PÉROLAS – Rubem Alves

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As pérolas são feridas curadas,
são produtos da dor,
resultado da entrada de uma substância
estranha ou indesejável no interior da ostra,
como um parasita ou um grão de areia.
A parte interna da concha de uma ostra
é uma substância lustrosa chamada nácar.
Quando um grão de areia penetra,
as células do nácar começam a trabalhar
e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas
para proteger o corpo indefeso da ostra.
Como resultado, uma linda pérola é formada.
Uma ostra que não foi ferida de algum modo,
não produz pérolas,
pois a pérola é uma ferida cicatrizada.
Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de um amigo?
Já foi acusado de ter dito coisas que não disse?
Suas idéias já foram rejeitadas, ou mal interpretadas?
Você já sofreu os duros golpes do preconceito?
Já recebeu o troco da indiferença?
Então, produza uma pérola !!!
Cubra suas mágoas com várias camadas de amor.
Infelizmente são poucas as pessoas
que se interessam por esse tipo de movimento.
A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos,
deixando as feridas abertas,
alimentando-as com vários tipos de sentimentos pequenos e,
portanto não permitindo que cicatrizem.
Assim, na prática, o que vemos são muitas “ostras” vazias,
não porque não tenham sido feridas,
mas porque não souberam perdoar,
compreender e transformar a dor em amor.

Rubem Alves

 

Adoro ESCADAS E JANELAS… Elisabete Cunha

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  “Escadas me fazem lembrar que na vida temos subidas e descidas…é algo que é inevitável, você tem que enfrentar o degraus sem medo.
Janelas servem para mim , senhora da impulsividade para lembrar que antes de sair porta a fora …é muito mais prudente que primeiro fiquemos a observar da janela, sem pressa, nem arroubos. Daí se realmente valer a pena, podemos sair com a alma aberta pela porta da vida.”

 

Elisabete Cunha

Frases célebres de Ariano Suassuna

Confira algumas frases célebres de Ariano Suassuna Mauro Vieira/Agência RBS

Foto: Mauro Vieira / Agência RBS

Falecido na tarde desta quarta-feira, o escritor Ariano Suassuna era conhecido por sua grande ambição artística e pela fina e metódica construção literária.

Relembre abaixo algumas frases célebres do escritor:

“Eu sou um péssimo ator. Não sou só o pior ator vivo, eu sou o pior ator vivo e morto.”

“Tem gente que não gosta de adjetivo em texto. Eu confesso que não sei escrever nada sem adjetivo.”

“Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher e se chama Caetana. E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda.”

“Já me disseram que eu quero colocar a cultura brasileira dentro de uma redoma de vidro pra que ela não se contamine, e isso é bobagem. Sou a favor da diversidade cultural brasileira. Só não admito é a influência de uma arte americana de segunda classe.”

“Eu não tenho imaginação, eu copio. Tenho simpatia por mentiroso e doido. Como sou do ramo, identifico mentiroso logo.”

“Imaginem que tédio um lugar só com macho.”

“Acho uma façanha chegar aos 78 anos bem-humorado (frase dita em 2005, na ocasião do seu 78º aniversário)”

“O Brasil tem uma unidade em sua diversidade. A gente respeita a cultura gaúcha, nordestina, amazônica. O que é ruim é este achatamento cosmopolita. Você liga a televisão e não consegue distinguir se um cantor é alemão, brasileiro ou americano, porque todos cantam e se vestem do mesmo jeito.”

“Acredito que toda arte é local, antes de ser regional, mas, se prestar, será contemporânea e universal.”

“Os doidos perderam tudo, menos a razão. Têm uma (razão) particular. Os mentirosos são parecidos com os escritores que, inconformados com a realidade, inventam outras.”

“Todo mundo diz que cachorro gosta de osso, mas eu digo que gosta é de comida, como todo mundo. Se oferecerem osso e filé, qual o cachorro prefere?”

“A globalização é o novo nome do imperialismo, e o gosto médio é uma peste, é muito pior do que o mau gosto.”

“Não troco o meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém!”

“Não sou contra muita coisa que disseram que sou. Já publicaram algo que eu teria dito e aí vieram me dizer: isso que o senhor disse é um absurdo. Aí eu respondo: é um absurdo, mas não fui eu que disse.”

