Fabrício Carpinejar

 

 

UMA CLARIDADE

O dia aqui está laranja. Como nossa infância. Laranja, recordas? Laranja que a gente pensava que emanava das lajes ou do telhado, mas vinha das mãos mexendo no futuro. Laranja de um sorvete que não existia, a não ser na luz que o comia. Laranja como a nossa convicção. Nunca pensei em laranja para vestir, hoje me acordei dentro dessa cor e lembrei o que não sabia. Laranja do interior da fruta, não da casca, do sumo que fica organizado para a boca e distribuído em lágrimas empacotadas, com o rigor de penas de um pássaro. Laranja dos olhos arregalados em fotografias. Laranja cristalino. Laranja crespo. Laranja como a crista do galo quando ele dorme. Laranja como a língua depois do xarope. Laranja como os pés depois de caminhar muito na areia. Laranja como as pontas dos dedos depois da maconha. Laranja como um pasto depois da fogueira. Laranja como a iluminação no túnel. Laranja da grama queimada na praia. Laranja de um chapéu de feltro guardado no armário. Laranja de uma cadeira de palha de três gerações. Laranja como o silvo do trem. Laranja como cavalos em celeiro. Laranja como um grito de criança na piscina. Laranja como um pátio sem cachorro. Laranja como um colete de lã dado pela tia. Laranja como o peito de um pássaro na minha grade. Laranja como uma lanterna de pilha fraca. Laranja como velas de igreja. Laranja como os joelhos invisíveis das abelhas. Laranja como um segredo enrugado. Laranja é quase loucura, se não fosse casa.

*Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar, como passou a assinar em 1998 (Caxias do Sul, 23 de outubro de 1972) é um poeta e jornalista brasileiro. Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, adotou a junção de seus sobrenomes em sua estréia poética, As solas do sol, de 1998. Em 2003 publicou, pela editora Companhia das Letras, a antologia Caixa de sapatos, que lhe conferiu notoriedade nacional. É mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

fonte:http://www.carpinejar.blogger.com.br/2005_05_01_archive.html

Entrevista fantástica no Jô!!!! Demais!

 

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Um pensamento sobre “Fabrício Carpinejar

  1. – Texto e gravura belos! Me lembrou “Trem das Cores” de Caetano Veloso…”o azul da seda que envolve a maça…”

    Bjs.

    Nelson.

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