Quando você vier…

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Quando você vier, venha com calma e devagar.
 
Me dê o tempo o necessário para te reconhecer e te aceitar.
 
Chegue de mansinho e cheio de delicadeza, que já carrego marcas demais…
 
Não traga sonhos ou promessas.Traga um dia depois do outro.
 
Quando você vier, venha só. Deixe pra trás fantasmas, correntes, troféus para que não somemos passado.
 
Quando você vier venha sorriso. Venha alegria. Venha bom humor. Que já cansei da dor e não faço mais esta rima.
 
Quando você vier, venha sem precisar. Só por querer.
 
Quando você vier não venha com palavras açucaradas nem com discursos melosos.
 
Traga na boca só o sabor da sua verdade.
 
Não me afague com doces mentiras nem me afogue em ilusões. Gosto das coisas como elas são.
 
Quando você vier venha por inteiro que já não me contento com metades.
 
E lembre-se de deixar espaços. Eu preciso respirar solidão algumas vezes.
 
Quando você vier me encontre dentro de mim, que é onde eu me sinto melhor.
 
Mas não me invada. Bata antes de entrar. E entre um passo de cada vez. Sem pressa.
 
Quando você vier traga na alma flores estrelas e chuva. Sol vento criança.
 
Tempo coragem e paz. Muita paz, que é algo que eu ainda não tenho. E quero. Muito.
 
Quando você vier, procure saber de mim, mas reserve-me um pouco de mistério.
 
Quando você vier, que venha só uma vez
 
 
Texto lindo de Claudia Regina Barros -  autora do poético Blog Escrivinhadeira
 


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Um dia acontece. – Claudia Regina Barros

Um dia acontece. Ele se vai. Você fica parada olhando ele arrumar a mala, cada gesto te dizendo: EU NÃO TE QUERO MAIS. Você até que poderia chorar, implorar, pedir desculpas por algo que você nem sabe que fez, mas você já fez tudo isto antes. Algumas vezes. E agora você já não está muito certa de que vale a pena. Você não sabe direito o que se passa dentro de você. Reconhece a dor que já vem caminhando com você há um bom tempo.Reconhece o medo – como é que vai ser; será que eu dou conta sozinha? Reconhece a sensação de fracasso. Reconhece o cansaço. Mas é uma sensação novinha em folha, bem escondidinha na borda do coração é que faz você ficar ali, só olhando. Antes que você consiga identificar o que é, ele fecha a mala e com ela caminha até a porta, cheio de impáfia. Sem saber o que te move, você se adianta e abre a porta pra ele. A frase clichê de cena de efeito em filme barato escapa irresoluta de sua boca, com um sapo repentinamente liberto. Se você sair, não volta mais. Sem sequer se dignar a olhar na sua cara, ele passa reto com um sorrisinho de escárnio. Naquele momento você sente que, não importa quantas vezes vocês tenham protagonizado cenas patéticas como aquela, desta vez é mesmo pra valer. Já deu. Acabou. Você fecha a porta com uma calma gelada. Tranca bem trancada. Passa o ferrolho. Pega alguns sacos de lixo e joga nele as roupas e objetos que ele deixou pra trás e sente uma vontade real e irrestrita de jogar tudo pela janela, mas pensa que mais escândalo a esta altura do campeonato não vai fazer nenhum bem a você. Deixa tudo empilhado ao lado da porta da cozinha e decide limpar imediatamente todos os traços dele em sua casa. Sai andando pela casa com um incenso nas mãos rezando uma benzeção e jogando sal grosso nos cantos. Enquanto passa vão sumindo fotos, livros, cds. Tudo indo literalmente pro saco. A casa se esvazia e você se esvai.Exausta, corre pro banho de roupa e tudo. Abre o chuveiro até o talo e deságua. Chora até não poder mais. Deixa o coração escoar pelo ralo até derreter. Quando sai do banheiro parece que nada é real ou existe. Você flutua no limbo. Anestesiada liga a TV e senta-se à frente dela, tal qual personagem  dA Volta dos Mortos Vivos. Sem saber de si a dor, tristeza ou desilusão reencontra aquela sensaçãozinha escondidinha na borda do coração que a manteve parada, a observá-lo arrumando a mala. Tímida, envergonhada, ela se apresenta e você suspira por reconhecê-la: alívio!

Um dia você acorda e, finalmente entende que você nada perdeu. Seu coração continuou batendo incólume, sua alma permaneceu completa, sua vida se refez, seguiu. O amor nunca chegou, nem partiu, porque sempre fez parte de você. E sempre vai estar lá, pronto pra recomeçar. E você ri de dor tão boba, esta dor de amor finado. Dor que nem remédio tem, pois que já nasceu remediada.

Um dia, acontece!

Texto lindo de Claudia Regina Barros -  autora do poético Blog Escrivinhadeira

Dona Doida – Adélia Prado


394370_293371337382441_293356894050552_964866_1727838667_n_largeUma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 

com sombrinha infantil e coxas à mostra. 

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

(Adélia Padro)

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Fonte-O texto acima foi extraído do livro “Poesia Reunida”, Editora Siciliano – 1991, São Paulo, página 108.

Almas perfumadas – Ana Cláudia Saldanha Jácomo

 

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.

[Ana Cláudia Saldanha Jácomo lançou recentemente seu primeiro livro, "Parto de Mim", uma produção independente.]

fonte: releituras

Devagarinho – Ana Jácomo

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O amor desbasta o ego. Enxuga excessos. Delata as mínguas. Transforma as mágoas. Destrona arrogâncias e idealizações. Desmancha certezas e tece oportunidades. Bagunça a autoimagem todinha, piedade zero, culpa nenhuma. O amor percorre territórios devastados da alma com a calma necessária para reflorestar um a um. Dissolve neblinas. Revela o sol. Destece máscaras. Reinaugura a humildade. Faz ventar. Faz chorar. Faz sorrir. Faz tempestade um monte de vezes pra dizer também céu azul um monte de vezes depois.
O amor nos ensina a simplificar perdões porque nos humaniza e nos lembra o quanto precisamos ser igualmente perdoados por tanta coisa, tanta gente, a começar por nós mesmos. Ele dispensa julgamentos porque abraça virtudes e limitações. Ele nos aproxima do nosso tamanho e  nos recorda quem somos. O amor nos revista, inteiros, pra retirar relógios, calculadoras, roteiros, estratégias, controles, defesas; não raro, escondidíssimos. Diz nas sutilezas. Diz preciosidades que, mesmo às vezes bem baixinho, conseguimos ouvir e reconhecer, por mais cético e assustado que tenha se tornado o nosso coração. 
O amor nos molda a cada movimento também para a liberdade de acolher o imprevisível, o inimaginável, o inevitável, o aprazível. Para querer ser e querer sinceramente que os outros também sejam. Ele nos torna mais sensíveis à alegria e à dor de toda gente, inclusive, principalmente, às nossas. Faz com que a gente se sinta parte da família humana. Conta que aquilo que procuramos, amiúde, num mundaréu de lugares, esteve o tempo todo, primeiro disponível, onde raramente buscamos. Reinventa-nos para nos tornar mais parecidos com nós mesmos, o máximo possível a cada instante. Dia após dia da nossa prática. Com medo e tudo. Com propósito e também com carinho. Devagarinho.

 Ana Jácomo 

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