As cores de Almodóvar

Pedro Almodóvar, nd -by Ruven Afanador
No caos dos amores e dos relacionamentos, o absurdo transparece e se transfigura em situações plausíveis. Entre cores berrantes, figurinos extravagantes, personagens caricatos, situações delirantes e exageradas, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar exercitou a arte de tornar verossímil o estranhamento do ser humano com as suas próprias contradições. E o universo cinematográfico de Almodóvar flutua no diálogo entre o racional e o instinto do homem.

Esta dicotomia tênue da condição humana explode na tela no formato de uma multiplicidade de idéias e sensações. É deixar se envolver com o plural das vivências, com o acaso das escolhas. E também é, de certa forma, descobrir que todos nós temos o nosso lado brega. O kitsch tornou-se marca registrada da filmografia deste cineasta, que nasceu na década de 50, na Calzada de Calatrava, província de La Mancha, a pátria amada de Dom Quixote.

Educado na infância em colégio interno de padres, Almodóvar parte para Madri, onde começa a trabalhar em uma companhia telefônica. Nos tempos livres, ele freqüentava grupos de teatro, galerias de arte e viajava sempre que possível para Barcelona, point das vanguardas na época. Em 73, Almodóvar realiza seus primeiros curta-metragens em preto-e-branco, no formato Super 8. Na década de 80, o cineasta engaja-se na ”movida madrile¤a”, período de efervescência cultural motivada pela redemocratização da Espanha após o fim da ditadura de Franco (1892 – 1975). É nesse período que vem o seu primeiro longa-metragem: Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón.

Para sobreviver em Madri, Almodóvar participou de uma banda de rock, atuou como drag-queen numa boate e publicou histórias em quadrinhos. Colaborou com artigos para revistas e jornais alternativos sob o pseudônimo de Patty Diphusa. Tenta enveredar pela literatura com o romance pornô-humorístico Fogo nas Entranhas, de 1981. Mas as habilidades de Almodóvar seriam tragadas pelo cinema, quando passa a fazer um filme por ano. Labirinto de Paixões, Maus Hábitos e O que fiz para merecer isto? são os longas iniciais e os menos conhecidos do público em geral. Com Matador, Almodóvar lança a carreira de Antonio Banderas, que também atuou em A Lei do Desejo e Ata-Me!.

O reconhecimento internacional veio com a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1988 por Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. É com esta produção que Almodóvar lança as bases para uma série de filmes tragicômicos e melodramáticos. Nada parecido com qualquer chatice novelesca. Para trabalhar as emoções na passagem do amor ao ódio sem meio-termos, o cineasta centra o foco no universo feminino. ”Os homens também choram, mas penso que as mulheres choram melhor. Elas não conhecem nem o pudor nem o sentido do ridículo, nem essa coisa horrível que chamam de amor próprio”, afirmou para a imprensa espanhola em 2002.

No ritmo melódico do bolero, as heroínas dos filmes de Almodóvar vivem constantemente situações de traição, solidão, sofrimento e desespero. O espectador se identifica facilmente com as adoráveis mulheres almodovianas, como a protagonista-título de Kika, a Marina de Ata-Me!, a Elena de Carne Trêmula, a Manuela, a Nina e a Hermana, de Tudo Sobre Minha Mãe, a Lydia e a Alicia, de Fale Com Ela. O turbilhão de sentimentos encontra espaço nos cenários, onde o uso de cores vivas fragiliza a fronteira entre o cinema e a pintura. Vermelho, azul, laranja, rosa e verde fundem-se na desordem de manifestações geométricas, inspiradas nos quadros de Mondrian e Gatti.

Nos três últimos filmes (Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e o recente A Má Educação), Almodóvar atinge a maturidade ao amenizar o emaranhado de elementos provocantes para valorizar o lirismo e a poesia das contingências da vida humana. E nesse intervalo efêmero, a tentativa de compartilhar sonhos, anseios e desejos com o outro. Personagens que compreendam e sejam compreendidos, ainda que imersos no colorido das paixões.

Obs: Matéria publicada no Jornal O Povo em 12/11/2004

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