EFEITO COLATERAL DA MULHER ROMÂNTICA – Fabrício Carpinejar

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A mulher romântica tem um efeito colateral: não perdoa. Não perdoa mesmo.
Ela não esquecerá qualquer mancada que você tenha feito. Pode recorrer ao exorcismo, afogar Santo Antônio, investir o salário em macumba.
Nada apagará a ofensa de sua memória. Nada amansará sua dor.
O tempo não desgastará a mágoa, é tudo como se fosse ontem. Ou melhor, hoje de manhã.
Não existe atenuante, não existe a tecla Delete, não existe nem condenação a serviços comunitários.
A idealização, quando machucada, traz a intransigência. Não encontrará mais rascunhos na idealização.
A partilha, antes bênção dos elogios, será calvário das acusações.
Para a mulher romântica, a memória tem uma única vida, como o vestido de noiva. Não há maneira de reaproveitá-la.
Uma falsidade, ainda que eventual, tornará o resto inteiro falso, criando a suspeita do engano permanente.
Ela se lembrará da tristeza pela relação inteira. Sempre voltará ao assunto, sempre trará o ressentimento à baila.
A mácula se transformará num quartinho proibido e assombrado da convivência, a mancha fechará a porta da espontaneidade.
Você pensa que, por ser romântica, ela é tapada. Você pensa que, por ser romântica, ela é dependente e frágil. Você pensa que, por ser romântica, ela aceitará qualquer coisa. Você pensa que, por ser romântica, ela terá compaixão. Enganou-se redondamente.
Você confundiu romantismo com amor incondicional, este é o seu engano.
Toda mulher romântica, por mais que se esforce, jamais perdoa qualquer deslealdade ou infidelidade.
O homem pode se retratar diante da família e dos amigos, arrepender-se publicamente, rastejar no chão da cozinha, subir escadarias de joelhos, prometer ser perfeito dali por diante: não adianta.
Mulher romântica apenas é boa quando você não pisa na bola. Depois da falha, ela será um inferno.
Como ela é devota, sensível e dedicada, qualquer sofrimento pesa duas vezes mais. A ferida dói o dobro.
A mulher romântica não tolera mentira.
Desde o início da relação, só faz uma exigência: a sinceridade.
Quando quebrada a sinceridade, ela não acreditará mais.
O conto de fadas não tem como ser refeito. O encantamento some, e o poder das juras desaparece. É agora falar para o vento e viver casado com a tempestade.

LIMITES HUMANOS?

Postado originalmente em Encanto de Renascer:

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Na fronteira da insanidade
O indivíduo não é neurótico e nem psicótico, mas vive em uma linha sutil entre esses dois estados e a normalidade. Freqüentemente é confundido com o depressivo, mas na verdade sofre de transtorno de personalidade borderline

 

Como tudo começa
O transtorno se forma provavelmente a partir da combinação de três fatores: a própria constituição da pessoa, a dinâmica familiar e o meio social. Segundo a psicóloga Vanda Di Iório, algumas crianças exigem muita atenção por parte de seus cuidadores, que podem não estar preparados para tal demanda e responder de forma insatisfatória a essa vulnerabilidade do bebê.Esse desencontro pode desencadear níveis primários e altos de insatisfação antes que o indivíduo tenha desenvolvido um aparelho psíquico para tolerar seus impulsos agressivos, o que gera os sentimentos paradoxais sempre presentes no borderline: raiva, agressão e medo de abandono. “O doente quer ser livre para fazer o que…