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa.”

“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”

“Não sei, só sei que foi assim!” (Em: O Auto da Compadecida)

“Que eu não perca a vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas.”

“Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver.”

“A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto… Nunca vi um gênio com gosto médio.”

“Eu digo sempre que das três virtudes teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança.”

“Quando eu morrer, não soltem meu cavalo nas pedras do meu pasto incendiado: fustiguem-lhe seu dorso alardeado, com a espora de ouro, até matá-lo.”(No poema “Lápide”).

 

FONTE-http://anoticia.clicrbs.com.br

DADAÍSMO – O CABARET VOLTAIRE E O SEU TEMPO.

 

Tristan Tzara, Paul Éluard, André Breton, Hans Arp, Salvador Dalí,
Yves Tanguy, Max Ernst, René Crevel & Man Ray, 1933

“Dada não significa nada… A obra de arte não deve ser a beleza em si mesma, porque a beleza está morta… não sou nem a favor nem contra, e não vou explicar porque razão odeio o bom-senso…”
” (Tristan Tzara).
Em 1914, quando começou a Primeira Guerra Mundial, o alemão Hugo Ball (1886-1927) mudou-se para a Suíça, que permaneceria como um país neutro, junto com sua companheira, também alemã, Emmy Hennings ( 1885-1948). Em Zurique, uma urbe cosmopolita, fundaram o Cabaret Voltaire, na Spielgasse, nº 1 (onde existe ainda hoje) . O nome do recinto evocava o filósofo francês François Voltaire (1694-1778) ele próprio, em sua época, considerado um intelectual iconoclasta e revolucionário. Os espetáculos no clube se caracterizavam pelo seu non sense e rebeldia, e o ambiente, pelo barulho incessante.

 


Cabaret Voltaire, Zurique, 1916

 

O nome Dada, escolhido para o movimento, não tinha o menor significado ou importância para seus próprios integrantes. A última coisa que desejavam é que tivesse conotação como alguma acepção de racionalidade. Teria sido encontrado numa escolha aleatória, abrindo ao acaso um dicionário francês, onde encontraram a palavra, que designava um “cavalo de brinquedo”. Ao mesmo tempo, dada se assemelhava a um balbuciar de nenê, portanto algo sem sentido próprio.


Revista Dada, 1917-18

Hugo nasceu em Pirmasens, pequena cidade alemã da Renânia e, ainda jovem, já era diretor de teatro em Munique, no Munich Chamber Theater, além de colaborador numa revista intitulada Revolution. Recusou cumprir seu serviço militar no exército alemão e tornou-se desertor. Era um personagem inovador e contestatário, tendo “inventado” poemas constituídos apenas por sons, simples fonemas, flatus vocis, que não representavam palavras coerentes, nem conceitos, mas apenas efeitos acústicos, como Gadji Beri Bimba.

Abaixo, os primeiros versos do poema “sonoro” Gadji beri bimba , de Hugo Ball. Não esquecer que em Zurique o idioma é o alemão – se é que isso importava aos dadaístas.

“gadji beri bimba glandridi laula lonni cadori
gadjama gramma berida bimbala glandri galassassa laulitalomini
gadji beri bin blassa glassala laula lonni cadorsu sassala bim
gadjama tuffm i zimzalla binban gligla wowolimai bin beri ban”

Hugo era um show man, e de fato seriam necessárias algumas décadas para que os ambientes artísticos, a partir de 1960, aceitassem este tipo de performance como forma de arte. Não por acaso, quando publicou excertos de seu diário do período dadaísta, Hugo os intitulou Flucht aus der Zeit (Fuga do Tempo). O Cabaret Voltaire liderou o movimento dadaísta suíço até 1917, e ali confraternizaram artistas como Hans Arp franco-alemão, 1886-1966); Marcel Janco (húngaro, 1895-1984); e Tristan Tzara (romeno, 1896-1963).

Emmy também era oriunda de uma pequena cidade alemã, e iniciava uma carreira de escritora quando conheceu o futuro marido em 1913, no Cabaret Simplizissimus, de Munique, onde se apresentava como artista profissional de cabaret, partindo depois junto com ele para Berlim e, mais tarde, para Zurique.  


