As Cores de Frida Khalo

Frida Kahlo (1907-1954), pintora mexicana que realizou principalmente auto-retratos, nos quais utilizava uma fantasia e estilo inspirados na arte popular do seu pais. Os seus quadros representam fundamentalmente a sua experiência pessoal, em particular os aspectos dolorosos da sua vida que foi em grande parte passada na cama. É expressa a desintegração do seu corpo e o terrível sofrimento que padeceu em obras como “A coluna, 1944”.

 
 Para se entender as pinturas de Frida Kalho é necessário conhecer a sua vida.

Frida Nasceu em 1907 no México, mas gostava de declarar-se filha da revolução ao dizer que havia nascido em 1910. Sua vida sempre foi marcada por grandes tragédias; aos seis anos contraiu poliomelite, o que à deixou coxa. Já havia superado essa deficiência quando o ônibus em que passeava chocou-se contra um bonde. Ela sofreu multiplas fraturas e uma barra de ferro atravessou-a entrando pela bacia e saindo pela vagina. Por causa deste último fez várias cirurgias e ficou muito tempo presa em uma cama.

Começou a pintar durante a convalescença, quando a mãe pendurou um espelho em cima de suacama. Frida sempre pintou a si mesma: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”. Suas angustias, suas vivências, seus medos e principalmente seu amor pelo marido Diego Rivera.

A sua vida com o marido sempre foi bastante tumultuada. Diego tinha muitas amantes e Frida não ficava atrás, compensava as traições do marido com amantes de ambos os sexos. A maior dor de Frida foi a impossibilidade de ter filhos (embora tenha engravidado mais de uma vez, as seqüelas do acidente a impossibilitaram de levar uma gestação até o final), o que ficou claro em muitos dos seus quadros.

Os seus quadros refletiam o momento pelo qual passava e, embora fossem bastante “fortes”, não eram surrealistas: “Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei minha própria realidade”. Frida contraiu uma pneumonia e morreu em 1954 de embolia pulmonar, mas no seu diário a última frase causa dúvidas: “Espero alegremente a saída – e espero nunca mais voltar – Frida”. Talvez Frida não suportasse mais.

Se há figura do século XX pela qual tenho um absoluto fascínio, é a Frida Kahlo. Não me canso de ler sobre a sua história, não me canso de ver os quadros.Ontem à noite, a pensar nisto, fui pegar no maravilhoso livro da Alexandra Lucas Coelho, Viva México, e reler a parte sobre a Casa Azul, onde Frida viveu, pintou e esteve presa a uma cama durante tantos anos. E por mais que leia, por mais filmes que façam, é sempre inacreditável o que esta mulher sofreu e como transformou isso em arte de uma forma tão hipnotizante.

Começou tudo logo na infância, Frida foi sempre diferente dos outros, para o bem e para o mal. Logo em pequena teve poliomelite e ficou com uma perna atrofiada. Com aquela crueldade típica das crianças, ganhou a alcunha de “Frida perna-de-pau”, até estar envolvida num mega acidente, aos 18 anos. Como conta a Alexandra Lucas Coelho no tal livro Viva México, tinha apanhado um ônibus para o centro da cidade quando um acidente a esmagou contra a parede. “Um corrimão de aço entrou pela anca de Frida e saiu pela vagina, partindo-lhe a coluna pelo caminho. E como tudo isto aconteceu no México, o seu corpo foi coberto por ouro em pó, porque o impacto apanhou um restaurador a caminho do trabalho.” Seguiram-se 35 operações à coluna, vários abortos, a impossibilidade de ter filhos, a amputação dos dedos do pé e depois da perna. Pelo meio, Frida nunca deixou de pintar, e pintou aquilo que sofria, presa a uma cama, “com a cabeça presa por faixas e cabos”.
Quando Frida morreu, o seu marido Diego Rivera guardou todos os seus objetos no banheiro da Casa Azul (a casa onde viviam e que é hoje uma casa museu), e “deixou indicações para que não fosse aberta antes de passarem 15 anos sobre a sua morte”. Aqui, toda esta história ganha contornos ainda mais irreais, porque a responsável pelo espólio nunca quis abrir o banheiro e passaram-se 50 anos assim. Só em Abril de 2004 é que os novos responsáveis pelo espólio decidiram lá entrar. Encontraram próteses, roupas – há um livro que deve ser maravilhoso só sobre as roupas de Frida Kahlo – e mais de seis mil fotografias que a pintora foi tirando ao longo da vida.