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Rubem Alves

Este texto tem um pouco a ver talvez com o meu momento, quem sabe, com o seu também. O seu título é OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA.
Esse para mim é um dos livros mais lindos dele (Só perde para o Amor que acende a lua!).
Num dos textos dessa obra Rubem relembra como nasce a pérola que, na verdade, deriva de uma agressão à ostra. Essa agressão não se dá na casca dela, ou seja, no lado externo, e sim, no seu interior. Para se proteger do agente agressor que a fere, a ostra começa a liberar um material que isola aquele intruso e que vai formando camadas e mais camadas em seu entorno, até se transformar naquilo que é o desejo de consumo de muita gente: uma linda e reluzente pérola.
E ele faz a conexão dessa situação da ostra, conosco, seres humanos.
Todos nós passamos por momentos da vida em que somos agredidos, machucados, magoados. As vezes nos ferimos imensamente. As vezes essas dores são causadas por termos ferido alguém. E isso gera uma dor muito grande dentro de nós. São as chamadas “dores da alma”. E assim como a ostra, nós também tentamos nos “proteger” da dor. 
Alguns criam uma espécie de “capa” no sentimento para fazer de conta que ele não existe, não está ali. Seja por incapacidade de olhar pra ele, de suportar sua intensidade, de descobrir sua participação nele, seja porque deseja fugir mesmo daquilo. Para isso se anestesiam, dopam-se ou de remédios ou de drogas diversas, ou ainda, foge através do bloqueio mental, da negação, para poder “dar conta” de necessidades do momento, afinal é preciso trabalhar, sobreviver pois a vida continua. E jogam-no lá no “lixão” da mente. 
Esses, apesar de momentaneamente conseguirem o amortecimento da dor, não a resolvem, deixam ela lá latente, prestes a explodir a qualquer momento, bastando para isso um agente catalisador. E quando ela não explode, vai com o tempo encrustando dentro da gente, virando uma espécie de capa dura. Vai nos “endurecendo” o sentimento, nos anulando por dentro, nos consumindo. Aos poucos perdemos o sentido de viver, o prazer na convivência conosco e com o outro, vamos azedando, nos tornando pessoas pesadas, densas, amargas. Morremos por dentro, adoecemos. Por fora, vamos definhando a olhos vistos. Estes, enquanto não tiverem a coragem de olhar “para o intruso”, nesse caso o sentimento que tenta negar, não obterão cura, não realizarão seu crescimento emocional. Não transformarão isso em mudança. Não virarão pérola.
Para virar pérola a gente precisa receber a dor e aceitá-la. Ter a coragem de vivê-la, senti-la, por maior que ela seja. É preciso identificá-la dentro de nós, nominá-la e não ter medo. Falar dela, chorar num ombro amigo ou sozinho, confiar em alguém para compartilhar essa dor. Porque a dor que se compartilha fica mais leve, mais suportável. Não a transferimos para o outro, mas falar dela com alguém faz com que ela deixe de nos assustar porque tivemos a coragem de vê-la, ouvi-la, conversar com ela. Perdoá-la e nos perdoar. 
É a partir dessa “aceitação” e vivencia que começamos a soltar o “nácar” (o material que a ostra libera para envolver o intruso que a fere) para envolver aquela ameaça interna que nos agride. Começa ai a bela construção de algo melhor, mais bonito, mais pleno dentro de nós. É o momento de trabalhar com afinco, com carinho, com amor por nós mesmos. Sem medo, sem amarras, com fé e autoaceitação.
E desse movimento interno de “transmutação”, o agente intruso que antes nos incomodava é transformado em um ponto de luz e nós começamos a nos tornar belas pérolas. Seres melhores, mais leves, mais felizes. Mais plenos.
Ah Rubem, você, de fato, sabia o que estava dizendo meu amigo. 
Todos nós somos ostras que a vida precisa, de vez em quando, invadir para que possamos nos tornar pérolas. Caso contrário morreremos apenas como algo duro por fora e mole por dentro, deixando nos outros apenas a sensação de uma satisfação momentânea, perecível. 
A pérola, não!! Transformar-se nessa pedra preciosa significa encantar a vida de alguém por muito tempo, através da beleza que de si emana. Ficar em sua memória.
E ai vem a inevitável pergunta: você está se mantendo uma ostra, fechado para a vida, ou se transformando numa linda pérola?!
Bjs.
;
OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA
 
Ostras são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, de pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores.
 
Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem.
 
Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas, saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário… Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste… As ostras felizes riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor.
 
O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. 
 
Assim, enquanto cantava o seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava.
 
Um dia passou por ali um pescador com seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-a para sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-a em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade; era uma pérola, uma linda pérola. Apensa a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz…”
 
Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos.
 
As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores da alma.
 
Rubem Alves
Fonte- mudandoavistadoponto

Carta ABERTA para uma VIDA INACABADA de uma Espectadora não linear.- Elisabete Cunha

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9

Como vai Vida?

Querida,você tem tentado testar minha resistência né danadinha? Eu te entendo, quem manda dizer que é corajosa, valente e destemida. não é mesmo? Agora aguenta coração! Este ano de 2014 tenho tido muitas surpresas com você amiga. Por aqui, nada no mesmo, tudo mudando e rodando. Você me tirou o chão várias vezes, mas não reclamo. Pois através disso descobri uma força que sabia que tinha, só não sabia como administra-la. Pois, como você bem sabe tudo acontece no superlativo comigo e através disso percebi que a maior certeza que temos é que não existem “certezas” .

É difícil conciliar tantos acontecimentos novos e emoções nada tranquilizantes tenho lados tão opostos, sou tão Yin-yang… eu que nunca fui muito certa, continuo batendo a cabeça. Estou feliz com meu pavio curto que tem ficado bem mais zen e equilibrado. Mas, difícil ainda é aceitar certos limites no meu corpo que não existiam e você já deve ter percebido que tenho tentado ser cuidadosa,carinhosa e acima de tudo compreensiva aceitando meus limites e aprendendo que somos apenas um grão de poeira na areia deste universo . E vida , como existem pessoas que ainda não “perceberam” este detalhe, tão importante. Somos frágeis e podemos morrer a qualquer segundo, você com o tempo me ensinou isso. Apesar de saber que ainda não consigo ver a morte como algo natural.

O fato de descobrir que não sou eterna me deixou mais humilde e resiliente. Seguranças são tão preciosas e ao mesmo tempo inseguras, não sei se você me entende. Por isso alterno. Me alterno. Por isso choro, sorrio,escrevo, invento e ainda me emociono com uma flor, uma música, uma criança, um idoso fofo, um abraço de verdade. Eu quero entender o mundo, mas só consigo amar. Penso que se entendesse um pouco de mim eu perceberia mais os porquês e sofreria menos por nada. Mas eu continuo sentindo muito, intensamente, dolorosamente e sem fim. Quando dói, dói muito. Corta, rasga, machuca e sangra. Quando fico feliz, o mundo me devora.Luz e energia fazem parte de mim, nasceram comigo, afinal sou uma típica ariana que encabeça o mundo.

Ah, minha amiga, esse meu coração me devora mesmo! As ventanias são tão fortes que as vezes penso que vou cair…Daí , vem a brisa soprando baixinho no meu ouvido: – Quem é de Oyá não cai, enverga enverga, mas não quebra. O meu Deus é um Deus de bondade , um Deus que une crenças e aceita o amor de qualquer religião. pois para mim , Deus é amor. E é esse Deus conciliador que é a minha base para nunca me deixar desistir de viver.Mas, a minha fome de viver é tanta que devora minhas palavras, minhas frases, meu desejo, e me alimenta para prosseguir.

Existe uma citação da Lya Luft que adoro e tento seguir: ”A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura.”Querida Vida, eu nunca fui uma pessoa equilibradamente linear, você bem sabe que desde menina sempre me refugiei no meu mundo de desenhos, livros e fantasia. Era minha salvação diante de tantos fatos que ocorriam na vida de uma menininha questionadora. Ainda não sou uma pessoa terminada e nem quero ser, eu não quero rótulos nem roteiros prontos, não existe começo nem fim em mim. Eu existo. E eu quero viver!