Hugo Ball em performance, representando o mágico Bischof em roupas cubistas,
Zurique, 1916, foto do arquivo Nachlass Hugo Ball und Emmy
Hennings Schweizerisches Literaturarchiv, de Berna

 


Tristan Tzara

 


Raoul Hausmann, Cabeça Mecâmica – O Espírito do nosso Tempo
(Der Geist unserer Zeit), Berlim 1919.

 


Johnson contra Cravan, poster anunciando de luta de box,Barcelona, 1916.

 

Tristan Tzara (1896-1963), na verdade Samy Rosenstock, um romeno de origem judaica, um dos fundadores do Cabaret Voltaire, era poeta e ensaísta. Seu pseudônimo significava, em tradução livre, “Terra Triste”. Em 1917, quando Hugo Ball saiu de Zurique, ele assumiu o comando dos dadaístas. Como muitos intelectuais da época, engajou-se no comunismo e na resistência ao nazismo, enquanto produzia ensaios e poemas.

Marcel Janco (húngaro, 1895-1984), também de origem judaica, era poeta e pintor, tendo inclusive ilustrado poemas de Tzara. Fugindo à perseguição nazista, em 1941 foi para Israel (morreu em Tel Aviv), onde continuou sua carreira literária, realizando poemas fonéticos, à maneira de Ball.

Hans Peter Wilhelm Arp (1866-1966) entre os dadaístas foi aquele que deixou obra artística visual mais expressiva. Praticou a pintura, escultura, colagens e relevos. Nascido em Estrasburgo, na Alsácia, quando a região fazia parte da Alemanha, era filho de pai alemão e mãe francesa. Em 1915, desertando do exército alemão, foi viver em Zurique (em 1926 acabaria por optar nacionalidade da mãe). Sua personalidade criativa o levou a participar, além do dadaísmo, em movimentos como o grupo Cobra e o surrealismo, tendo adquirido, como artista, notoriedade internacional e sucesso comercial.

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Em Berlim, antes de se refugiar na Suíça, o casal Hugo-Emmy frequentava o Café des Westens, que fervilhava de ideias e espírito revolucionário. Naquele ano (1914) os “vermelhos” Rosa Luxemburgo (1871-1919) e seu companheiro Karl Liebknecht (1871-1919) fundaram na Alemanha a Liga Espártaco (alusão ao líder escravo que chefiou revoltas contra o Império Romano) e, em 1918, o jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha). Os dois morreram assassinados pelos nazistas, junto com centenas de seus seguidores, sem jamais terem sido julgados. Este ambiente social explosivo, explica o exacerbamento político dos dadaístas. Zurique encontrava-se no epicentro de um conflito bélico global de proporções até então nunca vistas, nem imaginadas.

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Por outro lado, aproximava-se a Revolução Russa de 1917, enquanto o czarismo derrocava, afundando em seus erros e crimes. Na época, o mais importante líder comunista russo, Lenin, seguia um périplo no seu exílio, chegando à Suíça em 1914, primeiro a Berna e depois mudando-se para Zurique. E foi nesta cidade que Lenin, dois anos depois, escreveu Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, um dos textos que serviram de base à orientação dos marxistas de todo o mundo. Zurique, na Suíça, era um refúgio para os revolucionários, assim como Munique, na Alemanha, se tornaria, na década de 1920, o olho do furacão nazista. Em 1917 diversos movimentos pacifistas explodiram na Alemanha.

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Mais tarde, Hans Arp, um dos artistas que aderiu ao movimento, escreveu: “… revoltados com a carnificina da Primeira Guerra, permanecemos em Zurique, nos dedicando (somente) às artes. Enquanto as armas rugiam ao longe, nós cantamos, pintamos, fizemos colagens, escrevemos poemas com todas as nossas energias.”

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Um dos escritores que reproduziu esse cenário de chumbo foi Franz Kafka (1883-1924), judeu nascido em Praga, mas que escrevia em alemão. Em 1915 publicou Metamorfose uma novela densa e enigmática sobre um homem comum, que um dia acorda transformado em um inseto nojento.
Se revivermos o momento histórico em que aconteceu o dadaísmo, suas propostas não parecem pueris. As guerras e seu cortejo de infâmias, num continente dilacerado sistematicamente por conflitos intermináveis, não apareciam aos olhos dos artistas como algo sensato, mas completamente ilógico, uma ignomínia sem explicação. Os dadaístas esperavam que a sociedade ousasse se mirar num espelho, para sentir todo o absurdo da situação. Ou seja: o dadaísmo, quando comparado à brutal realidade, parecia um divertimento inocente.

