Começa ai a bela construção de algo melhor, mais bonito, mais pleno dentro de nós. É o momento de trabalhar com afinco, com carinho, com amor por nós mesmos. Sem medo, sem amarras, com fé e autoaceitação.
E desse movimento interno de “transmutação”, o agente intruso que antes nos incomodava é transformado em um ponto de luz e nós começamos a nos tornar belas pérolas. Seres melhores, mais leves, mais felizes. Mais plenos.
Ah Rubem, você, de fato, sabia o que estava dizendo meu amigo. 
Todos nós somos ostras que a vida precisa, de vez em quando, invadir para que possamos nos tornar pérolas. Caso contrário morreremos apenas como algo duro por fora e mole por dentro, deixando nos outros apenas a sensação de uma satisfação momentânea, perecível. 
A pérola, não!! Transformar-se nessa pedra preciosa significa encantar a vida de alguém por muito tempo, através da beleza que de si emana. Ficar em sua memória.
E ai vem a inevitável pergunta: você está se mantendo uma ostra, fechado para a vida, ou se transformando numa linda pérola?!
Bjs.
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OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA
 
Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores.
 
Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.
 
Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário… Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste… As ostras felizes riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.
 
O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. 
 
Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava.
 
Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz…”
 
Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos.
 
As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma.
 
Rubem Alves
Fonte- mudandoavistadoponto
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2 pensamentos sobre “Rubem Alves

  1. Betinha,
    Desde sempre os humanos lançam mão de metáforas e fábulas para transmitir ensinamentos. O Rubem Alves foi um mestre nessa arte.
    Eu costumo dizer que pessoas muito felizes, cujas vidas são pateticamente lineares, não me atraem, me causam um certo tédio. Gosto de quem tem histórias para contar, de seus altos e baixos, de suas derrotas e vitórias, de seus sorrisos e lágrimas, porque desse pode-se dizer: está vivo!
    Beijinho

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