Enfim ,a cada dia aprendo que para compreender o outro é preciso respeitar a individualidade alheia. É preciso ter coragem pois acho que a vida é um processo mutável , além de tudo, não temos o controle de nada. É quase uma arte mostrar-se sem pudores, tornar-se vulnerável é coisa para gente forte… Não tem jeito, o caminho é prosseguir e contemplar cada momento que você nos dá como se fosse o último.O último suspiro.

Um beijo e dá lembrança a Felicidade , manda ela aparecer mais e avisa a Esperança que estou sempre confiando nela.Só vou te fazer um pedido…Não deixe o Medo e aquela galera do mal  que o seguem virem para o lado de cá,tá?

 Sem Mais !

Elisabete Cunha 06/11/2014

P. S. Esqueci de agradecer tantas coisas maravilhosas que você me proporciona a cada dia minha amiga Vida . Você tem sido generosa comigo sim. Muito! Pois é, esquecemos sempre que a gratidão é algo tão grandioso e pratica-la é tão raro . É esta feia mania de pedinte que os seres humanos possuem… Desculpe, somos seres difíceis de lidar. Eu sei. E novamente citando a grande Lya Luft  finalizo : “Apesar das minhas fragilidades, avanço.”

Superação Já!

.
Quando as mulheres se apaixonam julgam que o relacionamento irá durar toda a vida, no entanto cada vez mais começamos a viver numa sociedade em que tal não se verifica, sendo que para encontrar o tal muitas mulheres terão que passar por algum fim de namoro.
Quando nos apaixonamos o sentimento de amor é forte, assim como o sentimento de possessão Não está nos nossos planos perder aquela companhia algum dia. Muitas mulheres não se importam que o ex-namorado traia, ou que minta, elas não se importavam de viver para sempre assim, numa mentira.Mas o que é isto do amor? Acho que as pessoas que chegam ao fim de namoro, não amam de verdade, embora custe deixar o outro partir, o amor é algo que possui dois sentidos. A sua felicidade deve estar acima de tudo. Não se deve forçar ou tentar forçar alguém a manter-se num relacionamento se o amor já se tiver desvanecido.“Se ama alguém, deixe-o ir. Se regressar para você, é seu. Se não regressar, nunca foi seu.”Lembre-se sempre destas dicas para seguir em frente e dar o seu lugar, deve ser digna e forte até ao final. Não deve chorar e implorar, as mágoas são para os fracos.Se por todos os meios já tentou combater o fim de namoro, de considerar que talvez seja tempo de seguir em frente. Tal como muitas outras pessoas que no passado se levantaram para tornar a juntar os pedaços do coração e recomeçar as vidas.

10 Conselhos para superar um fim de namoro:

  • Não implore por amor, isto diminui a auto-estima;
  • Amar é algo voluntário e não obrigatório, é livre de escolher;
  • Não chore por algo que já foi, não era para você, pense positivo;
  • Não force ninguém a ficar com outrem por pena, é a pior coisa que se pode fazer;
  • Pode sempre encontrar outra pessoa como você, que procura alguém para amar;
  • Não se desgaste com sentimentos de culpa;
  • Olha para você e veja como é bonita;
  • Faça coisas interessantes, mude de visual;
  • Você é mais que um objeto, é uma mulher maravilhosa;
  • Quando a deixam porque não a amam, há que fazer para o amor voltar!

E por último nunca se deve culpar pelo fim de namoro. O amor também se desgasta, e culpa não é inteiramente sua. O amor é igual às flores, que requerem constantes cuidados e mimos, caso contrários secam.