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Em 1915, três artistas declaradamente dadaístas rumaram para Nova York, onde pretendiam estabelecer-se profissionalmente: Man Ray (na verdade Emanuel Rudzistsky, norte-americano, fotógrafo e pintor, 1890-1976); Francis Picabia (francês, pintor e poeta, 1879-1953); e Marcel Duchamp (francês, artista e teórico, 1887-1968). Fundaram a revista 291, porém, não obtendo notoriedade, acabaram voltando para a Europa.


Marcel Duchamp, Fonte, foto de Alfred Stieglitz em Nova York, 1917.

 

 


Man Ray, Solarização, foto, 1929

 

 

 


Man Ray, Mulher desenhando, 1912

 

 


Francis Picabia, Lu-Li, 1947

 

Na Alemanha, antes mesmo da Primeira Guerra terminar, em 1918, o dadaísmo  chegou a Colônia, Hanover e Berlim, contando-se entre eles o mencionado Hans Arp, Marx Ernst (alemão, pintor, escultor, um dos artistas mais influentes da primeira metade do século 20, 1891-1976), mais Kurt Schwitters (alemão, pintor, escultor e poeta, (1887-1948).

 


Hans Arp, Bigodes, circa 1925, Tate Gallery, Londres

 

 


Merzbau, Kurt Schwitters, Hannover 1923

 

 


Max Ernst, Uma maneira de ser (também) pode ser arte, 1919

 

A partir de 1919, o dadaísmo se fixou definitivamente em Paris, tendo como corifeus o citado Tristan Tzara, além de Francis Picabia, Man Ray e André Breton (francês, escritor, poeta, teórico do surrealismo, 1896-1966).

O Brasil, como os Estados Unidos, não experimentava as convulsões sociais da Europa. As condições objetivas para o surgimento e a expansão do dadaísmo eram quase inexistentes. Mesmo assim, alguma repercussão teve o movimento no país.

No Brasil, uma performance que lembra o espírito dadaísta foi realizada, em outubro de 1956, pelo artista Flávio de Carvalho (1899-1973) que passeou pelo centro de São Paulo vestindo o seu New Look, na verdade um traje supostamente adequado ao calor, que incluía uma blusa com mangas curtas, saiote, chapéu e sandálias. O poeta Manuel Bandeira e o pintor Ismael Nery, em alguns momentos, igualmente foram influenciados pelo dadaísmo. Mário de Andrade, autor de Paulicéia Desvairada, ali incluiu um poema que exprime a aversão à sociedade estabelecida: “… Eu insulto o burgês! O burguês-níquel, / o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! …”

 


Flávio de Carvalho e seu New Look, 1956

Apesar do dadaísmo não ter, praticamente, sobrevivido à Primeira Guerra, algumas de suas teses contaminaram o expressionismo (inclusive o expressionismo Abstrato), o surrealismo, a arte conceitual e a Pop Arte.

CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO

Será possível determinar algumas “características”, ou chamar o dadaísmo de “movimento” , quando seus seguidores  exorcizavam quaisquer atributos para classificar suas próprias ações? Porque sua única regra era: não observar regras.

Em suas apresentações, os dadaístas tratavam, em primeiro lugar, de provocar reações negativas ou de repulsa, entre os circunstantes. Nas suas obras havia traços que provinham de outros movimentos artísticos, como o expressionismo, o cubismo e o futurismo, mas esta herança não devia interferir com as violentas mensagens dadaístas. Mais tarde, alguns artistas dada aderiram ao surrealismo, que lhes pareceu bem mais consistente sob o ponto de vista estético. No Cabaret Voltaire, as manifestações não eram adocicadas como caprichos intelectuais, antes reações barulhentas  e raivosas. Ao ponto de os próprios seguidores aceitarem que uma hipótese viável para o futuro do movimento seria a sua autodestruição.

