CONTE-ME OS FINAIS DOS FILMES- Fabrício Carpinejar
07 mar 2012 Deixe um comentário
em LIVROS, POESIA, SENTIMENTO Tags:CULTURA, Fabrício Carpinejar, poesia.literatura

Conte-me os finais dos filmes, eu não me importo. Eu esqueço os finais dos filmes. Nunca guardo o que acontece no enlace. O final do filme é o menos importante. Não entendo como embaralho os finais como se fossem começos. Minha memória não é fotográfica, ela corre a letra e não me entendo depois. O que eu fiz com os finais dos filmes? Os livros me influenciam e não me deixam concluir. Não posso concluir o que adivinho. Eu transformei os finais dos filmes em livros que não escrevi. Gosto que me digam o final antes de assistir o filme. Eu vou esquecer assim que assistir. Conte-me o final de minha vida, eu não me importo. Ciganas, fadas, bruxas não me apavoram. Não vai mudar o que farei. O final da vida não altera meu endereço. Não altera a fome que havia na vida. O ácido da boca. A hortelã da boca. O susto de estar errado. O acerto inesperado. Não vai alterar a ordem da rotina, a ordem da minha higiene: se tomo primeiro o pente, depois a navalha, depois a escova, depois o cortador de unhas. Não vai alterar minha dieta, minha receita médica, a cor de minha língua. Não vai alterar as sete quadras que atravesso para chegar ao banco, o modo de discordar da luz. Não vai alterar o cheiro da grama com a chuva. A impureza dos ouvidos. Não vai alterar a reposição da aguardente no bar. O suor das árvores. A manchete do jornal que não lerei. Conte-me o final do livro. Não vai alterar o desejo feito de começos. O começo do desejo no desejo. As tardes lentas do domingo. Os cabelos lentos da filha. Não vai alterar o modo como viro a página, o modo como troco de assunto. Não vai alterar a floresta reduzida a um ninho. O ninho reduzido a uma asa solteira. Não vai alterar a evaporação das uvas. O número de amigos. Não vai alterar o horário das missas, dos cinemas, do nascimento. O final do livro não vai alterar o autor e sua insuficiência. Não vai alterar o que não se enterra no final.
Fabrício Carpinejar

QUAL MOMENTO? – Fabrício Carpinejar
17 jan 2012 Deixe um comentário
em SENTIMENTO Tags:AMOR, Fabrício Carpinejar, RELACIONAMENTOS, VIDA

Não há como definir o motivo para terminar com alguém. O que gerou a separação? O que provocou a absoluta segurança de encerrar o romance e abdicar do final feliz? Como que ocorre a transformação da companhia íntima, a qual se dividia segredos ao longo de anos, em uma estranha desaforada querendo arrancar o teu siso de ouro em uma vara de família? São movimentos subjetivos e sísmicos que definem a ruptura. Não é o peso, o rosto, as pernas que norteiam o amor. Nada o esclarece, muito menos o seu final e o distanciamento do tempo. O amor inicia na incompreensão compreendida, a confusão saborosa da identidade de não pensar em outra coisa, e termina em compreendida incompreensão, na confusão desastrosa da identidade de não querer pensar no assunto por mais um dia. De que modo algo que prometia aventura resulta na mais ferrenha apatia? Como um jogo com primeiro tempo eletrizante reduz o ritmo no segundo tempo e se conforma com o resultado?
Em que canto da memória, em que momento se toma essa decisão de que a pessoa com quem se vive não presta mais, de que foi um erro, de que se perdeu tempo ao lado dela. O que faz um homem ou uma mulher largar aquilo que considerava, uma noite atrás, seu santuário, seu universo, sua segurança. De onde parte esse instinto utilitário de que o par é um carro importado e é muito cara a reposição de peças. Não acontece de repente, tenho certeza. Tudo começa com a resignação, na certeza equivocada de que se sabe tudo. Quando se põe na cabeça que se cumpriu a apresentação, que não existe nenhuma surpresa porvir. Quando se deixa de perguntar para adivinhar as respostas. Quando se deixa de responder por não suportar as perguntas. Quando uma conversa com casais termina no insuportável álbum de retratos. Quando não se fala mais dele ou dela como uma novidade, porém como uma doença antiga, uma enxaqueca, uma tia distante. Acreditar que se domina a situação é pisar em falso. Amor não se assinala no calendário. Ou existe gente marcando uma ida no motel em agenda? O amor aceita apenas fiado. As dívidas aumentam sua longevidade. É falta de controle, imprevisto, improviso, nervosismo. Sem a covardia atenta, não há sedução. Sem o balbucio, não há sinceridade. Ninguém conhece tão bem o outro a ponto de dizer que verdadeiramente o conhece. Não vi mulher que não é no mínimo duas. Em algum lugar do corpo, desliga-se o aparelho. Fecha-se a conquista como se fosse um expediente comercial. Conquistei, ele é meu, ela é minha, deu. Abdica-se do esforço de explorar a personalidade em conversas e saídas noturnas. A tensão esfria e cada um se deita pensando uma forma mais rápida de se cumprimentar, de existir e, se possível, não se tocar. O beijo de despedida vai se especializando em acenar, tornando-se uma prova com barreiras. E não adianta seguir conselhos de amigos. Em estado vulnerável até leitura de horóscopo convence.
O único erro é confiar que o namorado ou a namorada, o marido ou a esposa, dentro de si é maior do que a figura que está fora, de carne e osso, mais carne do que o osso, apesar de estar mais interessado no osso para enterrar do que na carne para dividir a temperatura. A atração enreda, a convivência consolida, o tédio estremece, porém unicamente a falta de humor separa. Quem não tem defeitos também não tem virtudes. Rir dos limites e dos erros do relacionamento, por mais estranho que seja, é uma espécie de liberdade. Uma liberdade que só pode ser gozada a dois.

