ENTRE O QUE FIZ E O QUE NÃO FIZ – Fabrício Carpinejar

Tenho um porta-jóias de remorsos.

Eu me arrependo de roubar rosas da casa da minha professora. Eu me arrependo de não permitir meu irmão caçula entrar em campo para me substituir. Eu me arrependo de estragar a festa de quinze anos de Aline com minha bebedeira. Eu me arrependo de troçar de amigos para me dar bem com a turma. Eu me arrependo de não dançar com medo do vexame. Eu me arrependo de mentir para me valorizar. Eu me arrependo de não ser paciente com o tempo dos outros. Eu me arrependo de maldade com o cachorro que se aproximava de casa. Eu me arrependo de arrogância da última palavra. Eu me arrependo da cola que neguei ao Thiago. Eu me arrependo de faltar voz nos pesadelos e não contar os sonhos. Eu me arrependo do mau-humor em algumas viagens. Eu me arrependo de terminar relacionamentos com o esquecimento. Eu me arrependo de furtar lâmpadas e quebrar vidraças na vizinhança. Eu me arrependo de não ajudar colegas que foram demitidos. Eu me arrependo de provocar briga para transferir minha raiva. Eu me arrependo de não ir ao enterro de meus avôs. Eu me arrependo de não ter sido honesto em minha primeira transa. Eu me arrependo da porcelana chinesa que quebrei. Eu me arrependo de não juntar os cacos debaixo da geladeira. Eu me arrependo do sofrimento que foi fácil. Eu me arrependo de decidir minha morte para chamar atenção. Eu me arrependo de não trancar a porta, o diário, a boca. Eu me arrependo de me masturbar pensando nas freiras. Eu me arrependo de não ter sido fiel ao abacateiro e abandoná-lo ao corte. Eu me arrependo de não lutar contra o ódio da ex-mulher. Eu me arrependo de dizer o que penso quando deveria dizer o que sinto. Eu me arrependo de piorar minha letra para não ser compreendido. Eu me arrependo de inventar febre para escapar das provas. Eu me arrependo de esperar meu pai fazer as pazes. Eu me arrependo de não compreender a carência de minha mãe. Eu me arrependo das fofocas que espallhei em nome de um segredo. Eu me arrependo de ter magoado minha mulher pela soberba. Eu me arrependo de procurar razões aos meus desejos. Eu me arrependo das promessas aos filhos de chegar cedo.

Mas o que me arrebenta é o que deixei de fazer.
O remorso do que aconteceu é sempre menor do remorso do que não fiz.

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