Pode também notar-se no dadaísmo a influência do niilismo do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1884-1900). Este defendia que o ser humano, tendo chegado à conclusão que o cristianismo era um conjunto de falsidades, passaria a manter uma desconfiança total em relação a todos os valores, concluindo que nada que o cerca tem sentido, nem na sua vida pessoal, nem sob os pontos de vista religioso ou metafísico (décadas mais tarde, o movimento filosófico existencialismo voltaria a estas teses, com pessimismo semelhante).

Também não havia limites ou preferências por qualquer forma de arte, fosse pintura, tecelagem, arte em vidro, música, poesia “sonora”, fotomontagens, teatro, ou objetos prontos (ready made).

O artista francês Marcel Duchamp (1887-1968) trouxe para o dadaísmo o objet trouvé, ou tout fait (do francês: objeto encontrado por acaso – rótulos de garrafas, tíquetes de metro ou de ônibus, produtos industriais sem serem modificados, embalagens de bebidas, coisas achadas em latas de lixo)  o qual poderia se incorporar à obra de arte, mesmo sem qualquer interferência do artista no seu aspecto visual. Em inglês este objeto se designa como produto ready-made.

 


Marcel Duchamp jogando xadrez, um de seus passatempos favoritos

 


Marcel Duchamp, readymade, porta-garrafas

 


Marcel. Duchamp, ready made, Roda de bicicleta

 


Marcel Duchamp, Gioconda. Em 1919, o artista colocou um bigode
sobre uma reprodução barata do célebre quadro de Da Vinci, com a inscrição LHOOQ.
Soletrando em francês, estas letras se pronunciam como “elle a chaud au cul”
(que, em tradução livre, quer dizer: ela tem fogo no rabo).
Esta apropriação vulgar da obra de um clássico permaneceu
como um símbolo da iconoclastia dos dadaístas.

 

***

Escreveu Tristan Tzara “… Eu redijo um manifesto e não quero nada… sou, por princípio, contra manifestos … redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, num único sopro… sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem a favor nem contra e não vou explicar porque razão odeio o bom-senso…”

ARTES VISUAIS NA ÉPOCA DO DADAÍSMO
Como era o ambiente das artes visuais na época do dadaísmo? Que escolas, ou movimentos, aconteciam naquele período? Continuavam as escolas tradicionais, como o romantismo, o classicismo, o academicismo e o impressionismo, todos eles encarados com desdém pelos vanguardistas, que se alinhavam à margem do figurativismo tradicional. Os principais movimentos contestatários eram:

 

EXPRESSIONISMO. Na cidade alemã de Dresden, em 1905, tinha surgido uma facção de artistas que se congregavam em torno de propostas vanguardistas. Seu grupo se chamava Die Brücke (A Ponte). Entre os nomes que ficaram: Erich Heckel (1883-1970), Emil Nolde (1867-1956) e Ernst Kirchner (1880-1938).
Este núcleo inicial deu origem a um movimento mais amplo e o expressionismo se espalhou pela Europa e Américas.  “… Seus integrantes não se conformavam com o fato de, naquele tempo conturbado e violento, os artistas continuarem a pintar à maneira ‘agradável’ das décadas anteriores (classicismo, romantismo, impressionismo, pontilhismo, art nouveau). Procuravam refletir as emoções, a revolta interior e denunciar a violência social. Usavam cores fortes, recusavam a verosimilhança da obra de arte com seu objeto, a luz aprazível das obras de escolas anteriores. A arte seria ação, não contemplação; deveria ser uma projeção da mente do artista para fora, não assimilação plácida do mundo real. Utilizavam pinceladas grossas e vigorosas, exercendo a crítica social com suas figuras deformadas… ” Foram figuras dominantes do expressionismo: o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944); os franceses Georges Rouault (1871-1958), Henri Matisse (1869-1954) e André Derain (1880-1954); e o austríaco Oskar Kokoschka (1886-1980).