Fonte:diariodemulher.com

Dez chamamentos ao amigo – Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo – Hilda Hilst</p><br />
<p>I<br /><br />
Se te pareço noturna e imperfeita<br /><br />
Olha-me de novo.<br /><br />
Porque esta noite<br /><br />
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.<br /><br />
E era como se a água<br /><br />
Desejasse<br /><br />
Escapar de sua casa que é o rio<br /><br />
E deslizando apenas, nem tocar a margem.<br /><br />
Te olhei. E há um tempo<br /><br />
Entendo que sou terra. Há tanto tempo<br /><br />
Espero<br /><br />
Que o teu corpo de água mais fraterno<br /><br />
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta<br /><br />
Olha-me de novo. Com menos altivez.<br /><br />
E mais atento.</p><br />
<p>II</p><br />
<p>Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.<br /><br />
E eu te direi que o nosso tempo é agora.<br /><br />
Esplêndida altivez, vasta ventura<br /><br />
Porque é mais vasto o sonho que elabora<br /><br />
Há tanto tempo sua própria tessitura.<br /><br />
Ama-me. Embora eu te pareça<br /><br />
Demasiado intensa. E de aspereza.<br /><br />
E transitória se tu me repensas.</p><br />
<p>III</p><br />
<p>Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado<br /><br />
Faria do meu rosto de parábola<br /><br />
Rede de mel, ofício de magia<br /><br />
E naquela encantada livraria<br /><br />
Onde os raros amigos me sorriam<br /><br />
Onde a meus olhos eras torre e trigo<br /><br />
Meu todo corajoso de Poesia<br /><br />
Te tomava. Aventurança, amigo,<br /><br />
Tão extremada e larga<br /><br />
E amavio contente o amor teria sido.</p><br />
<p>IV</p><br />
<p>Minha medida? Amor.<br /><br />
E tua boca na minha<br /><br />
Imerecida.<br /><br />
Minha vergonha? O verso<br /><br />
Ardente. E o meu rosto<br /><br />
Reverso de quem sonha.<br /><br />
Meu chamamento? Sagitário<br /><br />
Ao meu lado<br /><br />
Enlaçado ao Touro.<br /><br />
Minha riqueza? Procura<br /><br />
Obstinada, tua presença<br /><br />
Em tudo: julho, agosto<br /><br />
Zodíaco antevisto, página<br /><br />
Ilustrada de revista<br /><br />
Editorial, jornal<br /><br />
Teia cindida.<br /><br />
Em cada canto da Casa<br /><br />
Evidência veemente<br /><br />
Do teu rosto.</p><br />
<p>V</p><br />
<p>Nós dois passamos. E os amigos<br /><br />
E toda minha seiva, meu suplício<br /><br />
De jamais te ver, teu desamor também<br /><br />
Há de passar. Sou apenas poeta<br /><br />
E tu, lúcido, fazedor da palavra,<br /><br />
Inconsentido, nítido<br /><br />
Nós dois passamos porque assim é sempre.<br /><br />
E singular e raro este tempo inventivo<br /><br />
Circundando a palavra. Trevo escuro<br /><br />
Desmemoriado, coincidido e ardente<br /><br />
No meu tempo de vida tão maduro.</p><br />
<p>VI</p><br />
<p>Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.<br /><br />
O ouro em mim, a palavra<br /><br />
Irisada na minha boca<br /><br />
A urgência de me dizer em amor<br /><br />
Tatuada de memória e confidência.<br /><br />
Setembro em enorme silêncio<br /><br />
Distancia meu rosto. Te pergunto:<br /><br />
De Julho em mim ainda te lembras?<br /><br />
Disseram-me os amigos que Saturno<br /><br />
Se refaz este ano. E é tigre<br /><br />
E é verdugo. E que os amantes<br /><br />
Pensativos, glaciais<br /><br />
Ficarão surdos ao canto comovido.<br /><br />
E em sendo assim, amor,<br /><br />
De que me adianta a mim, te dizer mais?</p><br />
<p>VII</p><br />
<p>Sorrio quando penso<br /><br />
Em que lugar da sala<br /><br />
Guardarás o meu verso.<br /><br />
Distanciado<br /><br />
Dos teus livros políticos?<br /><br />
Na primeira gaveta<br /><br />
Mais próxima à janela?<br /><br />
Tu sorris quando lês<br /><br />
Ou te cansas de ver<br /><br />