Self-portrait with Necklace, 1933
Frida Kahlo Self Portait With Necklacerobinson4-29-3

Self-Portrait (Dedicated to Leon Trotsky)
2005012300 Kahlo Trotsky

The Broken Column

2005012301 Kahlo The Broken Column

Frases e pensamentos de Frida Kahlo


”Origem das duas Fridas. Recordação. Devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina de minha idade. (…) Não me lembro de sua imagem, nem de sua cor. Porém sei que era alegre e ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse nenhum peso. Eu a seguia em todos os seus movimentos e contava para ela, enquanto ela dançava, meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Porém ela sabia, por minha voz, de todas as minhas coisas…”Diário de Kahlo, sobre a tela As Duas Fridas
”Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida.Vou esperar mais um pouco…”

[Em 27 de julho de 1953, Frida tem a perna direita amputada até a altura do joelho. Em seu diário, encontra-se o desenho da perna amputada como uma coluna rodeada de espinhos, com a legenda: ”Piés para qué los quiero si tengo alas pa’ volar”.]

”Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente – como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.”

”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

”Não estou doente. Estou partida. Mas me sinto feliz por continuar viva enquanto puder pintar.”

”E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo.”

”Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar de tudo isso. Creio que trabalhar é o melhor.”

Da autobiografia datada de 1953

”Estou quase terminando o quadro que nada mais é que o resultado da tal operação. Estou sentada à beira de um precipício – com o colete em uma das mãos. Atrás estou deitada numa maca de hospital – com o rosto voltado para a paisagem – um tanto das costas está descoberto, onde se vê a cicatriz das facadas que me deram os cirurgiões filhos de sua… recém-casada mamãe.”

Sobre a obra ”A Árvore da Esperança”

”(E o que mais dói) é viver num corpo que é um sepulcro que nos aprisiona (segundo Platão) do mesmo modo como a concha aprisiona a ostra.”

”Me parece que a coisa mais importante na Gringolândia é ter ambição e se tornar ‘somebody’, e francamente, não tenho a menor ambição de ser ninguém.”

[Frida não gostava dos EUA, a quem chama sempre de Gringolândia. Acha os ‘gringos’ , como diz, ‘arrogantes de nascença’.]

”Ele leva uma vida plena, sem o vazio da minha. Não tenho nada porque não o tenho.”

Em referência ao marido Diego

”Estive doente durante um ano: 1950-1951. Sete operações na coluna. O Dr. Farill salvou-me. Restituiu-me a alegria de viver. Ainda estou numa cadeira de rodas e não sei quando poderei voltar a andar de novo. Tenho um colete de gesso que, em vez de ser horrivelmente ‘maçador’, me ajuda a suportar melhor a coluna. Não sinto dores, só um grande cansaço… e, como é natural, por vezes desespero. Um desespero indescritível. No entanto quero viver. Já comecei o pequeno quadro que vou dar ao Dr. Farill e que estou fazendo com todo meu carinho por ele.”

”Querem que eu retrate cinco mulheres mexicanas importantes em nossa história; faço pesquisas para saber que tipo de baratas foram essas heroínas, que tipo de psicologia era o seu fardo, a fim de, ao pintá-las, as pessoas possam diferenciá-las das mulheres comuns e vulgares do México, as quais, para mim, são mais interessantes e poderosas do que as damas mencionadas.”

”Estou pintando um pouco, sinto que aprendi algo e estou menos estúpida do que antes.”

”Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.”

”Acho que é melhor nos separarmos e eu ir tocar minha música em outro lugar com todos os meus preconceitos burgueses de fidelidade.”

‘Toda esta raiva simplesmente me fez compreender melhor que eu o amo mais do que a minha própria pele, e que, embora você não me ame tanto assim, pelo menos me ama um pouquinho – não é? Se isto não for verdade, sempre terei a esperança de que possa ser, e isso me basta…”

Em referência a Diego

”Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?”

”O México, como sempre, está desorganizado e confuso. A única coisa que lhe resta é a grande beleza da terra e dos índios. Todos os dias, a parte feia dos Estados Unidos rouba um pedaço; é uma lástima, mas as pessoas têm que comer e é inevitável que os peixes grandes devorem os pequenos.”

‘Eu vou mal e irei pior ainda mas aprendo pouco a pouco a ser só, e isso já é alguma coisa, uma vantagem, um pequeno triunfo.”

”Por que o chamo meu Diego? Nunca foi, nem será meu. É dele mesmo.”

A última entrada em seu diário: ”Espero a partida com alegria… e espero nunca mais voltar… Frida”

”Meu pai foi para mim um grande exemplo de ternura, de trabalho… e acima de tudo de compreensão de todos os meus problemas.”

Gringolândia

”Por outro lado, e essa é uma opinião pessoal minha, apesar de compreender as vantagens que os Estados Unidos oferecem para qualquer trabalho ou atividade, prefiro o México, os gringos me caem mal com todas as suas qualidades e defeitos que também são grandiosos, me caem mal sua maneira de ser, sua hipocrisia e seu puritanismo asqueroso, seus sermões protestantes, sua pretensão sem limites, essa mania de achar que para tudo devem ser ‘very decent’ e ‘very proper…’ Sei que esses daqui [no México] são ladrões, cabrões, etc. […], mas não sei por que, por mais que façam bandalheiras, as fazem com um pouco de senso de humor, ao passo que os gringos são ‘sangrones’ de nascença, embora sejam hiper-respeitosos e decentes.

”Além do mais, seu modo de vida me é chocante, essas ‘parties’ cabronas, onde se resolve tudo depois de ingerir fartos coqueteizinhos (nem sequer sabem se embriagar de maneira agradável), desde a venda de um quadro até uma declaração de guerra, sempre levando em conta que o vendedor do quadro ou o declarador da guerra seja um personagem ‘important’, de outro modo não lhe dão a mínima bola, lá só apitam os ‘important people’ [….].

”Você poderá me dizer que também se pode viver lá sem os coqueteizinhos e sem as ‘parties’, mas então você não passa de um zé-ninguém e sei perfeitamente que o mais importante para todo o mundo na Gringolândia é ter ambição, chegar a ser ‘somebody’ e, francamente, eu já não tenho a mais remota ambição de ser ninguém [….], não me interessa em nenhum sentido ser ‘la gran caca’.”

Frida Kahlo e Diego Rivera em 1934, fotografados no México

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5 pensamentos sobre “As Cores de Frida Khalo

  1. Tenho muito a desvendar,,,mas já estou gostando do que estou vendo…bjs

  2. Tenho reparado, (já há muito tempo), que publica constantemente fotos e pinturas de Frida Kahlo, no Facebook, porque só descobri o seu blogue agora…
    Ouvia falar desta pintora, mas consigo aprendi a conhecê-la melhor ; e a gostar dela, como mulher, e como pintora…
    Quasi todas as fotos, e reproduções de pinturas, meto no meu Mural, e têm sido muito apreciadas, pelos meus amigos, virtuais, ou não…
    Agradeço-lhe a sua atenção, e o seu bom gosto !
    Cumprimentos,
    fernando@lmeida*
    No Facebook : Fernando Carreiros

  3. Já escrevi o meu comentário acima…
    Pode ver o meu MURAL, em nome de Fernando Carreiros
    Obrigado,
    f. ————————– @.

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