 

CUBISMO.  Foi iniciado em Paris, com as contribuições de Georges Braque (1882-1963) e Pablo Picasso (1881-1973) os quais, por sua vez, se inspiravam em Paul Cézanne (1839-1906). Entre os críticos convencionou-se que o marco inicial da escola seria o quadro de Picasso Les demoiselles d’ Avignon (As moças de Avignon) pintado em 1907. Neste período inicial houve igualmente a contribuição de vanguardistas russos, alguns fazendo parte do chamado cubofuturismo. O cubismo sugeria a substituição do espaço tridimensional (e a perspectiva, que dominava a pintura ocidental, sobretudo desde a tradição do renascimento) por formas geométricas unidimensionais e pelo emprego das cores, numa paleta limitada de cinzentos e marrons. O objeto seria passível de ser representado em várias imagens espaciais simultâneas. Por exemplo, o retrato de uma pessoa poderia apresentá-la de frente e de perfil, no mesmo quadro.

 

FUTURISMO. Em Milão, Itália, o poeta italiano Fillipo Tommaso Marinetti (1876-1944) lançou em 1909 seu Manifesto Futurista. Segundo este libelo, a arte deveria libertar-se do passado e assumir o papel que lhe caberia perante o novo mundo industrial. Em vez da contemplação teria que cultuar a velocidade, a violência, as máquinas: “… Declaramos que o esplendor do mundo foi enriquecido com uma nova forma de beleza, a beleza da velocidade. Glorificamos a guerra – a única verdadeira higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo … destruiremos museus, bibliotecas e lutaremos contra o moralismo, feminismo e todas as formas de covardia utilitária…”

 

SURREALISMO. Devem-se assinalar algumas raízes comuns com o dadaísmo. Como data aceitável para o início do surrealismo pode indicar-se 1919, quando o artista alemão Max Ernst (1891-1976) participou de uma exposição em Colônia, Alemanha. Seus trabalhos faziam parte da mostra Novas Tendências, da qual participavam dadaístas. Entre as obras havia instalações, tendo esculturas com fios, colagens, objetos encontrados ao acaso e apetrechos científicos. Logo após esta mostra,Breton escreveu a Ernst e desta sua colaboração iriam brotar as primeiras manifestações surrealistas. Em 1920, as colagens exibidas em Colônia provocaram o espanto de intelectuais como Tristan Tzara e o poeta francês Louis Aragon (1897-1982). Em relação aos dadaístas, os surrealistas haviam absorvido mais informações sobre a mente humana, sobretudo pela difusão das teorias psicanalíticas de Freud, o que proporcionou ao movimento surrealista mais densidade e consistência intelectual do que se verificava no dadaísmo.

 


Max Ernst, Édipo Rei, 1922. Influência surrealista

 

BAUHAUS. Em 1920, poucos anos depois do Cabaret Voltaire, em Weimar, cidade alemã  na contramão de todos estes movimentos, anteriormente citados,  com posturas pessimistas, surgiu o Bauhaus, uma espécie de Secretaria de Estado para a Construção, originariamente dirigida por Walter Adolf Gropius (1883-1969). 

O Bauhaus advogava papel mais importante para a arquitetura e o design, perseguindo a máxima economia de materiais, atendendo às finalidades práticas do fazer artístico. Não era uma proposta somente estética, mas social e política, pois o convívio teve um efeito didático, mesclando cérebros criadores com ofícios manuais.

Em 1925, Gropius projetou uma escola em outra cidade germânica, Dassau, na qual continuou a mostrar o respeito e atenção por cada material, sempre cuidando de baratear os custos das construções e do mobiliário. Com este ponto de vista, passaram a desenhar-se e a fabricar-se, em escala industrial, cadeiras, mesas, instalações tubulares, atividades em que se destacaram Mies van der Rohe (1866-1969) e artistas de vanguarda atraídos pelas propostas. Nomes que ficariam para a posteridade, como Paul Klee (1897-1940), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Moholy-Nagy (1895-1946), ensinaram na Bauhaus. Le Corbusier (Édouard Jeanneret-Gris, dito 1887-1965) foi um dos talentos que estabeleceu contato importante com os inovadores. Além disso, o Bauhaus teve contribuição inestimável para a segunda fase do Art Déco.

Em 1928, Gropius foi substituído na direção até que, após pressão dos nazistas, finalmente a escola foi fechada, em 1933. A diáspora levou alguns de seus artistas para os EUA, inclusive Gropius.

