INSÔNIA – Fabrício Carpinejar

  

Gravura de Paul Klee 

 

Queria ter um corpo para dormir. A casa dorme em paz. A paz sempre é barulhenta. A respiração dos filhos é como uma chaleira que me faz chegar perto. Lembro do cueiro, dos paninhos, dos aventais, dos bordados, das fraldas, das gavetas assistidas diariamente. Não faltaram panos para esticar a infância. Cheiro a nuca, contorno as golas, arrumo suas cobertas e a respiração deles não deixa a minha boca. Será que o vento que apaga a chama não é luz também? A chama é apenas um vento visível. Talvez seja assim.

De pequeno, mirava o céu durante horas a descobrir quem soprava as estrelas. Acreditava que as estrelas eram nuvens que não foram capturadas. A noite não ri para as fotos. Não dormirei de olhos limpos. Não lavarei os meus olhos ao acordar. Ficarão sujos, sujos daquilo que ainda não vi. Sujos como o uniforme da escola, entre a gripe e a fome. Sujos da euforia de escorrer o queixo com a fruta. Sujos dos beijos do chão. Sujos do ciúme, da ponta das unhas na pele, das pontas do cigarro pisados. Sujos da ventilação do sangue. Sujos da ciência do soluço. Sujos do balcão das oliveiras. Sujos do que ainda não amei ou não podia amar ou julguei desnecessário amar e hoje me faz uma falta danada. Não fecho o meu caixa, devo ter somado errado, devo ter deixado alguém de fora da minha indecisa eternidade. Sujos de quem atravessou o meu caminho e não troquei um aceno sequer. Sujos da insatisfação que poderia ser desejo se fosse mais organizada. Sujos do tanque de pedra, do limo do tanque de pedra. O tanque de pedra de minha avó era tão verdadeiro. Não há verdade igual, ao menos verdade que tenha nascido de ventre feminino e não da boca de um homem. As roupas de molho recebiam braçadas de figos ao longo do entardecer.

 Minhas roupas cheiravam a figueiras. Corriam espantadas de pássaros. Eu me distraio. Distraído dos filhos à perturbação dos astros, dos astros ao nervosismo dos chinelos, dos chinelos aos remédios vencidos, dos remédios ao sentinela que come a marmita diante do televisor, do sentinela ao cachorro revirando o lixo, do cachorro ao carro que passa sem reparar que estou aqui no quarto andar de minha paz. Na aula, vivia distraído com o que acontecia fora da aula. Fora da aula, distraído com o que acontecia dentro da aula. No casamento, distraído com o que acontecia fora do casamento. Fora do casamento, distraído com o que acontecia no casamento. Eu me disperso com facilidade. Minha dispersão é amor avulso. Se me despedir, as ervas continuarão surgindo das frestas do muro. Se me despedir, o corpo não deixará de ser água correndo. Não me despeço, me disperso, porque crescerei contra a minha própria vontade. Sou possessivo, que mal há nisso? Sou possessivo. Nada melhor do que chamar “minha mulher”, “meus filhos”, “minha alegria”. Não posso deixar as lembranças se tornarem impessoais. Meu egoísmo é enraizamento. Às vezes me bate um desejo de viver tanto, tanto, que até me esqueço de falar.

Fabrício Carpinejar

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