PEDIDO – Fabricio Carpinejar
03 ago 2011 Deixe um comentário
em SENTIMENTO Tags:Fabrício Carpinejar
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Traga-me o mar e as rendas das canoas. Traga-me o chá de ervas que colore as mãos depois do abraço. Traga-me os ombros na véspera do sol. Traga-me a cabeleira de astros e a lareira de grilos. Traga-me a glória do limo e os degraus dentro da estante. Traga-me um rosto surpreso e o gancho da porta para pôr o casaco. Traga-me um pensamento que não foi sentimento. Traga-me o visco mais duro, o céu inconformado, o verde aposentado. Traga-me teu sotaque de praia, teu dialeto de inverno. Traga-me tuas notícias sem jornal, a ambulância da brisa. Traga-me os insetos em frascos e a boca aberta de espanto. Traga-me o ritmo das cartas sendo embaralhadas. Traga-me teu álbum de fotos e as figurinhas repetidas para trocar. Traga-me a conversa de corredor, a porta observada. Traga-me o filho no colo, a carícia dos ouvidos. Traga-me as frutas do pé e a horta do fim da casa. Traga-me as jóias falsas para as pedras disputarem corrida no piso. Traga-me a caridade ainda não descontada, a insatisfação aumentando. Traga-me tuas pernas altivas, teus seios de lado. Traga-me os milagres que não aconteceram, a garrafa de água. Traga-me a renúncia, as gramíneas em caixotes, a colher do violão. Traga-me o medo da escada em caracol, as tampas de vidro dos perfumes. Traga-me teu nome do meio, a escritura do pessegueiro. Traga-me o cheiro da cidade natal, o estojo de linha e agulha. Traga-me o sótão de teus livros, a letra mais arisca. Traga-me teus problemas incomunicáveis. Traga-me a indulgência infantil ao açúcar. Traga-me o animal de estimação de seus cinco anos e sua desaparição repentina. Traga-me o perdão ao teu pai e à mãe, o pomar das gavetas. Traga-me a manhã depois de ter amado à noite. Traga-me a noite depois de ter odiado à tarde. Traga-me areia fora da ampulheta, o resto de música que fica no copo. Traga-me tua risada, a loucura, o palavrão. Traga-me alguma senha esquecida, algum pente esquecido na bolsa. Traga-me a covardia do salto, a timidez do sutiã. Traga-me a aparência de quem não chegou a tempo. Traga-me a Bíblia marcada com fita de cabelo. Traga-me os mistérios gozosos. Traga-me a salvo o ainda que não abrimos juntos.
Carpinejar
Dar um Tempo – Carpinejar
29 abr 2011 2 Comentários
em AMOR, RESPEITO, SENTIMENTO Tags:Dar um Tempo, Fabrício Carpinejar
O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos.
Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos.
Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto.
Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense.
Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio.
É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga.
Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas.
Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença,
sem levar ou deixar algo.
Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer.
Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.
Dar um tempo é igual a praguejar “desapareça da minha frente”.
É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo.
É um jeito educado de faltar com a educação.
Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes.
Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar,
já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance.
Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou.
E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo.
Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo.
Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo.
Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola.
Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes.
Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo.
Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo.
Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança.
Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido.
Melhor a clareza do que os modos.
Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir.
Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus.
Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.
Resumir a relação a um ato mecânico dói.
Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora.
Espera-se algo que escape do lugar-comum.
Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste.
Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois.
Dar um tempo é roubar o tempo que foi.
Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo.
É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos.
É compatível em maldade com “quero continuar sendo teu amigo”.
O que se adia não será cumprido depois.
DISTÂNCIA E DISTANCIAMENTO – Fabrício Carpinejar
29 jun 2010 7 Comentários
em DIVULGAÇÃO CULTURAL, GENTE, LIVROS, SENTIMENTO Tags:ARTES PLÁSTICAS, Fabrício Carpinejar, LITERATURA, Marc Chagall
Sendo obrigado a ficar separado da namorada ou namorado, do marido ou da mulher, o que fazer? Morar em casas diferentes, cidades diferentes, países diferentes não revela distância. A distância mais difícil de ser superada é a do costume: a psicológica, a que não permite abraços efusivos e brincadeiras, que paralisa e planifica os sentimentos com os anos de convivência.
É um lugar-comum dizer que é fácil uma relação dar certo sem que os dois se vejam. Mas quem namora afastado não está convencido da conquista e se põe a trabalhar para surpreender. Acautela-se para não sacrificar o que está começando. Exercita mais antes de falar. Procura a toda hora uma forma de chamar atenção. Fiscaliza, atualiza a relação, olha ao telefone ou a caixa de mensagens com curiosidade inquisidora. Corre risco, cobre a aposta, suscetível a enganos, comédias e foras. Aprende a ver longe para não permanecer longe. Distância não é distanciamento. A primeira é física, o segundo é emocional.
Tudo é questão de matemática. Melhor ser dois no tempo sendo um no espaço do que ser um no tempo para ser dois no espaço. Dividir o mesmo teto é pouco perto de dividir o mesmo texto. Os casais separados pela força das circunstâncias não ficam com receio das juras e das promessas. Preocupam-se com sutilezas e detalhes. Não têm vergonha da vergonha. Não estão condicionados ao amor como posse, mas como incerteza. Conhecem quem são pela intensidade de sua busca. Esforçam-se para que a carne seja a lembrança de outra carne, a pele seja a lembrança de outra pele. O esforço é compreensão e a esperança, uma espécie de justiça.
A falta de imaginação termina com qualquer coisa, das atitudes mais complexas às mais simples. Como não colocar um ingrediente a mais ao seguir uma receita? É inevitável. Os melhores cozinheiros são de olho. Minha avó nunca anotou nenhum de seus pratos, porque me dizia: “a comida é que me diz quando está pronta, não eu”. Erra-se para acertar. E quando se acerta, com um toque pessoal, parece um milagre.
Sem reagir à vida, não há experiência, há acomodação. Não é de estranhar que o medo de ver um nascimento é maior do que ver uma morte. Desmaiar num parto é mais fácil do que desmaiar diante de alguém que parte. Casais que se julgam definitivos porque moram juntos perdem o medo solidário de nascer (todo mundo que nasce precisa de ajuda) para deixar o medo mesquinho de morrer tomar conta da relação (todo mundo que morre, morre sozinho). O desejo não combina com segurança e senhas. O desejo é não saber o que vai acontecer depois. Os namorados e namoradas apartados por uma questão de trabalho, de residência ou de família estão dispostos a se encontrar dentro dos próprios desencontros. O círculo perfeito é muito apertado. Agrada-me a elipse, a hesitação, a fresta para arejar os afetos. Uma alegria breve pode vir a ser uma alegria interminável.
Fabrício Carpinejar



















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