ARMORY SHOW. Pode ser considerada a primeira grande exposição de arte moderna em qualquer parte do mundo. Foi realizada em Nova York em fevereiro e março de 1913, dela participando importantes artistas europeus, como Paul Gauguin (1848-1903), Pablo Picasso (1881-1973) e Marcel Duchamp (1887-1968). Mostraram-se mais de mil obras de diversas tendências, que iam do impressionismo às (então recentes) experiências abstratizantes. O nome da exposição (Armory, arsenal de armas), organizada pela Associação dos Pintores e Escultores Americanos, advém do fato de ter sido realizada nas dependências de um antigo regimento militar. Teve grande importância para a arte norte-americana, pois a colocou em contato com as vanguardas europeias.

 

Fontes

Em português

Chilvers, Ian, Dicionário Oxford de Arte, tradução de Marcelo Brandão Cipolla. Martins Fontes, São Paulo, 1996.

Dempsey, Amy, Estilos, escolas e movimentos, tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Cosac & Naify, São Paulo, 2003.

Richter, Hans, Dadá: arte e antiarte. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1993.

http://dododadaismo.blogspot.com.br/p/dadaismo-no-brasil.html
http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_795.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dada%C3%ADsmo
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/dadaismo/dadaismo-1.php

Em francês

http://www.le-dadaisme.com/

Em inglês

http://www.writing.upenn.edu/~afilreis/88/dada-def.html
http://www.theartstory.org/movement-performance-art.htm

Em espanhol

http://www.arteespana.com/dadaismo.htm

 

Carpinejar…

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Odeio atenuantes, desculpas, restrições. Odeio quem marca e desmarca. Odeio quem maltrata a esperança do outro, quem não cuida da expectativa que mesmo criou. Odeio quem afirma que não tem saída, que surgiu algo importante, que está de mãos amarradas. Sempre há o que fazer. Sempre podemos escolher.
Odeio quem diz que vai e depois retira a palavra. Quem sempre inventa um senão de última hora. Quem não banca seu desejo. Quem finge intensidade para soar romântico. Adiar não é esperança. Um sim pela metade é não. Respeito aquele que sofre de medo, jamais respeito aquele que aceita ser menor do que o medo. Respeito aquele que sofre de dúvida, jamais respeito aquele que coleciona incertezas. Na paixão, ou é ou não é. Não se negocia com a loucura.

Carpinejar

O homem fofo é o canalha de fato – Xico Sá

 

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Ovídio, meu eficiente pombo correio do amor, não cansa de trazer mensagens e mais mensagens de corações trincados ou simplesmente descrentes nos homens. Ovídio arrulha, como se dissesse: meu amo, meu paciente conselheiro sentimental, te viras que a bronca é pesada. Novos ares, partiu, e lá se vai a avoante figura sobrevoando as encostas do morro do Cantagalo em busca de novas cartinhas.

O principal assunto das cartas que tenho recebido é o seguinte: o cara vem cheio de chabadabadás para cima das moças -principalmente nas redes sociais-, a conversa pega fogo, rola o encontro, o rapaz é fofo e carinhoso, o sexo para começo de história está ótimo, o menino joga na linguagem de um possível caso ou namoro, segue a vida, mais uma saída, um sexozinho gostoso de novo…

Alguns dão até presentinhos…

Fofo!!!

Aí do nada o desgraçado desaparece. Quebra geral a narrativa. Nem um sinal de tambor na floresta, necas de uma mensagenzinha, mesmo que sem graça, em uma garrafa atirada nos mares da internet.

A moça tenta um contato de terceiro grau. Nada. A moça, amigo, vos digo, não é uma desesperada que viu no encontro uma cena de matrimônio. Ao contrário. Estava na dela, tipo ele fala em casamento… ela toma uma coca zero. Nem aí mesmo.

Só fica puta da vida porque o miserável das costas ocas, o malassombro, não é claro no seu sumiço. Havia até falado em ver “O grande hotel Budapeste”, o filme, com a nega. Sem se falar em outras fofuras futuras etc.

Aí chegamos ao ponto, colega. Os fofos são os piores nesse aspecto. Só os fofos pulverizam o ambiente com o bom-ar das falsas promessas. Os fofos sentem a extrema necessidade de continuarem fofos. Amam ser elogiados pela utópica fofolândia que carregam no mapa imaginário de bolso.

Não vivem sem isso. São escravos da fofura ou da falsa e viciante fofura.