Tamanha perdição<br /><br />
Amorável centelha<br /><br />
No meu rosto maduro?<br /><br />
E te pareço bela<br /><br />
Ou apenas te pareço<br /><br />
Mais poeta talvez<br /><br />
E menos séria?<br /><br />
O que pensa o homem<br /><br />
Do poeta? Que não há verdade<br /><br />
Na minha embriaguez<br /><br />
E que me preferes<br /><br />
Amiga mais pacífica<br /><br />
E menos aventura?<br /><br />
Que é de todo impossível<br /><br />
Guardar na tua sala<br /><br />
Vestígio passional<br /><br />
Da minha linguagem?<br /><br />
Eu te pareço louca?<br /><br />
Eu te pareço pura?<br /><br />
Eu te pareço moça?<br /><br />
Ou é mesmo verdade<br /><br />
Que nunca me soubeste?</p><br />
<p>VIII</p><br />
<p>De luas, desatino e aguaceiro<br /><br />
Todas as noites que não foram tuas.<br /><br />
Amigos e meninos de ternura<br /><br />
Intocado meu rosto-pensamento<br /><br />
Intocado meu corpo e tão mais triste<br /><br />
Sempre à procura do teu corpo exato.<br /><br />
Livra-me de ti. Que eu reconstrua<br /><br />
Meus pequenos amores. A ciência<br /><br />
De me deixar amar<br /><br />
Sem amargura. E que me dêem<br /><br />
Enorme incoerência<br /><br />
De desamar, amando. E te lembrando<br /><br />
- Fazedor de desgosto -<br /><br />
Que eu te esqueça.</p><br />
<p>IX</p><br />
<p>Esse poeta em mim sempre morrendo<br /><br />
Se tenta repetir salmodiado:<br /><br />
Como te conhecer, arquiteto do tempo<br /><br />
Como saber de mim, sem te saber?<br /><br />
Algidez do teu gesto, minha cegueira<br /><br />
E o casto incendiado momento<br /><br />
Se ao teu lado me vejo. As tardes<br /><br />
Fiandeiras, as tardes que eu amava,<br /><br />
Matéria de solidão, íntimas, claras<br /><br />
Sofrem a sonolência de umas águas<br /><br />
Como se um barco recusasse sempre<br /><br />
A liquidez. Minhas tardes dilatadas<br /><br />
Sobreexistindo apenas<br /><br />
Porque à noite retomo minha verdade:<br /><br />
teu contorno, teu rosto álgido sim<br /><br />
E por isso, quem sabe, tão amado.</p><br />
<p>X</p><br />
<p>Não é apenas um vago, modulado sentimento<br /><br />
O que me faz cantar enormemente<br /><br />
A memória de nós. É mais. É como um sopro<br /><br />
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso<br /><br />
É como se a despedida se fizesse o gozo<br /><br />
De saber<br /><br />
Que há no teu todo e no meu, um espaço<br /><br />
Oloroso, onde não vive o adeus.<br /><br />
Não é apenas vaidade de querer<br /><br />
Que aos cinqüenta<br /><br />
Tua alma e teu corpo se enterneçam<br /><br />
Da graça, da justeza do poema. É mais.<br /><br />
E por isso perdoa todo esse amor de mim<br /><br />
E me perdoa de ti a indiferença.” /></a></span></p>
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Dez chamamentos ao amigo – Hilda Hilst

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III

Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia
E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo
Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga
E amavio contente o amor teria sido.

IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.
Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.
Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.
Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página
Ilustrada de revista
Editorial, jornal
Teia cindida.
Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI

Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
- Fazedor de desgosto -
Que eu te esqueça.

IX

Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobreexistindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.

X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinqüenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

 

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