O cafajeste até deixa um certo suspense, afinal de contas sabe que o encontro de um homem e uma mulher é e sempre será dirigido pelo cineasta Hitchcock, mas o cafa não engana com os signos da fofice de um possível namoro. Todo cafa é apenas um budista -sem templo- que vive o momento amoroso.

O perigo, nesse sentido, amiga, vem do fofo. O que apenas prova que o contrário da cafajestice não é a fofura. O bom homem é, digamos assim, o homem normal, o homem da agricultura, da pecuária, o vaqueiro, o suburbano sem os arrotos do canalha-bouquet dos vinhos finos –mas aí já seria outra crônica.

O fofo pode ser sim um perigo. Sendo indie ou não.

O fofo sofre de um certo don-juanismo, a doença da conquista pelos bons modos e a boa impressão que causa. Aquele que faz a moça ligar para a amiga no dia seguinte e dizer, na euforia, “bicha, num acredito, o que é esse homem, tão sensível, curte literatura, ama o Morrissey…”

O fofo tem sangue frio na sua arquitetura da decepção. O fofo constrói todo um repertório de coincidência de meus livros, meus discos, minhas bandas etc.

Sumir todo mundo some, homem, mulher etc, mas na equação entre promessa e fuga ninguém supera a covardia –sentimental ou sexual- de um um homem dito fofo.

Mulheres… – Tati Bernardi

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Mulher diz tudo o que sente sim, mas com uma grande diferença: sem dizer nada. Sabe quando ela demora para responder suas mensagens? Ela se segurou o dia inteiro para mostrar a você que não teve tempo e que não se importa tanto assim. Sabe quando ela não te chama no msn? Anos de estudos para fazer um doce, fingindo que não está morrendo de saudades. Sabe quando ela passa reto de nariz em pé, toda linda e esnobe? É o ”vou fingir que não te vi”. Sabe quando ela não te responde de primeira? Apenas um teste para ver se você está interessado o suficiente para chamar de novo. Complicadas. Inteligentes. Superiores.

Enquanto eles se acham espertos elas simplesmente são, sem ter que achar nada. Ela diz que te odeia e te manda ir embora, mas experimenta sair de perto dela para ver o que acontece. Ela desliga o telefone na sua cara e diz que vai sair com as amigas a noite porque você nunca a mereceu, e na maioria das vezes ela deita na cama e chora. Seres extremamente fortes, estupidamente sensíveis. Todo homem deveria ter um dia de mulher. Mulher sabe sorrir quando quer chorar. Mulher sabe desprezar quando quer amar. Mulher sabe ignorar quando a maior vontade é ligar e pedir o amor do canalha de volta.

Mulher pensa com o coração e age com a cabeça. Dentro de uma mulher existem sentimentos ocultos. Vulcões em erupção camuflados por enormes geleiras. Mulher tem o poder de passar do lado do babaca que partiu seu coração de salto alto, sorrindo e deixa para chorar em casa. E sabe porque eu gosto de ser mulher? Bom, mulher pode estar perdidamente apaixonada. Pensar nele 24 horas por dia e fazer hora extra. Olhar o telefone de 5 em 5 segundos, e a cada toque, achar que é ele. Mas, meu caro, tenha certeza que você jamais saberá disso.

Na verdade ela pode estar tendo overdose de amor, ataque de ciúmes, caindo os cabelos de raiva. Mas para ele, ela vai estar vendo um filme de romance na tv e repetindo milhares e milhares de vezes: ”Homem? Ahh.. Só fazendo um modelo novo de fábrica. Zero km. E que de preferência não fale, para não mentir.” Ela pode ser meiga e doce, mas experimente dizer isso a ela. Ela simplesmente sorri com olhos de cinismo e diz “vai sonhando”. Ela sonha com uma casa simples e três filhos correndo pela sala, mas te jura que o seu maior sonho é ser bem-sucedida profissionalmente. Dona de casa? Jamais. Enquanto te conta seus planos futuros sobre o emprego e o salário que pretende ganhar, ela tira suas medidas mentalmente para levar no alfaiate da esquina e planejar o terno que você vai estar usando enquanto a espera – com o vestido e o penteado que por ventura, ela já escolheu – no altar.

Tati Bernardi.